Com a alta da cotação do petróleo após fala do presidente americano Donald Trump na quarta-feira (1º), a necessidade de reajuste no diesel e na gasolina nas refinarias Petrobras se acentuou, segundo agentes do setor. A expectativa que havia por eventual cessar-fogo no Oriente Médio, antes do discurso de Trump, não se confirmou, empurrou mais para cima os preços do Brent e fez com que os combustíveis da estatal no mercado doméstico fiquem mais distantes da paridade internacional caso não haja reajustes a curto prazo.
Na quinta-feira (2), o Brent fechou em alta de 7,7%, a US$ 109,03 por barril. Desde 27 de fevereiro, véspera da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, o petróleo acumula alta de 50,4%.
Em pronunciamento, Trump disse que os objetivos do país na guerra contra o Irã estão perto de serem concluídos, mas enviou mensagens contraditórias sobre a possibilidade finalizar o conflito. O presidente americano não mencionou um possível cessar-fogo contra o Irã e ameaçou manter os ataques no Oriente Médio pelas próximas duas a três semanas. Trump sugeriu também que pode atacar a infraestrutura energética do Irã caso o novo regime do país não busque um acordo com Washington.
Diante da percepção de risco, a alta do petróleo levou o diesel da Petrobras nas refinarias a apresentar defasagem de 76,9% em relação ao produto importado. O combustível da estatal está R$ 2,78 mais barato que o exterior, diz a StoneX. A gasolina se situa R$ 1,9 por litro abaixo da importada nas refinarias, ou 76,4%.
Pelos cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel da Petrobras está R$ 2,61 mais barato que o importado, ou 72%. A gasolina fica R$ 1,55 abaixo, ou 62%.
A manutenção dos preços da Petrobras tem dificultado a comercialização do diesel importado. Sergio Araujo, presidente da Abicom, diz que mesmo se a nova proposta de subvenção aos Estados for aplicada, o risco de desabastecimento ainda preocupa: “Com a alta defasagem da Petrobras, a situação é crítica e preocupante. A Petrobras precisa realinhar preços.”
Para o Centro Brasileiro de infraestrutura (CBIE), o diesel da estatal está 41,46% abaixo do importado, ou R$ 2,60. No caso da gasolina, a diferença é de 41,54%, ou R$ 1,84.
O último reajuste da Petrobras sobre o diesel foi em 14 de março, quando aumentou em 11,6%, ou R$ 0,38 por litro. Na gasolina, o último movimento foi corte de R$ 0,14 em janeiro, ou 5,2%.
A companhia tem afirmado que cumpre os contratos com as distribuidoras. Na quinta (2), em comunicado ao mercado, a Petrobras disse que, mesmo com a “forte elevação das cotações internacionais dos derivados de petróleo”, a companhia vem seguindo a estratégia comercial: “Os reajustes de preços continuam sendo feitos sem periodicidade definida, evitando o repasse para os preços internos da volatilidade conjuntural das cotações internacionais e da taxa de câmbio, conforme prática usual da Petrobras que considera as suas melhores condições de refino e logística. Quando necessários, os reajustes são realizados com base em análises técnicas e em linha com a governança.”
A defasagem dos combustíveis é considerada elevada, segundo especialistas. “O valor é muito alto”, afirmou Gabriel Viana, analista e consultor da Safras e Mercado.
João Victor Marques, da FGV Energia, diz que o Brasil se aproxima de novos reajustes, ainda que de forma gradual. A companhia, diz, enfrenta o impasse entre seguir referências internacionais e a pressão para suavizar repasses ao consumidor: “A companhia não pode importar um diesel caro e vender mais barato no mercado nacional.”
Há uma tentativa, diz Marques, de evitar choques inesperados como os de 2022: “Existe um colchão para mitigar essa volatilidade internacional.” Para conter os impactos, o governo tem recorrido a medidas como isenções e subsídios, mas, na avaliação do pesquisador, as ferramentas têm fôlego limitado: “São políticas que podem ajudar a curto prazo, mas não se sustentam por muito tempo.”
Os efeitos se espalham pela economia, por conta do diesel, essencial para o transporte e o setor agropecuário. “O item combustível tem uma participação grande no IPCA e causa um efeito cascata sobre os preços”, disse Marques.
Como o Brasil depende de importações para suprir de 25% a 30% da demanda de diesel, a defasagem prolongada desestimula agentes privados: “Talvez os importadores avaliem que não vale a pena trazer o produto”, disse. Para Marques, o risco imediato não é de desabastecimento, mas de encarecimento e pressão adicional sobre a inflação e a cadeia produtiva.
Fonte: Valor Econômico