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O administrador de recursos humanos Joacyr Alves, 62 anos, costuma dizer que se fosse um gato estaria em sua sexta vida. Restava-lhe apenas uma, na longa trajetória que percorreu brigando com os quilos que só se acumulavam em seu corpo. Em 10 anos, saiu dos 70 kg e foi vendo o ponteiro da balança andar até bater nos 175 kg, que o deixaram praticamente imobilizado.
Nesse período, teve três paradas cardíacas e, por causa de seu frágil estado de saúde, foi incluído em um dos mutirões que a Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo, fez para operar pacientes em estado crítico pelo SUS.
“Eu não consigo indicar exatamente o momento em que os quilos foram se acumulando. Não percebia, apenas olhava. Só notava quando ia comprar uma roupa, e elas tinham que ser cada vez maiores”, relata Alves.
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Antes da intervenção cirúrgica, precisou perder 10 kg. “Foi um esforço enorme.” Os médicos lhe contaram que teve de ser reanimado duas vezes na mesa de cirurgia. Seu coração estava parando, tinha uma osteartrose bilateral de quadril, diabetes, distúrbios metabólicos. Aos 58 anos, não subia uma escada. Os cinco furinhos da laparoscopia que foram feitos para sua bariátrica mudaram sua vida. Perdeu praticamente 80 kg.
Desde que as “canetas emagrecedoras” passaram a ser amplamente divulgadas, especialmente no boca a boca de pessoas que diziam, e dizem, terem perdido um número substancial de quilos, exibindo silhuetas mais enxutas, o tratamento da obesidade vem passando por vários debates. O mais consistente se resume a “canetas x bariátrica”.
Há especialistas que, nos casos de obesidade nos graus 2 ou 3 (“mórbida” IMC 40), têm certeza de que somente a cirurgia bariátrica pode resolver. Há outros que acreditam que o uso das canetas e, em alguns casos, aliados também a cirurgia, são a melhor solução.
“A obesidade é um problema de saúde pública. E, neste caso, não se trata de canetas x bariátrica. E, sim, caneta e bariátrica”, afirma a endocrinologista Maria Edna de Melo, médica do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, coordenadora da Comissão de Advocacy da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica).
Pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) aponta que o Brasil realizou 291.731 cirurgias bariátricas entre 2020 e 2024 — 31.351 somente pelo Sistema Único de Saúde.
Em 2025, até junho, foram feitas 6.393 bariátricas pela rede pública; até maio, foram 13.954 pelos planos de saúde. Os números crescem, e os últimos levantamentos apontam que 31% da população será obesa até 2030. E não terão se tornado obesos na idade adulta. O Atlas Mundial da Obesidade 2026 calcula que uma em cada cinco crianças e adolescentes (entre 5 e 19 anos) estarão com sobrepeso.
Desde que as canetas começaram a ser indicadas e usadas, não há no Brasil um estudo que demonstre o conceito usado pela endocrinologista Melo. Nos Estados Unidos, um aumento recente no uso de medicamentos GLP (Ozempic, Wegovy, Saxenda, Mounjaro) para tratar a obesidade está associado a uma queda nas cirurgias bariátricas (ou cirurgias para perda de peso), de acordo com um estudo liderado por Thomas Tsai, professor assistente do Departamento de Políticas e Gestão de Saúde da Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan.
No estudo, os pesquisadores analisaram dados de planos de saúde de mais de 17 milhões de pessoas nos EUA. Eles descobriram que, entre 2022 e 2023, as prescrições de medicamentos GLP-1 para pacientes com obesidade mais que dobraram, enquanto a taxa de cirurgias bariátricas diminuiu 25,6%.
“No momento, existe um alto grau de incerteza sobre o que tudo isso significa em termos de volume de cirurgias bariátricas a longo prazo”, disse Tsai no estudo. “Mas, para os pacientes, com todas as diferentes opções de tratamento que existem atualmente, esta é realmente uma era de ouro. O desafio para os próximos anos é garantir que os pacientes tenham acesso a elas.”
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista ao Globo, disse que, depois da queda da patente da semaglutida (o princípio ativo do Ozempic), deverá ser ampliado o acesso ao medicamento, até agora proibitivo para grande parte dos pacientes por causa do custo. O ministério estuda formas de distribui-lo pelo SUS.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 600 milhões de pessoas no mundo sejam afetadas pela obesidade. No Brasil, a Pesquisa Vigitel 2025 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico), divulgada nos primeiros dias de fevereiro e referente ao período entre 2006 e 2024, aponta um crescimento de 118% na obesidade no país entre adultos. Segundo o Vigitel, em 2006, 42,6% da população brasileira adulta tinha excesso de peso. Em 2024, era 62,6%.
