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A combinação de juros altos e desempenhos decepcionantes levou os multimercados em 2024 à menor fatia da indústria de fundos desde 2019. Levantamento da Comdinheiro a pedido do Valor mostra que essa classe de investimentos tem hoje 24,25% do patrimônio total dos fundos líquidos do país. O número consolida a trajetória de queda iniciada em 2022, depois de seis anos seguidos de alta e do pico de 30,72% em 2021.
Os fundos de ações também vêm encolhendo, depois de atingirem o ponto máximo de 12,06% em 2021, e hoje respondem por quase a metade disso (6,87% do patrimônio). No caminho contrário, os fundos de renda fixa crescem desde 2022, quando atingiram 62,70% depois de seis anos em queda, e atualmente têm a farta fatia de 68,79%, a maior desde 2019.
“Os juros altos fizeram a atenção voltar à renda fixa e, principalmente, ao crédito privado. É um cenário em que vários gestores tradicionalmente focados em multimercados estão se voltando ao segmento para beber nessa fonte”, diz Filipe Ferreira, diretor da Comdinheiro, empresa de informações financeiras do grupo Nelogica.
O levantamento não considerou fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e de investimento em participações (FIPs). Segundo o executivo, o ritmo de busca por produtos mais complexos demonstrava amadurecimento do mercado. Além dos juros altos no Brasil, o cenário internacional, com taxas elevadas nos países ricos, elevou o conservadorismo.
“Dificilmente o patrimônio volta ao que era alguns anos atrás”, diz Christopher Galvão, analista de fundos da Nord Research. “Ainda vejo oportunidade de crescimento mais para a frente, mas não expressivo.”
De acordo com ele, a política monetária nos Estados Unidos afetou toda a indústria, já que boa parte dos gestores estava com investimentos atrelados diretamente à tese de queda de juros no país – que só deve começar em setembro, conforme indicações mais recentes do Federal Reserve, o banco central do país. “Vimos a resiliência da economia americana, além de um mercado doméstico com juros altos, elevando o custo de oportunidade de estar em ativo de risco com rentabilidade decepcionante podendo estar na renda fixa.”
Para se ter uma ideia, dos cerca de 70 multimercados macro acompanhados pelo Guia Valor de Fundos, só 22% ficaram acima do CDI num intervalo de dois anos e meio, encerrado em junho. Em 2022, a fatia era de 67%, caindo a 24% no ano passado e a 6% de janeiro para cá, segundo cálculos do economista Marcelo d’Agosto, coordenador do guia.
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Para Galvão, à medida que a economia americana se normalize e os juros comecem a cair, há espaço para recuperar a rentabilidade, mesmo que parcialmente. “Mas não vai ser fácil porque temos outros desafios, como o fiscal no Brasil e também nos EUA”, afirma.
Ele diz que a análise da Nord leva em conta fatores quantitativos e qualitativos, como a capacidade de reter talentos, além da gestão. “Bons fundos têm espaço para surfar um mar mais tranquilo e podem apresentar melhor performance, mas é difícil dimensionar o crescimento da classe no futuro.”
Heitor Martins, estrategista de investimentos do braço de gestão Nexgen Capital, assessoria ligada à rede XP, afirma que a empresa vem diminuindo peso de multimercados sobretudo de um ano para cá. “Era o nosso camisa 10 porque tem possibilidade de navegar em vários cenários, mas vimos que a leitura do cenário vem sendo cada vez mais difícil.”
A tributação dos fundos fechados exclusivos ou restritos afetou ainda mais a classe, afirma, já que a maioria deles estava sob a “casca” de multimercados. A decisão foi alocar em ativos atrelados à inflação, não necessariamente fundos, no Brasil e, no exterior, para fundos de hedge e títulos de dívida.
Embora em tese sejam os correspondentes aos multimercados, os fundos de hedge não têm apresentado os baixos desempenhos vistos aqui por serem mais focados em ações, enquanto os brasileiros têm olhar maior para os juros no país, além de Estados Unidos, México e Europa. E a resiliência da economia americana torna os cenários difíceis de prever. “Quando a taxa americana chega a 5,5% ao ano, alta para os padrões de lá, o mundo espera que seja o teto e espera o corte, que não veio.”
