A melhora recente de candidatos de oposição em pesquisas de intenção de votos fez o mercado voltar a tatear o chamado “trade” da assimetria das eleições. Diante da perspectiva de um pleito mais apertado e com promessas de ambos os espectros políticos de que algum tipo de ajuste nas contas públicas será feito, os ativos domésticos exibiram desempenho mais forte que o dos pares nas últimas sessões, na contramão de um ambiente global menos convidativo à tomada de risco.
Por meses, a boa performance dos ativos brasileiros foi explicada por uma relação assimétrica de risco em torno das eleições: caso o governo fosse reeleito, haveria pouco espaço para piora dado o nível corrente de preços e, caso a oposição vencesse, a avenida para uma melhora seria bem mais larga, o que justificativa apostas construtivas no país — ainda que elas tenham sempre se mostrado tímidas.
O argumento foi repetido com frequência ao longo de 2026 e, inclusive, era uma abordagem bastante utilizada por investidores estrangeiros para justificar as alocações acima da média de mercado no Brasil em diversos momentos do ano.
Nas últimas semanas, no entanto, o otimismo deu sinais de que estava completamente enterrado. A perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, apelo pelas histórias ligadas à IA, desaceleração da economia doméstica, piora das expectativas de inflação e uma corrida eleitoral que dava sinais de que já se mostrava decidida a favor do incumbente ligaram sinais de alerta no mercado. As fragilidades domésticas — especialmente a questão fiscal —, nesse ambiente, deveriam ficar mais evidentes e se traduzir em preços mais descontados dos ativos locais. Não à toa, o Ibovespa marcou, em meados de agosto, os menores patamares desde o início do ano.
Nos últimos dias, no entanto, há uma reversão parcial do cenário em curso. Um estrategista de mercado aponta que há grande especulação sobre o que poderia estar por trás da força relativa do Brasil nas duas últimas sessões — desde atualizações de consultores políticos até manchetes que revivem a possibilidade de uma terceira via. “Nenhuma das possíveis explicações se sustenta como gatilho para o movimento. E esse talvez seja o sinal mais interessante”, diz.
Em sua avaliação, o mercado melhorar sem um gatilho óbvio é mais uma evidência de que os investidores estão se posicionando para atravessar a eleição com uma visão mais otimista. “A narrativa de assimetria está ganhando força — e seu poder de sedução não deve ser subestimado. Quando o mercado começa a subir sem uma manchete particularmente convincente — e mesmo na contramão do movimento global —, a própria dinâmica de posicionamento passa a importar mais do que qualquer catalisador que seja posteriormente associado ao movimento”, resume.
No momento, investidores têm ampliado as apostas por meio de opções para capturar a possibilidade de uma mudança de governo — como mostrou o Valor nos últimos dois dias. Em carta, a Ibiuna Investimentos confirma a dinâmica e diz ver uma uma divergência entre a probabilidade atribuída pela casa à derrota do governo e a que parece embutida nos preços dos ativos. “Estamos, assim, posicionados principalmente via opções para aproveitar uma eventual mudança de rumo na política econômica brasileira nos próximos anos”, escrevem em carta.
O economista de uma relevante instituição financeira, contudo, faz um alerta sobre o aparente otimismo da indústria. Segundo ele, há dois possíveis desfechos para a eleição que são associados a trajetórias fiscais muito diferentes. Assim, o posicionamento vai se ajustando à medida que mudam as probabilidades percebidas e, quando elas voltam a se inverter, grande parte desse movimento também é desfeita.
“A persistência dessa leitura binária também pode refletir o que cada cenário representa para a indústria local de gestão de recursos. Juros reais persistentemente elevados favorecem naturalmente a renda fixa, enquanto um ajuste fiscal crível voltaria a abrir espaço para a tomada de risco e para uma maior dispersão de retornos. Isso não significa que as visões do mercado sejam inválidas, mas os incentivos envolvidos não são perfeitamente simétricos”, resume.
Em outras palavras, o mercado adotaria uma espécie de “torcida racional” pela mudança de governo. Uma eventual alternância, ao abrir espaço para um ajuste fiscal percebido como mais crível, poderia favorecer justamente as estratégias que mais perderam espaço em um ambiente de juros reais persistentemente elevados. “Torcer por uma alternância de governo se tornou quase um viés de sobrevivência do mercado.”
Fonte: Valor Econômico


