![Paulo Moll: “Não entramos naqueles processos [de M&A] com múltiplos de 15 vezes o Ebitda” — Foto: Nilani Goettems/Valor](https://s2-valor.glbimg.com/_L_hUgyqQXackmBAOHWM1E77Chw=/0x0:1153x1153/984x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/I/z/aTbmWVSa6Kv5v2UDoqVg/19emp-100-hospital-b1-img01.jpg)
Com um caixa de R$ 17,5 bilhões, uma quantia superior à soma das outras dez companhias de saúde de capital aberto do país, e baixa alavancagem, a Rede D’Or está investindo cerca de R$ 7,5 bilhões para a abertura de 5,4 mil novos leitos até 2028, o que representa um incremento de 46% sobre a base atual.
A preferência da companhia, neste momento, é pela expansão orgânica, que tem proporcionado melhor retorno quando comparado às aquisições de ativos, que já foram atraentes no passado. Hoje, essas operações enfrentam acordos comerciais depreciados com operadoras de planos de saúde.
Com o arrefecimento da crise do setor, que freou operações de fusões e aquisições (M&A) nos últimos dois anos, deve haver retomada da consolidação no setor, tendo em vista que o mercado hospitalar tem custo elevado, demandando escala para diluição nessa conta.
“No Brasil, os hospitais têm em média 60 leitos, o que é deficitário. Nos EUA, são 170. Na Rede D’Or, esse número é de 150 e chegaremos a 200 com a expansão. Nossa despesa geral e administrativa é de 3%, mas num hospital independente, sem rede, fica em torno de 10%. Por isso, acho que a consolidação faz sentido nesse mercado”, disse Paulo Moll, presidente da Rede D’Or. O grupo tem hoje 74 hospitais, sendo 71 próprios e três sob gestão. Juntos, têm quase 12 mil leitos em 13 Estados brasileiros.
Sobre a destinação do caixa, Moll diz que o desafio em “como alocar capital é um bom problema” e os números atuais também são reflexo de uma postura mais disciplinada no “boom” de aquisições do setor entre 2020 e 2021. “Não entramos naqueles processos com múltiplos de 15 vezes o Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização]. Hoje, estamos tranquilos para fazer frente aos nossos vencimentos e investimentos de expansão orgânica.”
Além do crescimento da companhia, que encerrou o primeiro semestre com receita líquida de R$ 25 bilhões, Moll está empenhado em um projeto de divulgação de indicadores assistenciais de hospitais, no qual a Rede D’Or é pioneira e já começa a levar outros hospitais a seguir o mesmo caminho.
Essa publicação traz dados como taxas de infecção, reinternação, mortalidade, queda e partos, entre outros indicadores, para que o paciente possa escolher o melhor hospital com base na qualidade médica. Nos Estados Unidos, essa é uma prática comum, ao contrário do Brasil.
Nessa esteira, a Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) também começou a publicar os indicadores de seus associados. “Nossos indicadores assistenciais são auditados por uma empresa especializada externa. Começamos a publicar no ano passado. É um meio para o paciente fazer sua escolha com base em dados confiáveis”, disse Moll. Dos hospitais brasileiros com a chancela da Joint Commission International (JCI), principal entidade de certificação do setor, 40% são da Rede D’Or.
Outros grupos também têm investido na construção de hospitais para expandir, mesmo que cada projeto leve em média três anos para ficar pronto. Entre os que estão construindo aparecem a Bradesco Seguros (por meio do seu braço que atua a área, a Atlântica Participações), Mater Dei, Albert Einstein e Sabará, entre outros.
A conta para construção de um hospital é alta, e tem sido encarecida pela chegada de novas tecnologias médicas. A Rede D’Or está investindo em média R$ 1,5 milhão por leito. No passado, cerca de 80% do orçamento dos projetos da D’Or era destinados à obra e terreno e 20%, para tecnologia. Hoje, metade do custo é com as novas tecnologias médicas, considerando os hospitais da marca Star (marca premium da rede).
Com mais de 70 hospitais, a empresa da família Moll iniciou as parcerias e combinações de negócios entre hospitais e operadoras de planos de saúde no país. Em 2022, comprou a SulAmérica e, em maio deste ano, fez uma joint venture com a Bradesco Seguros que iniciará atividades neste semestre, com três hospitais em São Paulo e Rio. As unidades demandaram investimentos de R$ 1,1 bilhão, compartilhados em partes iguais.
Além da divisão das despesas, essa parceria serviu para apaziguar a relação entre os dois grupos, que estava estremecida. Ambos atuam nos mercados de hospital e planos de saúde para os públicos de renda média e alta.
Esse tipo de parceria tornou-se uma tendência. Em maio, a Dasa e a Amil juntaram seus hospitais como uma forma de conseguir melhor retorno e desalavancar as empresas, que enfrentam problemas de alto endividamento. Outros hospitais e operadoras, como Unimed, Oncoclínicas, Mater Dei, Fleury e HCor, também têm fechado acordos comerciais. Nesses casos, as operadoras conseguem negociar pacotes de preço e os prestadores de serviços médicos têm garantia de receita, com acordos em que os planos fazem encaminhamentos de seus usuários.
O presidente da Rede D’Or acredita que esse tipo de transação é uma opção, mas não a única alternativa para enfrentamento de custos no setor que, no mundo todo, sobem muito mais do que a inflação geral. Em sua visão, o grande empecilho para o crescimento do mercado de planos de saúde é a renda do brasileiro. “Hoje, o custo mensal do plano de saúde é de, em média, US$ 80 por vida. Não é elevado, considerando a qualidade assistencial ofertada no Brasil”.
Hoje, há 51,2 milhões de usuários de convênios médicos no país, o equivalente a 25% da população – mesmo patamar de 2014. Após o início da pandemia, o setor viu um incremento de cerca de 4 milhões pessoas com o benefício, mas a taxa de crescimento já não avança na mesma proporção do verificado em 2020 e 2021.
Segundo Moll, o que pode mudar isso é o aumento de pessoas com carteira assinada. No segundo trimestre, a taxa de desemprego caiu a 6,9%, menor patamar para o período desde 2014 (quando havia 50,5 milhões de usuários de convênio). “Se continuarmos com a queda no desemprego, como estamos verificando, acredito que esse mercado pode crescer. Com mais empregos e competição por talentos, a oferta de um bom plano de saúde é um diferencial. Isso já acontece na área de tecnologia e pode se estender a outras áreas.”
Fonte: Valor Econômico