Na comparação com a Selic, que chegou a 13,75% ao ano em 2022 e hoje está em 10,5%, a relação entre risco e retorno dos multimercados perdeu o sentido, diz Martins. Enquanto em geral um fundo de renda fixa tem volatilidade de até 0,5%, um multimercado pode passar de 6%, dependendo do perfil. Ao mesmo tempo, o mercado de crédito teve forte expansão. Relatório do BTG Pactual mostra que o volume emitido de títulos incentivados (debêntures incentivadas, certificados de recebíveis imobiliários, os CRIs, e do agronegócio, os CRAs) atingiu R$ 114 bilhões no primeiro semestre, enquanto em todo o ano passado o total emitido foi de R$ 158 bilhões.
As emissões de debêntures tradicionais atingiram R$ 142 bilhões de janeiro a junho deste ano, ante R$ 169 bilhões em 2023 inteiro. Ainda conforme o relatório, o mercado secundário de debêntures registrou negociação média diária recorde de R$ 2,95 bilhões em junho, enquanto nos 12 meses anteriores o número foi de R$ 2,13 bilhões. A alocação dos segmentos de private banking e varejo em renda fixa e crédito corporativo (o que inclui debêntures incentivadas ou comuns, CRIs e CRAs) também atingiu recorde histórico em maio, alcançando 42% % do total (R$ 2,390 trilhões) e 5,36% (R$ 305 bilhões), respectivamente.
“Ainda vemos muitas empresas do agronegócio, por exemplo, com bons ratings e pagando prêmios de risco atrativos. E em infraestrutura o país precisa de muitos investimentos. Há uma pista larga para crescer”, avalia o estrategista da Nexgen, que tem R$ 4 bilhões sob assessoria. Ele afirma que, como o dinheiro dos multimercados foi para a renda fixa, não vê condições para que a classe volte a crescer no curto prazo. “Primeiro precisa definir o cenário econômico dos Estados Unidos e a política fiscal brasileira.” Nas carteiras sugeridas pela asset, os multimercados chegavam a 35% há dois anos e hoje o máximo é 15%, nos perfis mais agressivos.
No primeiro semestre deste ano, os multimercados tiveram saídas líquidas de R$ 81 bilhões, ante retiradas de R$ 52,4 bilhões no mesmo período de 2023, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em 2023, a classe ficou no vermelho em R$ 180,7 bilhões e, em 2022, R$ 86,3 bilhões. Em 2020, quando os juros chegaram a 2% por causa da pandemia, os multimercados tiveram a maior captação líquida da indústria, de R$ 103,8 bilhões.
Os fundos de ações também tiveram captação líquida negativa (R$ 111 milhões) de janeiro a junho de 2024. Já os fundos de crédito privado tiveram captação líquida entre janeiro e maio de R$ 163 bilhões e os de infraestrutura, de R$ 53,2 bilhões.
Victor Furtado, responsável pela alocação na W1 Capital (também da rede XP), que tem R$ 1,2 bilhão sob assessoria, ressalta que 3,9 mil multimercados fecharam de 2020 a 2024, de um total de 14 mil. Ele explica que a casa não reduziu a alocação na classe nos últimos 12 meses, mas mudou o perfil dos escolhidos. “Fomos na linha dos que têm uma estratégia mais voltada à proteção. Os que têm ouro e dólar, por exemplo, estão bem, enquanto os de renda variável sofrem.”
Em 2020, comenta, os multimercados chegaram a ter peso entre 30% e 40% na carteira, mas parte migrou para a renda fixa e hoje a fatia fica entre 15% e 25%, dependendo do perfil e sempre com estratégias de proteção. “A renda fixa é concorrente mas no Brasil nunca vamos ter um momento em que não vai estar competindo. O mercado tem que ter mais clareza do cenário para começar a andar.”
Fonte: Valor Econômico


