O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, fez um comentário mais suave (“dovish”, no jargão do mercado) em relação ao cenário inflacionário que fez investidores elevarem suas expectativas de mais cortes de juros para este ano. Em evento no Economic Club de Washington, nesta segunda-feira, ele disse que, depois de um primeiro trimestre com dados de inflação que indicavam um cenário de juros mais altos por mais tempo, as três últimas leituras do índice de preços ao consumidor (CPI), incluindo o da semana passada, foram mais positivas e deram mais confiança para o banco central de que a inflação está caindo em direção à meta. O CPI de junho, divulgado na semana passada, registrou queda de 0,1%.
Powell reiterou, contudo, que precisa de mais dados para confirmar que a inflação está realmente desacelerando de forma sustentável, e que o Fed continuará dependente de dados. O presidente da autoridade monetária evitou sinalizar qualquer data para realizar o primeiro corte de juros, mas deixou claro que o Fed não irá esperar a inflação cair para 2% para iniciar o ciclo de afrouxamento. “Se o Fed esperar até a inflação cair para 2%, pode ter esperado demais”, disse ele, que procura se equilibrar entre a possibilidade cortar os juros cedo demais e interromper o aperto monetário necessário para derrubar a inflação ou esperar demais para reduzir as taxas e provocar uma recessão econômica. “Não vou enviar nenhum sinal particular a determinada data. Vamos tomar decisões reunião a reunião”, disse, evitando sinalizar que o primeiro corte de juros poderá ocorrer já na reunião de 30 e 31 de julho.
O economista Jan Hatzius, do banco Goldman Sachs, apontou que, com o CPI de junho indicando deflação e os comentários mais dovish de Powell no Congresso, os cortes podem vir antes que o esperado. “O mercado precifica quase 100% de um primeiro corte na reunião do Fed de setembro, nos dias 17 e 18, e esse é o nosso cenário-base. Mas vemos razões sólidas para que os cortes ocorram já em julho”, disse ele. Segundo ele, em primeiro lugar, se o caso for de corte de juros, não haveria motivo para esperar outras sete semanas para efetuá-lo. Em segundo, a inflação mensal é volátil e sempre vai ter um risco de reaceleração temporária, o que torna um corte em setembro difícil de explicar. “Terceiro, o comitê tem um incentivo inegável para evitar iniciar cortes de juros nos dois últimos meses de uma campanha eleitoral presidencial. Isso não significa que o comitê não cortará em setembro, mas que um corte em julho seria preferível”, afirma.
Reiterando seus comentários feitos no Congresso na semana passada, Powell voltou a destacar ontem que o mercado de trabalho está mais equilibrado e não mais superaquecido como durante a pandemia. Nos últimos eventos em que participou, Powell tem dado mais atenção a comentários sobre essa visão de um mercado de trabalho mais equilibrado, o que tem criado nos investidores a expectativa de que um corte de juros está próximo, com a inflação controlada e com uma preocupação maior com o desaquecimento do mercado de trabalho. “Se notarmos um enfraquecimento inesperado no mercado de trabalho, vamos reagir”, afirmou.
Powell não quis fazer comentários sobre o impacto do atentado contra o ex-presidente dos EUA Donald Trump, candidato nas eleições de novembro, no mercado e reiterou a importância da independência do banco central. “Não tomamos decisões sob filtros políticos”, disse. Segundo ele, a missão do Fed é tomar decisões baseadas em dados e não em política.
No fim do dia, a presidente da distrital do Fed de San Francisco, Mary Daly, reforçou os comentários de Powell e disse que as autoridades estão ganhando confiança de que o banco central está perto de atingir a meta de inflação de 2%. “Eu vejo um ajuste na política monetária em breve. Alguma normalização na política é um resultado provável”, afirmou.
Com isso, segundo o CME Group, 92,4% do mercado espera um primeiro corte em setembro; 58%, um segundo em novembro; e 57% aposta em um terceiro em dezembro, com os juros devendo fechar o ano no intervalo entre 4,50% e 4,75%, dos atuais 5,25% a 5,50%.
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Fonte: Valor Econômico