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Ainda que o ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deva ter início em um ritmo mais lento, o cenário deve abrir mais espaço para a flexibilização monetária de outros bancos centrais ao redor do mundo. Para o presidente da Queen’s College e conselheiro econômico chefe da Allianz, Mohamed El-Erian, os mercados emergentes, que receberam poucos fluxos de recursos nos últimos anos, podem se beneficiar disso. Em entrevista ao Valor, ele afirma que tem uma visão bem mais positiva sobre o Brasil do que normalmente encontra quando visita o país e conversa com investidores locais, que, em sua visão, costumam ser “excessivamente pessimistas”.
Valor: O Fed vai começar a cortar os juros em 0,25 ponto ou 0,5 ponto? Por quê?
Mohamed El-Erian: O Fed vai começar em 0,25 ponto. Eles vão cortar porque a inflação diminuiu de forma significativa, porque o balanço de riscos agora está inclinado para o desemprego, em oposição a uma inflação mais alta. E não devem começar a cortar os juros em 0,5 ponto porque bancos centrais não gostam de começar ciclos de cortes em um ritmo de 0,5 ponto. Isso sinaliza que estão atrás da curva e os mercados já estão exuberantes neste momento. O mercado já está precificando 1 ponto percentual (p.p.) de cortes neste ano e outro ponto percentual no primeiro semestre do ano que vem. O Fed apenas vai tentar acalmar o mercado um pouco e promover uma série de cortes de 0,25 ponto.
Valor: Qual vai ser o tamanho deste ciclo de cortes?
El-Erian: Essa é uma enorme incerteza, tanto que o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, se recusou a responder. Ele se recusou absolutamente em fazer isso. A amplitude das projeções para os juros no fim do ciclo vai desde números um pouco inferiores a 3% a números um pouco maiores que 4%… Eu estou mais inclinado para os 4%.
Valor: Por quê?
El-Erian: Há três razões para que as taxas de juros de equilíbrio não voltem para onde estavam antes. A primeira é a política fiscal dos Estados Unidos, que é muito expansionista. Era impensável ter 30 meses consecutivos com a taxa de desemprego a 4% ou abaixo disso com um déficit fiscal de 6% ou 7% do PIB. O segundo motivo é que as cadeias de oferta global mudaram. E o terceiro tem a ver com uma doutrina econômica. Cresci em um tempo onde havia o “consenso de Washington”, que significava desregulamentação, liberalização e prudência fiscal. Estamos em um mundo de retomada da regulação, política industrial e imprudência fiscal. Se você olhar para essas condições, é muito difícil imaginar juros abaixo de 4%.
Valor: Qual sua expectativa para a atividade nos EUA? É possível uma recessão no curto prazo?
El-Erian: Atribuo o risco de recessão para a economia americana em 35%. Estive com esse número desde o início do ano. O que tem sido notável é o que chamamos de narrativa pingue-pongue. Dia 31 de julho foi a última reunião do Fed. Todo mundo estava feliz. Dia 2 de agosto, relatório de emprego nos EUA e, de repente, bancos importantes elevaram suas probabilidades de recessão. O Goldman foi de 10% para 25%. O Citi foi para 100% e disse que já estávamos em uma recessão. Então tivemos o mais ruidoso de todos os dados, os pedidos semanais de seguro-desemprego nos EUA, que foram tranquilos, então as probabilidades de recessão caíram de novo. O que isso diz é que há muita volatilidade no que os economistas estão vendo.
Valor: Por que essa volatilidade?
El-Erian: As projeções para o crescimento econômico não são tão robustas quanto costumavam ser. Mesmo um risco de recessão de 35% é bastante considerável. A segunda razão é que não há um “forward guidance” [projeção] por parte do Federal Reserve. O banco central está excessivamente dependente dos dados e vai mudando conforme as novas informações. E o mercado acaba se movendo junto com ele. E a terceira razão é que há muita alavancagem no mercado, o que gera uma volatilidade não só nos preços, mas também na narrativa, o que é muito incomum.
Valor: As eleições americanas podem ser uma fonte de pressões inflacionárias?
