[RESUMO] “A Substância”, vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano, tematiza as consequências das expectativas sociais sobre a aparência física nos dias de hoje. Autor reflete sobre a disseminação do medo de envelhecer, que impulsiona procedimentos estéticos e tratamentos que prometem o rejuvenescimento e consome parcela crescente do PIB de países de todo o mundo.
O filme “A Substância” tem mais substância do que aparenta. Não se trata apenas de um suspense de terror. É um filme sobre como tudo o que é esperado das pessoas molda o estado de espírito.
Sobre ele, explica a diretora Coralie Fargeat: “É sobre o ódio a si mesma e a sensação de que nunca se é boa o suficiente, bonita o suficiente, magra o suficiente, jovem o suficiente”.


O começo: uma grua sobre a calçada da fama da Hollywood Boulevard; uma nova laje é moldada, a da estrela Elisabeth Sparkle (Demi Moore), atriz ganhadora de um Oscar; num plano fixo, o tempo passa, ela é inaugurada e, depois, rachada, pisoteada, suja por ketchup, ignorada.
Está indicada a trajetória de uma mulher que precisa da sua juventude para colocar alimento na mesa e no ego. Ao final, numa referência à Jane Fonda, ela vira estrela de um programa de TV de ginástica. Mas aos 50 anos é demitida por ser “velha demais”.
Sua saída é aderir a um procedimento experimental com um tratamento invasivo e rejuvenescer: Activator, que mais se parece uma injeção de Ozempic master. No banheiro da sua casa, ela aplica o produto e dá à luz seu clone, Sue (Margaret Qualley, a Pussycat de Tarantino em “Era uma Vez em… Hollywood“), uma jovem bailarina pronta para brilhar.
Criadora não conhece criatura. Quando uma vive, a outra hiberna. Uma depende dos fluídos da outra. A cada uma, o direito de viver uma semana. Assim, ela mesma, em versão mais jovem, a substitui magnificamente no programa de TV.
Com o tempo, Elizabeth e Sue começam a temer uma à outra, a se boicotar, a se odiar. Então, o filme entra num corredor percorrido por Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray” e por Robert Louis Stevenson em “O Médico e o Monstro” (“Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”).
O dândi Dorian Gray tem uma pintura de corpo inteiro retratada pelo artista Basil Hallward, absorto por sua beleza. O retratado é seduzido pela vida de luxúria e sexo que sua aparência atrai, sabe que um dia irá envelhecer e faz um pacto: deseja que o retrato envelheça, não ele.
Dorian leva uma vida libertina e amoral, enquanto o retrato absorve tudo o que existe de ruim e decai. Seu sorriso despenca. Sua pele enruga. O sacrifício, fruto da vaidade, o levou a uma vida infeliz, criminosa e sem amores realizados. Por fim, num acesso de fúria, apunhala o retrato e se torna um cadáver desfigurado, enquanto a pintura recupera sua juventude.
O ódio de criadora e criatura extrapola em “A Substância”. Ambas são a mesma pessoa, e quem as lembra é a voz misteriosa do call center da “clínica”. A criatura não se reconhece na criadora. A inveja que a mais velha sente pela jovem, assim como o desprezo que a jovem sente pela mais velha, são dois estados da mesma consciência.
A autoestima baixa impede que elas percebam quem é quem. Duas consciências passam a coexistir e competir. Um “self-hatred” (que mal traduzido seria uma autoaversão) torna a mais velha violenta.
Elas se juntam e se julgam. Movidas pelo desejo de ser a versão perfeita, uma tenta destruir a outra. Nesse caminho, Dr. Jekyll vira inspiração. No livro, ele quer provar que a maldade dentro de cada um é conscientemente controlada por um pacto social.
Cria uma substância que libera o cruel que reprimimos e o chama de Mr. Hyde. O mal está dentro do bem, e a grade que os separa é frágil. O doutor bom e generoso, ao tomar a poção, se transforma num monstruoso assassino. Mas são a mesma pessoa
Vi Brad Pitt passar em Veneza. Seu rosto parecia caju. Maquiagem ou bronzeamento artificial? O Apolo das nossas fantasias, que se veste como marceneiro, sobe num telhado, tira a camisa para consertar uma antena, sua e olha o pôr do sol abrindo uma lata de cerveja, como em “Era uma Vez em… Hollywood”, o que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, não está satisfeito com a paleta do rosto e o flambou.
Ele e parte da humanidade que, depois da pandemia, se viu em close durante o home office, não gostou e passou a temer pelo emprego. Achou que podia passar por uma harmonização. A pele tem que estar radiante.
O que era obsessão de grandes atores de Hollywood, com medo de envelhecer, se popularizou. Por até R$ 200, se faz um peeling químico facial, ou dermoabrasão: um tratamento horripilante, como efeitos de filme de terror B, em que um ácido queima a pele, descama, remove manchas, acnes, reduz a oleosidade e aumenta a produção de colágeno.
O mercado também oferece o peeling de diamante e o ultrassônico. Peeling de fenol é mais agressivo e matou recentemente o empresário Henrique Chagas, que aos 27 anos achou que precisava rejuvenescer.
O laser lavieen no rosto traz os mesmos benefícios, usa a mesma degradação da pele e diminui a flacidez e olheiras. Ele remove vasinhos vermelhos próximos do nariz. Tem mais. Ultrassom micro e macro focado, por R$ 2.000, estimula a colagem por um ano. Fio de PDO (polidioxanona) enfiado no rosto estimula o colágeno por ser um corpo estranho com resultado imediato. Sem se esquecer a plástica.
Tem a opção do laser CO2, que deixa a pele inchada e avermelhada por quatro dias, mas é indicado para rugas e linhas de expressão, melhorar a textura da pele, manchas escuras ou melasma, manchas senis, estrias, cicatrizes de acne da região do rosto, trazendo rejuvenescimento.
O Botox, que paralisa o músculo, a neurotoxina da bactéria do botulismo, o veneno mais letal conhecido, bactéria que sobrevive até sem oxigênio, é talvez o procedimento mais popular, e por R$ 1.400 garante-se um rosto firme por seis meses.
Complexos vitamínicos, injeções de emagrecedores, eletroestimulação ou magnética, retirada de vértebras, raspagem de sobrancelhas, nariz, ácido hialurônico, fibras, hidratação, alimentos ricos em antioxidantes, cremes… Já se calculou a porcentagem do PIB que é consumida para retardar o envelhecimento?
Na Dinamarca, sim. Por conta do Ozempic, da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, que impactou o PIB do país, existem dois números: o com e o sem a inclusão do faturamento da injeção de semaglutida, para se saber o real estado da economia.
Segundo a Bloomberg, em valor de mercado, a Nordisk (US$ 530 bilhões), que criou um medicamento para pacientes com diabete tipo 2 e obesos, é maior que a economia dinamarquesa (US$ 405 bilhões). Não existem tantos diabéticos assim.
Ou seja, o nível de autoestima e do viver bem e saudável comanda a economia mundial e talvez supere o investimento em bem-estar social e a saúde do planeta. Isso, sim, é um filme de terror.
Fonte: Folha de São Paulo


