Ao notarem uma demanda por atividades voltadas para a integração de equipes e treinamentos de lideranças, algumas empresas se especializaram em oferecer experiências off-site – fora do escritório – para outras companhias. A ideia é não apenas fortalecer a conexão entre as equipes, mas aproveitar a oportunidade para praticar algo novo ou desenvolver uma habilidade.
Em 2023, o casal Thomas Simon e Izabela Dolabela decidiu abrir o It.Kitchen, um espaço voltado para experiências gastronômicas. Durante a concepção do projeto, surgiu a ideia de oferecer também atividades de “team building” dentro da cozinha, juntando assim a experiência prévia de ambos – ele vem de uma carreira executiva de 20 anos, com passagens pelas áreas financeiras de empresas como Hypera Pharma e Riachuelo, enquanto ela é chefe de cozinha e ex-participante do reality show MasterChef. “Quando a gente construiu a Casa It, que é o nosso espaço de experiências gastronômicas, já colocamos bancadas próprias para cozinhar pensando nas atividades de ‘team building’”, conta Simon.
No cardápio de experiências oferecidas pelo It.Kitchen está a “Caixa Misteriosa”, dinâmica na qual os participantes devem cozinhar com ingredientes surpresa e competir entre si; e o “Menu Completo”, em que cada grupo fica responsável por uma parte do jantar; além de atividades como aprender a fazer pizza, hambúrguer, parrilla e produzir marmitas para serem entregues a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Até o momento, foram cerca de 150 empresas atendidas. “Mais de 80% das companhias que nos procuram querem criar um ambiente onde as pessoas interajam fora do escritório ou fora da tela do computador, e não tem lugar melhor que a cozinha para você se sentir à vontade”, comenta Simon.
Na percepção do sócio-fundador do It.Kitchen são muitos os paralelos que podem ser traçados entre o funcionamento de uma empresa e de uma cozinha. “Quando você vai cozinhar alguma coisa, você tem os insumos que são finitos e controlados, e tem que saber fazer a gestão do tempo, assim como no trabalho”, observa. “Mas, às vezes, um estagiário mostra mais protagonismo na cozinha do que um diretor, por exemplo”.
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No final de 2024, Carlos Balthazar, CEO da CIX Capital, de gestão de investimentos, levou sua equipe de 15 pessoas para cozinhar no It.Kitchen enquanto discutiam o planejamento estratégico da empresa. “A ideia era misturar as equipes e criar um ambiente de competição por meio de uma atividade diferente”, relata.
Balthazar conta que, antes disso, seu time já havia feito uma reunião em uma casa de campo. “Mas só sair do lugar eu acho que não é suficiente. A experiência no It.Kitchen foi diferenciada por trazer uma dinâmica. Deu para perceber que algumas pessoas mais juniores mostraram liderança e possibilidade de crescimento. Também pudemos ver potenciais novas equipes se formando, pessoas que não interagem tanto no dia a dia trabalhando em conjunto”, revela.
Em 2014, quando se mudou para a fazenda Bosque Belo Baguá, em Boituva (SP), a publicitária Nathalia Gottheiner se surpreendeu com a forma como os cavalos eram tratados. “Tinha peão que ficava o dia inteiro em cima do cavalo, e eles costumavam ficar batendo na traseira do animal, muitas vezes sem motivo. Aquilo me incomodava bastante”, conta.
Cinco anos depois, em 2019, Gottheiner teve contato com a chamada “doma consciente” e decidiu levar a técnica para a fazenda. “Eu e meu marido fizemos um curso, começamos a testar com os nossos cavalos que ainda não tinham sido domados e o resultado foi impressionante”, compartilha. A doma consciente, ela explica, se baseia na psicologia do cavalo e na forma como ele se relaciona dentro do rebanho. “O cavalo tem uma percepção muito aguçada do ambiente. Ele está sempre lendo o comportamento dos outros animais para prever aquilo que está prestes a acontecer. A doma consciente utiliza essas habilidades do cavalo a seu favor, enquanto a doma bruta usa o medo do cavalo a favor do cavaleiro”, pontua.
Em 2020, Gottheiner passou a convidar amigos para participarem de atividades com os cavalos baseadas na doma consciente até que, em 2023, começou a ser procurada por empresas interessadas em treinar equipes e lideranças, fundando assim o CT Bosque Belo. “Os cavalos leem todo o nosso comportamento e respondem a isso, se tornando uma espécie de espelho. Então, para liderar esse animal é preciso empatia, conexão e presença. Essa experiência começou a ajudar muitas pessoas que estavam passando dificuldades para liderar times porque, no fundo, você não doma os cavalos, você doma as suas próprias emoções”, detalha.
Nas atividades de ‘team building’, o grupo precisa cumprir uma missão com os cavalos simulando a organização dos rebanhos. “Os cavalos selvagens desenvolvem estratégias e uma organização muito estruturada. Assim, a gente simula os papéis que existem dentro do rebanho. Os participantes precisam fazer com que o animal responda às ordens deles sem o uso de força bruta e a dinâmica vai emergindo de dentro do comportamento das equipes e com o feedback imediato do cavalo”, narra.
Já dentro do formato de liderança, as atividades costumam ser individuais. “O cavalo estipula hierarquia com qualquer outro animal que ele vê na frente. Ele precisa saber quem é quem na relação”, comenta. “O que acontece é que muitas vezes o cavalo acaba liderando a pessoa. É quando a gente consegue perceber, por exemplo, se um líder é mais passivo ou se coloca muita pressão. Nesses exercícios, conseguimos trabalhar soft skills”.