El-Erian: Dado o que sabemos hoje, a diferença entre os dois candidatos se resume a duas coisas. [Donald] Trump será muito mais pró-tarifas do que [Kamala] Harris. E Harris será muito mais pró-regulação do que Trump. Em outros assuntos, eles parecem bem semelhantes. Se você olhar para isso, tarifas são inflacionárias e regulação é inflacionária. É difícil dizer o que será menos inflacionário…
Valor: Os mercados emergentes irão se beneficiar do cenário de cortes nos juros nos EUA?
El-Erian: No passado recente tivemos uma pandemia e um episódio de inflação elevada nos mercados desenvolvidos. Era de se pensar que haveria uma grande crise nos mercados emergentes. Não tivemos nada parecido com isso. Sim, o Fed pode abrir a porta para os bancos centrais gradualmente reduzirem as taxas de juros ao redor do mundo. Sem dúvida.
Valor: E em relação aos ativos dos mercados emergentes?
El-Erian: Um dos grandes mistérios do último ano e meio é que quase todos os ativos de risco atraíram fluxos, exceto os mercados emergentes. É esperado que isso mude. Parte da explicação tem a ver com o fato de as ações de emergentes terem exibido um desempenho inferior por muitos anos. Parte disso tem a ver com o fato de que as taxas de juros ficaram tão altas que os investidores viam como suficiente o retorno que obtinham em mercados desenvolvidos. E parte tem a ver com problemas de informação. Os emergentes não são bons em sinalizar as oportunidades de investimento que possuem. Exatamente por isso, essas são regiões atraentes, porque não foram capazes de atrair recursos como faziam antigamente.
Valor: Há interesse dos investidores estrangeiros pelo Brasil?
El-Erian: De maneira geral, sim, mas não o suficiente para atrair recursos. E parte disso tem a ver com os próprios brasileiros, honestamente. Eu sempre comparo os argentinos e os brasileiros. Se você der a eles um copo preenchido até a metade, o argentino vai ver o copo meio cheio, até totalmente cheio e o brasileiro vai ver o copo meio vazio, até totalmente vazio. Os investidores de mercados emergentes sempre vão se apegar ao que os investidores locais estão dizendo. E os brasileiros são excessivamente pessimistas. O Brasil tem uma inflação de 4,5%; uma meta de inflação de 3%; um Banco Central que está indicando uma alta de juros; o crescimento econômico está forte… O Brasil tem um desafio de consolidação fiscal, mas eu não acho que a economia brasileira é apreciada da maneira que ela deveria ser apreciada. Acho que o Brasil tem uma situação fiscal que não é boa e, sim, é necessário fazer alguma coisa a respeito, mas que está longe de ser algo desastroso.
Valor: Não é algo novo…
El-Erian: Quando trabalhava com mercados emergentes na Pimco, a Argentina deu o calote em 2001 e houve eleições no Brasil em 2002. Lula venceu o primeiro turno. Os preços dos títulos brasileiros despencaram. Todo mundo dizia que o Brasil seria como a Argentina. Vim para o Brasil justo antes do segundo turno em outubro. Tínhamos investido muito dinheiro no Brasil e viemos conversar com muitas pessoas, inclusive com a equipe do Lula. Estava no aeroporto de Guarulhos, era uma quinta-feira à noite. Mandei um e-mail avisando que compareceria ao comitê de investimentos na sexta-feira. Voei na madrugada, não fiz a barba, não tomei banho, não troquei de roupa. Cheguei à reunião e disse que deveríamos dobrar nossa exposição no Brasil. A reação das pessoas foi de me perguntar se eu estava louco e invocaram a regra das 48 horas: vá para casa, tome banho e se troque para depois conversarmos. E nós dobramos nossa exposição no Brasil. Foi o melhor ‘trade’ que fizemos em mercados emergentes. O sentimento oscila muito.
Valor: Acredita que esse pode ser o caso agora?
El-Erian: O Brasil, para mim, sempre é um cavalo que deveria estar correndo muito rápido e, por algum motivo, fica preso, cai. Se você olhar para o que o Brasil oferece em um mundo que vivemos, de fragmentação, está em uma excelente posição. Externamente, é um dos únicos países que podem interagir tanto com a China quanto com os Estados Unidos sem ter que optar por um dos dois. Tendo a ser muito otimista com o Brasil, mas não encontro esse otimismo quando venho para aqui.
Fonte: Valor Econômico