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Numa crise que vem se deteriorando a passos largos, a Oncoclínicas tem, atualmente, um caixa para apenas cerca de 15 dias e já enfrenta dificuldades de atendimento. Nesse cenário, a rede de tratamento para câncer recebeu três propostas, sendo duas delas atreladas à renúncia do atual conselho, para equacionar os problemas de liquidez de curto prazo, segundo o Valor apurou.
A Mak Capital, acionista com 6,3% da companhia, ofereceu um empréstimo de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões. A gestora Starboard , focada em reestruturação, apresentou uma oferta de cerca de R$ 1 bilhão que envolve aumento de capital e conversão de dívida. A Porto, por sua vez, poderia agilizar os pagamentos dos tratamentos de seus clientes para melhorar o fluxo de caixa.
Ainda de acordo com fontes, as iniciativas surgiram porque aproximadamente 3 mil pacientes já tiveram seus atendimentos oncológicos adiados em cerca de uma semana e os casos mais graves estão sendo transferidos para hospitais parceiros diante da dificuldade da Oncoclínicas em adquirir medicamentos.
A companhia tem uma dívida de cerca de R$ 400 milhões com a distribuidora de materiais e medicamentos Santa Cruz, que foi negociada. Todos os dias há faturas a vencer devido ao grande volume de compras e renegociações do passivo. Hoje, o fornecimento dos remédios à Oncoclínicas só ocorre se não houver inadimplência, o que exige da companhia ter recursos disponíveis diariamente.
A situação do caixa da Oncoclínicas se deteriorou porque a companhia fez uma antecipação de recebíveis no fim do ano passado e algumas operadoras estão atrasando pagamento.
A Mak Capital, em parceria com um investidor, ofereceu uma linha de crédito entre R$ 100 milhões a R$ 150 milhões para compra de medicamentos. Esse empréstimo teria como lastro os recebíveis das operadoras de planos de saúde. Esse financiamento do “hedge fund” americano pode ocorrer independentemente das negociações de exclusividade que a Oncoclínicas firmou com Porto e Fleury por se tratar de um empréstimo.
Na semana passada, a Mak já tinha sinalizado fazer um aporte de R$ 500 milhões na companhia. No entanto, essa oferta valeria após o fim da exclusividade com a seguradora, cuja prazo termina na segunda-feira, dia 13 de abril. Isso porque essa transação está atrelada à emissão de debêntures conversíveis em ações. Ou seja, envolve participação acionária.
A Starboard, gestora que já havia feito uma proposta de reestruturação na Oncoclínicas no ano passado, voltou ao jogo com uma oferta de cerca de R$ 1 bilhão. Esse valor viria de um aporte para pagar a distribuidora de remédios e conversão de dívida em volume suficiente para reduzir a alavancagem – que é outro problema enfrentado pela empresa. Caso os demais acionistas não participem do aumento de capital, a Starboard pode vir aumentar o valor do cheque, dizem fontes.
A entrada de recursos de Mak e Starboard vêm condicionadas à renúncia do atual conselho de administração, o que é um ponto de conflito porque são os conselheiros que votam a favor ou contra as ofertas. A proposta do ano passado, da Starboard, inclusive, foi rejeitada pela Latache, segunda maior acionista da Oncoclínicas.
A Mak propôs três nomes para o conselho: Mateus Bandeira (ex-CEO da Oi), Fabio Jung (ex- BofA), o advogado Ademar Vidal Neto e Marcos Grodetzky, que já integra o ‘board’ da Oncoclínicas como conselheiro independente.
Já há um conflito entre o conselho de administração, acionistas e diretoria executiva da companhia em torno da urgência de entrada de capital novo diante dos atrasos nos atendimentos oncológicos – que são muito sensíveis a atrasos e mudanças no meio do tratamento.
Além das negociações exclusivas, a Porto se propôs a pagar de imediato os procedimentos oncológicos de seus usuários de planos de saúde. Em geral, há uma prática no mercado em que as operadoras levam cerca de 90 dias para acertar as contas médicas. A Porto é a principal fonte pagadora da Oncoclínicas.
A Porto e Fleury fizeram, em meados do mês passado, uma oferta de aporte de R$ 500 milhões, cujos recursos seriam colocados numa empresa a ser criada somente com as clínicas da companhia, e haveria mais R$ 500 milhões por meio de a emissão de debêntures conversíveis em ações.
Porém, há uma crença de que as negociações com Porto/Fleury seriam longas demais, dependendo de aprovações dos conselhos e órgãos reguladores, para a atual situação financeira da Oncoclínicas.
As negociações com os debenturistas, em especial aqueles lastreados em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), para o “waiver” (perdão) das condições acordadas não avançaram. Nas 9ª e 11ª emissões não houve sequer quórum na primeira convocação. Segundo fontes, a empresa estuda os próximos passos.
Os “covenants” acordados com os credores estabelecem que a dívida não ultrapasse 3,5 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) no balanço de 2025. No entanto, esse indicador deve estourar e o credor pode antecipar os vencimentos, complicando mais a situação da companhia que está priorizando o pagamento de médicos, materiais e medicamentos. A divulgação dos resultados financeiros está programada para quinta-feira (9).
Ainda de acordo com fontes, as ofertas de Mak Capital e Starboard não excluem a possibilidade de Porto e Fleury serem sócias estratégicas da Oncoclínicas. Mas a seguradora entrou nessa operação para não ficar sem um prestador de saúde oncológico, a ideia não é um ativo de investimento.
Procurados pela reportagem, Oncoclínicas, Mak Capital, Latache e Starboard informaram que não comentam. A Porto informou que não fará comentários adicionais aos comunicados já publicados.
Fonte: Valor Econômico