Em novembro do ano passado, Giovanna Rossetto, gerente de RH da Coexpan Emsur, multinacional de embalagens, descobriu o treinamento oferecido por Gottheiner e viajou para a fazenda ao lado de toda a liderança da empresa. “Nosso diretor é responsável pelas plantas do Brasil e do Chile e eu identifiquei que haviam pessoas que precisavam interagir mas que nunca tinham se visto. Era necessário um ajuste mais fino na comunicação”, revela.
Ao todo, 18 pessoas participaram da experiência, que durou três dias. “O contato natureza-animal foi fundamental para baixar a guarda. No início, todo mundo estava muito tenso, mas, depois de alguns exercícios, começamos a falar mais abertamente de algumas dificuldades de gestão que estávamos enfrentando”, relata.
Rossetto, que até então nunca havia tido contato com cavalos, comenta que rapidamente passou a se sentir à vontade com o animal. “O cavalo dá um feedback muito imediato. Você não consegue ter uma comunicação truncada com ele. Além disso, primeiro é preciso se conectar, não dá para simplesmente chegar e o obrigar a fazer o que você quer. Então, treinamos a empatia e o equilíbrio de pressão”, recorda.
Segundo ela, após essa vivência, passou a haver uma maior interação entre as plantas da organização. “Acho que principalmente a colaboração e a comunicação entre as áreas ficaram mais evidentes. Esse é um treinamento que em pouco tempo já dá um retorno porque ele acontece na prática e não na teoria”, reflete.
Marcos dos Santos, que já havia trabalhado no RH de multinacionais, viu sua mãe sair de uma depressão ao ter contato com a pintura. Foi então que decidiu fundar a Vinho Tinta, empresa que une arte e degustação de vinhos. A ideia, que nasceu em 2019, tinha como proposta organizar confraternizações em um espaço físico em Curitiba (PR). Mas, com a chegada da pandemia e o fechamento da sede, as atividades de ‘team building’ foram surgindo, inicialmente no formato on-line: “a proposta é trabalhar o outro lado do cérebro das pessoas, aquele que não é tão racional, a parte mais criativa”, explica Santos.
“A gente começou oferecendo o ‘Vinho e Tinta’, uma experiência em que um artista guia as pessoas no passo a passo de como pintar uma tela enquanto elas bebem vinho ou suco de uva”, conta. “Depois, inserimos o ‘Mosaico’, em que as pessoas são divididas em equipes e cada uma fica responsável por pintar um pedaço da mesma obra. Os grupos precisam conversar entre si para que as cores casem, já que cada parte impacta o todo”.
Os clientes também podem optar pela “Academia do Vinho”, em que as equipes fabricam a própria bebida através de um “blend” e criam o rótulo da garrafa. E, no ano passado, Santos passou a oferecer uma atividade em que os participantes aprendem a cuidar de um bonsai.
Em seis anos de existência, a Vinho Tinta atendeu cerca de 450 clientes. “Quando vem uma equipe de analistas, normalmente trabalhamos comunicação e interação entre as pessoas. Já as lideranças buscam temas mais específicos, como gestão de recursos, gestão de talentos e gestão estratégica”, comenta.
Na visão de Santos, muitas pessoas não têm total conhecimento do poder do ‘team building’. “Tem gente que acha que é ‘dinâmica de abraçar árvore’. Isso é muito do passado. Antigamente, realmente, fazia-se o ‘team building’ de uma forma não estratégica. Era só a diversão pela diversão. Ir beber cerveja em um bar pode ser muito divertido, mas não é bem um ‘team building’”, observa.
Para ele, o ‘team building’ não é a solução de todos os problemas, mas pode ser encarado como uma ferramenta para potencializar o resultado das equipes. “Além disso, tirar as pessoas do escritório demanda custo. Se você vai fazer esse investimento, não seria mais inteligente apostar em uma ação estratégica?”, provoca.
Rodrigo Filus, gerente executivo de plano de saúde, segurança do trabalho, ergonomia e saúde do trabalho da Volkswagen, participou de duas atividades oferecidas pela Vinho Tinta. Para ele, a experiência de cuidar de um bonsai ajudou a equipe a desacelerar e se concentrar no momento presente, enquanto o “Mosaico” foi útil para que cada gestor percebesse como suas respectivas áreas impactam a corporação. Participaram 25 pessoas dos times da Volkswagen do Brasil e da Argentina.
“Foram atividades lúdicas e humanizadas”, recorda. “Já havia participado de várias ações de ‘team building’, mas essa, particularmente, deixou nítido como o trabalho da minha equipe reflete nos resultados da organização”.
Paul Ferreira, professor de estratégia e liderança na Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp), explica que no contexto do trabalho híbrido, o off-site passou a ser um espaço para reconstruir os laços entre as equipes. “Hoje, essas experiências funcionam como ‘infraestrutura da cultura híbrida’, pois promovem pertencimento, reduzem silos, aceleram socialização de novos talentos e criam rituais coletivos”, avalia.
Para Tatiana Iwai, professora de comportamento organizacional e liderança no Insper, a efetividade desse tipo de ação depende de um bom planejamento. “É preciso conseguir aplicar aquilo que foi experimentado no off-site no ambiente de trabalho real. Se não, pode virar um ‘passeio caro’”, alerta.
Fonte: Valor Econômico