Diante da ausência de sinais de que o governo tem pressa para corrigir o rumo das contas públicas e em meio ao ambiente conflituoso entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Banco Central, a volatilidade voltou a dar o tom nos negócios ontem. O dólar alcançou a marca dos R$ 5,70 nas máximas do dia, um nível que fez crescer, tanto no meio político quanto no próprio mercado financeiro, o debate sobre a necessidade de uma intervenção da autoridade monetária no mercado de câmbio.
O dólar à vista fechou em alta de 0,22%, a R$ 5,6652, após ter marcado R$ 5,7007 nos maiores patamares da sessão. Já o euro comercial subiu 0,28%, cotado a R$ 6,0875. Vale apontar que, mesmo com algum alívio no fim do dia, o real anotou um dos piores desempenhos do dia ante o dólar no ranking das 33 moedas mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
O dia foi novamente marcado pelos ataques de Lula à condução da política monetária. Em entrevista à Rádio Sociedade, em Salvador, o presidente disse estar preocupado com a escalada do dólar e afirmou que o real sofre com um “jogo de interesse especulativo”.
As críticas ao Banco Central foram replicadas por outras figuras ligadas ao governo, como a presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann. Assim, aumentou o sentimento de cautela, entre os participantes do mercado, sobre medidas alternativas que o governo poderia adotar para conter a depreciação do real.
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Segundo o sócio e diretor de investimentos da Armor Capital, Alfredo Menezes, o estresse do câmbio foi provocado pelo temor com a possibilidade de mudança no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), após Lula afirmar que o governo tem que fazer “alguma coisa” sobre a “especulação” que afeta o real. “Bateu R$ 5,70 com medo do que o governo poderia fazer para conter o câmbio”, diz Menezes.
Ele aponta, por outro lado, que o nível de R$ 5,70 do dólar parece muito elevado, fato que abriu espaço para um movimento de realização de lucros no fim da tarde. “Houve um ‘overshoot’ [movimento exagerado de desvalorização] da moeda brasileira. Trabalhamos com um câmbio de equilíbrio de R$ 5,40, e R$ 5,70 foi muito exagerado”, diz Menezes.
Apesar do nível alto do dólar, o profissional não espera um alívio mais amplo no curto prazo, o que deve obrigar o BC a retomar o aperto de juros no ano que vem para conter o efeito inflacionário de um real depreciado.
O tema da intervenção cambial por parte do Banco Central (BC) esteve bastante presente na sessão de ontem. No fim da tarde, rumores de que a autoridade monetária teria entrado em contato com tesourarias de instituições financeiras sobre o assunto circularam nas mesas de operação e chegaram a afetar a dinâmica dos ativos.
Ainda que seja praxe a consulta do BC às mesas de operações em dias de oscilação significativa da taxa de câmbio, o evento não ocorreu na sessão de ontem. O Valor consultou tesourarias de diversas instituições financeiras para confirmar se houve algum contato extraordinário, mas todas negaram.
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Segundo o diretor de mercado de capitais do Scotiabank Brasil, Hiroshi Ogawa, ao se observar a inclinação das curvas de juros de cinco anos do Brasil e dos Estados Unidos e também o desempenho do câmbio brasileiro, é possível perceber uma correlação que foi quebrada, indicando que o patamar de R$ 5,70 é exagerado. “A meu ver, é um sinal de que há um deslocamento da moeda brasileira. Observando essa correlação, o câmbio deveria estar mais próximo de R$ 5,40 por dólar”, diz.
O executivo diz não enxergar piora sequencial no cenário doméstico para explicar a recente depreciação da moeda brasileira. Em sua leitura, resquícios do efeito de sazonalidade podem estar pesando sobre o real. “Pode ter um rescaldo desse movimento típico de fim de semestre, algo inercial mesmo. Creio que temos que esperar uma ou duas semanas para ter mais clareza disso”, diz.
Ogawa afirma ainda que o início do período de verão no Hemisfério Norte pode ser um empecilho para o retorno do investidor estrangeiro. “Eles zeram a posição porque vão sair em férias e não querem ter exposição em mercado com marcação ruim; querem evitar risco desnecessário”, aponta.
Ainda que o debate sobre uma possível intervenção no câmbio por parte do BC tenha ganhado corpo ontem, o executivo diz não ver necessidade de uma ingerência neste momento. “Enquanto a incerteza fiscal estiver aumentando e a curva de juros estiver refletindo essa incerteza, acho que o BC não vai fazer nenhuma intervenção”, diz. “Se fosse só o câmbio isoladamente, acho que não teria problema de fazer ajuste diante de uma anormalidade, mas não está faltando dólar no mercado, então o BC vai esperar o mercado equilibrar.”
O diretor da Armor também se mostrou cético quanto à possibilidade de uma intervenção do BC. Segundo ele, o mercado não se mostrou disfuncional, mas, sim, precificou um real que perde a paridade com moedas como o peso mexicano. “Tenho muita dúvida se [o BC] deveria intervir porque você acaba quebrando um termômetro que o mercado está dando sobre o fiscal”, avalia.
Tesoureiros de grandes instituições financeiras consultados pelo Valor também descartaram, em condição de anonimato, qualquer necessidade de uma intervenção no câmbio neste momento. “Se o BC não tiver clareza maior do que o governo vai fazer em relação a contingenciamento e bloqueio de recursos, pode ser um dólar mal gasto”, diz. Esta fonte afirma ainda que a volatilidade relativamente contida do câmbio também não justifica uma interferência. “Apesar de o dólar estar subindo bastante, há liquidez no mercado e o dólar casado [que negocia o diferencial de taxas entre os mercados futuro e à vista] está comportado também.”
Para o chefe de tesouraria de outro banco, o primeiro movimento deveria vir do governo. “Seria muito ruim a intervenção sem uma mudança de postura do governo”, diz. Outro profissional ressalta que é cedo para uma atuação do BC, mas diz não ser um cenário improvável. “O mercado está exagerando, mas ainda é cedo para uma intervenção. Uma atuação agora pode espirrar nos juros, piorar a curva. Não tem uma correria por dólar que justifique. Por enquanto só deu margem para a discussão.”
Vale apontar que, tanto o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, quanto o diretor de política monetária, Gabriel Galípolo, têm se posicionado de forma contrária às intervenções no câmbio caso não haja alguma disfuncionalidade no mercado. Segundo eles, a moeda serve como uma âncora para absorver choques externos e uma medida para conter os preços provocaria uma corrida de agentes para buscar proteção em outros ativos, como os juros de longo prazo.
Em meio aos temores de que o Copom precise retomar as altas da Selic no curto prazo devido à piora do câmbio, declarações de Campos Neto em um evento promovido pelo Banco Central Europeu (BCE), em Portugal, trouxeram algum alívio aos participantes do mercado. O dirigente da autoridade monetária afirmou que está confiante de que a inflação do Brasil daqui a um ano será menor do que aquela que o mercado espera atualmente.
Segundo o profissional de estratégia da tesouraria de uma grande instituição financeira, a fala “foi bem forte”. “Ele quis deixar bem claro que o cenário-base é não subir os juros. A barra está alta e eles vão tentar acomodar o máximo possível. Vão comprar tempo para ver se o governo se mexer”, avalia.
As declarações também contribuíram para a queda dos juros futuros ontem. O DI para janeiro de 2026 recuou de 11,775% para 11,665%.
Fonte: Valor Econômico


