29 May 2023
A reeleição de Recep Tayyip Erdogan como presidente deve consolidar seu domínio na vida pública da Turquia, um país estrategicamente localizado entre o Ocidente e o Oriente, membro da Otan, mas cortejado pela Rússia e pela China. Para analistas, a vitória deve dar controle ainda mais firme de Erdogan e seu governo cada vez mais autoritário.
“Erdogan tem apoio dos setores conservadores e religiosos do eleitorado de 64 milhões de pessoas, e é reconhecido como o homem forte que posicionou a Turquia como protagonista na geopolítica e deu voz ativa aos religiosos”, afirmou Soner Cagaptay, que chefia a pesquisa sobre a Turquia no Washington Institute, uma organização de pesquisa política, e é autor do livro Um sultão no outono, sobre as mazelas do período Erdogan no poder.
INFRAESTRUTURA. A campanha de Erdogan se concentrou nos avanços que ele disse que a Turquia conseguiu sob seu governo, como um país modernizado por megaprojetos como pontes e aeroportos e uma potência global independente que produzia suas próprias armas militares.
A resiliência do presidente turco, quando consecutivas pesquisas previam sua derrota, certamente denota o controle sistemático de seu partido sobre os meios de comunicação e os tribunais do país. A Freedom House, entidade que classifica o estado da democracia nos países, baixou a colocação da Turquia de “parcialmente livre” para “não livre” em 2018.
O autoritarismo, porém, vai muito além de votos e tiros. Televisão, música, monumentos e memoriais foram as principais alavancas de um projeto político: uma campanha de ressentimento cultural e renascimento nacional.
Fora da Turquia, essa reviravolta cultural é descrita como “islamista”, e Erdogan e seu Partido Justiça e Desenvolvimento, conhecido como AKP, de fato passaram a permitir expressões de religiosidade anteriormente banidas.
Influência externa Campanha insistiu nos avanços que ele disse que a Turquia obteve sob seu governo
No entanto, esta eleição sugere que o nacionalismo, não a religião, pode ser o verdadeiro fio condutor da revolução cultural de Erdogan. Suas celebrações do passado otomano caminham ao lado de esforços nacionalistas não relacionados com o Islã. Com isso, a Turquia se posiciona na vanguarda de uma tendência vista por toda parte hoje, principalmente nos Estados Unidos: quando a indignação é mantida mesmo após a vitória.
Fonte: O Estado de S. Paulo
