A fabricante de calçados GrendeneCotação de Grendene é a companhia mais inovadora e preocupada com sua perenidade entre as indústrias brasileiras com ações negociadas na B3. É o que mostra o ranking Indicador de Avanço Financeiro e Tecnológico (IAFT), criado pela consultoria Grownt, especializada do desenvolvimento e gestão de projetos para captura de recursos e incentivos para inovação.
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Segundo o ranking, que leva em conta 53 indústrias com ações na B3, com dados atualizados até o primeiro trimestre deste ano a pedido do Valor, a GrendeneCotação de Grendene obteve 93,96% — de um total de 100% — no IAFT. “Ela é uma empresa de bens de consumo e tem uma necessidade natural de lançar novos produtos para canibalizar os seus próprios”, avalia Fabrizio Gammino, sócio-fundador e copresidente da Grownt. “Ela empilhou um volume grande de itens neste ranking.”
A fabricante de bebidas AmbevCotação de Ambev é a segunda do ranking, com pontuação de 91,13%, seguida pela Companhia Brasileira de AlumínioCotação de Companhia Brasileira de Alumínio (CBACotação de CBA), que marcou 85,49% no final do primeiro trimestre. A produtora de alimentos M. Dias Branco ocupa a quarta colocação, com 84,73%.
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De acordo com a consultoria, a nota final de cada empresa é resultado da combinação de quatro indicadores. O primeiro é “geração de riqueza”, composto pelos dados de margem operacional e crescimento nominal do lucro. A seguir vem “riqueza comprometida com alavancagem”, que mostra o total de anos necessários para quitar a dívida líquida. O terceiro indicador é “juros menores”, composto pela qualidade da dívida ou posição credora e eficiência da tesouraria.
Por fim, mas não menos importante, o “ranking de inovação”, que leva em conta a intensidade tecnológica medida por patentes, desenhos industriais, marcas, softwares, uso da Lei do Bem e captações junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e à agência Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). A Grownt atribui ainda um grau para cada companhia, estabelecido pelo desempenho nos quatro indicadores, além de um perfil. Ambos estão relacionados com o percentual total que cada empresa atingiu.
“O indicador financeiro é uma fotografia do presente e do passado. Mas, se a empresa investe em inovação, quanto mais ativa ela é, eu consigo assegurar que ela está preocupada com sua perenidade”, diz Gammino.
Segundo ele, um terço do IAFT é composto pelos tópicos referentes à inovação. Como exemplo, uma companhia que tenha feito uso da Lei do Bem nos dois meses anteriores, recebe 5 pontos. A Lei do Bem concede reduções de impostos para empresas que investem em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica.
Se a empresa registrou um software, mais 5 pontos. Cada R$ 1 milhão obtido em financiamento da Finep vale 1 ponto, enquanto um registro de patente ganha 10 pontos, entre outros itens. Ao final, todos os pontos são somados e transformados em percentuais.
Pela análise elaborada pela Grownt, a GrendeneCotação de Grendene apresentou um lucro ajustado sem depreciações e amortizações de R$ 127 milhões no primeiro trimestre deste ano. “Para uma empresa que auferiu receita líquida no período de R$ 534 milhões, isso representa um indicador de geração de riqueza de 24% no trimestre”, diz o texto. Dos 22,2% de pontos possíveis neste subquesito, essa colocação rendeu 20,34% à empresa.
No segundo item que compõe a nota de geração de riqueza, o crescimento nominal do lucro entre o primeiro trimestre do ano passado e o deste ano, a GrendeneCotação de Grendene apresentou retração de 6%. Assim, dos 11,11% de pontos possíveis deste subquesito, ela marcou 6,97%. A consultoria destaca que, das companhias analisadas, apenas 18 tiveram crescimento de geração de riqueza de 2025 para 2026.
