O ritmo de crescimento de vendas dos medicamentos chamados análogos do hormônio GLP-1 no Brasil, categoria que inclui os blockbusters Wegovy e Mounjaro, depende de um protocolo de tratamento para a obesidade que considere várias opções. Outro desafio a ser superado pelas fabricantes das “canetas emagrecedoras”, segundo especialistas, é a incorporação desses produtos no rol de tratamentos cobertos pela saúde pública e na saúde suplementar.
Embora os produtos análogos do GLP-1 tenham sido inicialmente vistos como alternativa à cirurgia bariátrica e metabólica, a classe médica e a indústria de equipamentos para procedimentos cirúrgicos podem associar as duas alternativas.
A fabricante de dispositivos médicos Boston Scientific promoveu um evento em São Paulo (SP) para lançar uma plataforma de saúde que leve os usuários de GLP-1 a considerarem uma intervenção cirúrgica – e vice-versa.
Os painéis incluíram falas de representantes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva e Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (IFSO).
A Boston Scientific é fabricante de equipamentos para a chamada gastroplastia endoscópica, um “procedimento minimamente invasivo” em comparação à cirurgia bariátrica tradicional.
Um dos exemplos citados pelos especialistas foi o tratamento de câncer, que inclui alternativas muitas vezes conjuntas como a quimioterapia, a radioterapia, procedimentos cirúrgicos e outros medicamentos inovadores.
A ideia do Boston Scientific é que, por meio de publicidade direcionada e comunicação em redes sociais, os usuários de GLP-1 conheçam a empresa e tenham acesso aos estudos científicos que indicam os bons resultados dos medicamentos associados aos procedimentos cirúrgicos.
O seminário Obesity Summit, realizado na terça-feira (26), teve entre seus objetivos capacitar os médicos para que ampliem o leque de alternativas para tratar a obesidade.
Os especialistas destacaram que, embora 60% da população esteja acima do peso no Brasil, tratamentos para a obesidade como os próprios análogos do GLP-1 ainda estão fora das coberturas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para as operadoras de saúde.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) rejeitou a inclusão do Wegovy como tratamento de obesidade na rede pública, em reunião extraordinária no último dia 20.
Diante da rejeição, por meio de nota, a Novo Nordisk, fabricante do Wegovy, afirmou que “compreende o histórico de subfinanciamento do SUS”, além do desequilíbrio fiscal, restrições orçamentárias e “obsolescência dos mecanismos de incorporação vigentes”.
A fabricante do Wegovy diz ainda “reafirmar seu compromisso com o enfrentamento da obesidade no Brasil”, destacando o caráter complexo e multifatorial da doença que “sobrecarrega o sistema de saúde pública”.
“A Conitec reconhece que Wegovy é uma tecnologia inovadora, segura, eficaz e custo-efetiva – o custo do tratamento com este medicamento está dentro dos limites estabelecidos pelo regramento da própria comissão (limiar de custo-efetividade), considerando os resultados positivos que ele proporciona à saúde e à qualidade de vida da população elegível”, afirmou a farmacêutica dinamarquesa.
A queda de patentes que possibilitou a produção nacional da tirzepatida, e que em breve também tirará a semaglutida do rol de exclusividade da Novo Nordisk, deve ser um fator de barateamento para essa classe de medicamentos.
A farmacêutica EMS foi a primeira companhia brasileira a ingressar no mercado das “canetas emagrecedoras”, com o lançamento de dois produtos à base de liraglutida no início deste mês. O Lirux e o Olire são recomendados, respectivamente, para o tratamento de diabetes e de obesidade.
A pesquisa e desenvolvimento dos produtos demandou mais de R$ 1 bilhão em investimentos, ao longo de dez anos, e deve criar condições para que a companhia expanda a produção para outros análogos do GLP-1 como a semaglutida.
Além da queda de patentes, uma nova geração de produtos análogos dos hormônios já está em fases de testes clínicos. A lista inclui a survodutida, que assim como a tirzepatida, atua sob os hormônios GLP-1 e glucagon. Um dos diferenciais da substância pode ser o tratamento de pessoas com esteatose hepática – gordura no fígado.
Já a retatrutida, também estudada pela Eli Lilly, atua nos receptores de três hormônios gastrointestinais.
Fonte: Valor Econômico