As duas maiores fabricantes de medicamentos para redução de peso perderam US$ 252 bilhões em valor este ano, à medida que o entusiasmo dos investidores por tratamentos para a obesidade enfraqueceu e as ameaças de tarifas e cortes de preços do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afetam o setor farmacêutico.
O boom dos medicamentos para perda de peso e diabetes, como Wegovy e Ozempic, da Novo Nordisk, e Zepbound e Mounjaro, da Eli Lilly, tem sido um ponto positivo para o setor farmacêutico, que luta com uma incerteza política acentuada.
Mas os acionistas perderam interesse na Novo Nordisk e na Lilly, preocupados com o crescimento das versões genéricas dos medicamentos nos EUA e com os resultados decepcionantes dos testes da próxima geração de remédios.
A duas também estão entre as 17 empresas farmacêuticas que receberam cartas de Trump no fim de julho, em que ele exigia que reduzissem os preços de seus medicamentos nos EUA ou teriam de enfrentar consequências, enquanto o presidente segue adiante com sua política comercial agressiva.
Depois de seu pico no ano passado, o declínio foi bastante pronunciado. A Novo Nordisk perdeu US$ 367 bilhões em valor desde o pico de junho de 2024, uma queda de mais de dois terços, enquanto a Lilly caiu 29% em comparação com sua avaliação recorde do ano passado, o que eliminou US$ 250 bilhões de sua capitalização de mercado.
Evan Seigerman, analista da BMO Capital Markets, disse que as fabricantes de medicamentos para perda de peso são vulneráveis às oscilações do mercado de ações como qualquer outra área do setor farmacêutico.
“Supunha-se que as empresas das franquias da obesidade salvariam todo mundo… mas na realidade esses são mercados complexos, com altos e baixos e com riscos”, afirmou ele.
A Novo Nordisk, que é da Dinamarca e demitiu seu executivo-chefe em maio, teve uma queda de 49% este ano, com uma redução de US$ 166 bilhões em valor, e vem perdendo terreno para a Lilly. Seu quarto maior acionista, o fundo de petróleo da Noruega, avaliado em US$ 2 trilhões, informou esta semana que suas participações no grupo tinham perdido US$ 1,2 bilhão em valor no primeiro semestre.
A Lilly perdeu US$ 86 bilhões em valor em 2025, queda de 11%, e enfrentou uma onda de venda de suas ações este mês, depois de divulgar um resultado decepcionante no teste de seu muito aguardado medicamento oral para perda de peso, o orforglipron. Na semana passada, o preço de suas ações chegou a ser negociado pelo menor valor desde fevereiro de 2024, antes de conseguir uma recuperação parcial.
A queda combinada na capitalização de mercado das duas empresas este ano é mais ou menos equivalente ao valor total do grupo de artigos de luxo Hermès, um dos mais valiosos da Europa.
Preocupações generalizadas com tarifas e cortes de preços têm pesado sobre o setor farmacêutico de forma mais abrangente.
Os 10 maiores grupos americanos e europeus do setor perderam total de US$ 128 bilhões em capitalização de mercado este ano, sem levar em conta variações cambiais, o que deixou suas ações com um valor combinado de US$ 2,8 trilhões na tarde de sexta-feira (15).
Os preços das ações de Merck, Pfizer e Roche têm sido negociados em baixa, enquanto os ganhos de AbbVie, AstraZeneca, Novartis, Johnson & Johnson e Amgen foram ultrapassados em muito pela perda de valor da Lilly e da Novo Nordisk.
A perspectiva de que a política de precificação de “nação mais favorecida” de Trump abale o modelo de negócios das empresas farmacêuticas e ameace a lucratividade tem mantido os investidores à margem, segundo Gareth Powell, gestor de fundos de cuidados com a saúde da Polar Capital.
“Se você é um investidor generalista, por que colocar dinheiro aqui, em vez de comprar ações de inteligência artificial, [considerando] os efeitos negativos das tarifas e da política de nação mais favorecida?”, argumentou.
Powell afirmou que, apesar de mais uma boa temporada de ganhos, hoje o setor é negociado em sua menor relação preço/lucro em mais de uma década. Para ele, porém, o fato de os investidores “terem jogado a toalha” no caso da Eli Lilly este mês é um sinal de que o sentimento pode estar prestes a mudar.
Em uma indicação de confiança na Lilly, cinco diretores e executivos compraram ações da empresa depois de seu decepcionante relatório de ganhos deste mês, as primeiras compras internas em três anos. Seu executivo-chefe, Dave Ricks, adquiriu o equivalente a US$ 1,1 milhão na terça-feira, sua maior compra em mais de uma década na empresa.
As compras passaram “uma mensagem convincente de que os insiders consideram a onda de vendas como exagerada”, escreveu a VerityData, que monitora transações internas, em um relatório na semana passada.
Fonte: Valor Econômico