“Saindo do desempenho operacional, outros 33,33% da nota total dividem-se em dois quesitos que dizem respeito ao grau de alavancagem (16,66%) e à performance de investimentos e tesouraria da empresa avaliada (16,66%)”, afirma. No caso da GrendeneCotação de Grendene, como demostrou dívida líquida negativa ou virtualmente zerada diante dos recursos em caixa, isso a capacitou a registrar os 16,66% de pontos no subquesito de alavancagem (quitação da dívida em zero ano). O resultado financeiro no trimestre foi de R$ 73 milhões e sua dívida líquida negativa em R$ 650 milhões, “ilustrando a qualidade de sua posição credora e a eficiência de tesouraria, o que lhe adicionou os 16,66% no subquesito de menores juros”.
O indicador de inovação “ilustra a inquietação da empresa para plantar diferenciais competitivos, seja por meio de desenhos industriais e softwares, marcas ou patentes, seja por recursos aplicados em P&D via financiamentos de inovação junto à Finep e ao BNDES, ou ainda pelo benefício fiscal de inovação, a Lei do Bem”.
Nesse item, a GrendeneCotação de Grendene registrou em 12 meses 102 desenhos industriais (2.040 pontos); 20 marcas registradas (200 pontos); o benefício da Lei do Bem (20 pontos), totalizando 2.260 pontos, “liderança isolada no quesito de inovação, bem à frente da BlauCotação de Blau Farmacêutica (com 1.510 pontos) e Embraer (com 1.416 pontos). Por isso, capturou o total de pontos disponível neste subquesito (33,33%)”, analisa a Grownt. Os dados referentes à inovação são os apresentados durante o ano de 2025. Procurada, a GrendeneCotação de Grendene não quis dar entrevista.
A AmbevCotação de Ambev, segunda colocada no IAFT, registrou 71 marcas nos últimos 12 meses e usou o benefício da Lei do Bem, o que lhe garantiu a oitava colocação no ranking de inovação, com 29,38%. Gabriela Gallo, diretora de inovações da cervejaria, diz que a companhia investiu R$ 10 bilhões em inovação nos últimos três anos.
A área conta com o trabalho de 200 pessoas apenas no Brasil, “fora os que estão nas unidades no exterior”. “A AmbevCotação de Ambev tem o desafio de liderar, de fato, a categoria de cervejas. Nosso desafio de longo prazo é manter essa posição. E inovação tem muita relação com esse desafio”, afirma a executiva da AmbevCotação de Ambev.
Segunda companhia no ranking de inovação, a BlauCotação de Blau Farmacêutica investe anualmente cerca de R$ 200 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Tem um estoque de 585 marcas registradas. De acordo com Uilberson Silva, diretor-presidente do Inventta-ICT, instituto fundado pela empresa e pelo Laboratório Bergamo, a principal aposta da BlauCotação de Blau atualmente é o medicamento biossimilar de pembrolizumabe, destinado para imunoterapia do câncer, que trata até 20 tipos da doença. No IAFT, ela ocupa a 18ª posição.
O medicamento da BlauCotação de Blau é biossimilar do Keytruda, da americana Merck. Silva lembra que a patente do medicamento expira em 2028. Por conta disso, a BlauCotação de Blau planeja o lançamento do seu para 2028 ou 2029. “Na Europa, a patente expira em 2031. O Brasil será o primeiro país a receber nosso medicamento”. Além dele, a equipe de 200 pesquisadores da farmacêutica trabalha em três outros medicamentos.
Segundo Silva, os investimentos da BlauCotação de Blau são feitos com capital próprio, mas a companhia também tem olhado linhas de fomento da Finep. “É uma forma de podermos acelerar o desenvolvimento de produtos em fases iniciais. É uma ferramenta poderosa”, avalia.
A CBACotação de CBA, de acordo com os dados da Grownt, por sua vez, captou R$ 716 milhões com o BNDES-Inovação mais R$ 109 milhões com a Finep em 12 meses e usou a Lei do Bem, o que lhe rendeu 31,07% no subquesito de inovação, com a quinta marca nesse ranking. A fabricante de alumínio destina de 1% a 5% da receita aos projetos de inovação, segundo a gerente da área, Maria Eugênia Meireles.
Em entrevista por escrito, ela conta que a CBACotação de CBA tem um programa denominado DigitALL, estruturado em três níveis: definição da estratégia e direcionamento dos investimentos, experimentação e validação de soluções, e implementação em escala. “Em 2025, os projetos do programa DigitALL geraram R$ 42,5 milhões em benefícios acumulados, provenientes de ganhos de produtividade, otimização de processos e redução de desperdícios, evidenciando a relevância do programa na criação de valor para o negócio”, acrescenta Maria Eugênia.