A obesidade, caracterizada pelo índice de massa corporal maior que 30, no mesmo período pulou de 11,8% para 25,7%. O aumento acompanha os casos de diabetes, que cresceram 135%, e de hipertensão arterial, 21%. Ambas estão na categoria de doenças crônicas não transmissíveis e costumam estar associadas, multiplicando o risco de mortalidade precoce e, em muitos casos, causando graves complicações.
No Brasil, outros problemas alarmantes tornam o aumento das taxas de obesidade ainda mais preocupantes. Os serviços são falhos e a rede de saúde não está preparada para tratar dessas pessoas com obesidade. A começar pelos procedimentos que antecedem a cirurgia: consultas com psicólogo, nutricionista, endocrinologista.
“Não existem tratamentos para a obesidade no SUS. Até hoje, os tratamentos utilizam a fluoxetina”, afirma a endocrinologista Cláudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio Libanês. A fluoxetina é um antidepressivo usado já há muito tempo. Foi o primeiro inibidor seletivo da recaptação de serotonina, indicado para tratar a depressão e outras enfermidades psiquiátricas.
Depois de ultrapassada a etapa dos tratamentos necessários para a cirurgia, segue então a longa espera que, de acordo com a SBCBM, em alguns estados pode chegar a sete anos. Estima-se que mais de 6 milhões de brasileiros tenham indicação para o procedimento, mas o SUS consegue atender menos de 1% desse público.
“E veja que esse número vem caindo por causa dos medicamentos. Mas eles também são muito caros, portanto, o público que pode usá-los é restrito”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e professor da Santa Casa, João Eduardo Nunes Salles.
Os números brasileiros são preocupantes. Hoje, a obesidade atinge 38,4% da população, quase o dobro da média global, de 20,7%, segundo a Federação Mundial de Obesidade. “Já não há como dar tratamento aos atuais pacientes. O sistema público não tem padronização de conduta para o paciente bariátrico, cuja doença se originou de causas multifatoriais”, diz o presidente da SBCBM, Juliano Canavarros.
Assim como outros especialistas, ele defende que o Ministério da Saúde estabeleça uma fila para a cirurgias bariátricas, tal qual existe para os transplantes. E, além disso, mantenha os medicamentos, suplementos, exercícios etc. que são necessários para a recuperação do paciente operado.
O cirurgião bariátrico do Hospital Sírio Libanês Claudio de Luca também defende a lista e aponta que, do total de pacientes com indicação para cirurgia bariátrica, ele estima que apenas 2% consigam ser atendidos.
Segundo ele, a operação requer condições que não se encontram tão facilmente nas redes públicas, a começar por uma mudança de vida e de hábitos, já antes da intervenção. Depois, são necessários suplementos, acompanhamento psicológico, exercícios e contar com o apoio daqueles que estão próximos.
O tratamento da obesidade precisa passar ainda pela conscientização de que se trata de uma doença crônica progressiva, cujos portadores não podem ser tratados como pessoas displicentes, indisciplinadas, que comem sem parar apenas por gula. E, ainda, segundo De Luca, deve contar com uma política de saúde pública que abrace a causa.
O artista colombiano Fernando Botero (1932-2023), cujas pinturas de figuras rotundas são reconhecidas no mundo inteiro, dizia que era chamado de “pintor das gordas” por aqueles que não entendiam sua obra. Entretanto, fazia questão de explicar que seus quadros exaltavam o volume, não a gordura.
Nos dias de hoje, volume e gordura em demasia nos seres humanos quase sempre são sinônimos de distúrbios metabólicos, hormonais, diabetes e outras doenças, e não displicência ou preguiça. O maior problema deles não é estético. São as consequências na saúde e no bem-estar que vêm sendo combatidas com um arsenal de tratamentos, desde a cirurgia bariátrica às canetas, uma nova esperança para quem sofre com o distúrbio, ainda considerado apenas um padrão comportamental e que terá dado um grande passo em direção à sua cura quando existir a convicção de que se trata de uma doença.
Fonte: Valor Econômico