A área de inovação conta com 26 funcionários dedicados totalmente, e outros 32 com dedicação parcial.
A M. Dias Branco, quarta colocada no ranking geral, registrou 49 marcas, captou R$ 164 milhões com a Finep e usou a Lei do Bem, conquistando a nona colocação no ranking de inovação, com 28,81% no subquesito. Segundo informações da empresa, na área de pesquisa e desenvolvimento atuam 60 pessoas, profissionais das ciências de engenharia de alimentos, engenharia química, química industrial e correlatas. A M. Dias Branco não divulga o orçamento da área.
A WEG, quinta colocada no ranking geral e 14ª no de inovação, tem o compromisso de aplicar de 2% a 3% da receita em pesquisa e desenvolvimento. O vice-presidente de tecnologia, Carlos José Bastos Grillo, conta que, em 2025, sua área ficou com 3,4% da receita. A meta é ampliar a receita e, para isso, inovação é fundamental, afirma.
Dos 49 mil funcionários da WEG no mundo, 5,5 mil são engenheiros. “Todos se envolvem com inovação”, diz ele. A companhia conta com 149 laboratórios, sendo 92 no Brasil, 15 na China e 12 nos Estados Unidos.
Um dos últimos itens que saíram dos laboratórios foi a estação para recarga de veículos elétricos com potência de 640 quilowatts. “Ela já está começando a chegar nos postos de combustíveis e foi adotada pelos ônibus elétricos de São Paulo”, diz. “É mais rápida para fazer o carregamento. Quanto maior a potência, mais rápido é o carregamento.”
A siderúrgica CSN está na sétima colocação na lista das indústrias mais inovadoras elaborada pela Grownt. Entre os destaques do ano passado nessa área, estão os “investimentos de R$ 60 milhões no Projeto Selene, com financiamento da Finep, voltado ao desenvolvimento da cadeia de hidrogênio verde no Paraná, e de mais de R$ 150 milhões na produção industrial de materiais experimentais de maior valor agregado, destinados à avaliação, homologação e introdução de novos produtos”, diz Marcio Lins, gerente-geral de desenvolvimento de produtos do grupo.
Lins conta, em entrevista por escrito, que a companhia investiu R$ 12 milhões em seu centro de pesquisas, em Volta Redonda (RJ), que reúne uma equipe multidisciplinar dedicada ao desenvolvimento de novos produtos e processos para os negócios da CSN, entre outros projetos.
Do trabalho elaborado pela Grownt, merece destaque o desempenho da HyperaCotação de Hypera. A farmacêutica subiu 33 posições no ranking geral (IAFT) entre o primeiro trimestre do ano passado e deste ano, passando da 43ª para a 10ª posição.
De acordo com a consultoria, essa ascensão decorreu principalmente de uma “expressiva evolução operacional”, já que a empresa passou de um resultado sem depreciações e amortizações negativo de R$ 64 milhões para um lucro ajustado de R$ 431 milhões, e ampliou sua receita líquida de R$ 1,08 bilhão para R$ 2,018 bilhões.
“Como consequência, a geração de riqueza evoluiu de -5,89% para 21% no primeiro trimestre, elevando significativamente a pontuação obtida no subquesito — de 2,3% para 19,21% dos 22,2% pontos possíveis”, afirma a análise
No subquesito inovação, a HyperaCotação de Hypera ficou na quarta posição, obtendo 32% dos 33% possíveis. Segundo a companhia, no ano passado, os investimentos da área foram de R$ 500 milhões. A HyperaCotação de Hypera conta com um centro de desenvolvimento, o Hynova, no qual trabalham 280 profissionais.
Os executivos da Grownt destacam que o indicador IAFT foi desenvolvido a partir de dados públicos e critérios técnicos, sem qualquer influência externa. A empresa não tem relações comerciais com as companhias mencionadas no levantamento.
As demais empresas citadas no quadro não quiseram se pronunciar ou não atenderam aos pedidos de entrevista.
Fonte: Valor Econômico