Por Marina Guimarães — Para o Valor, de Buenos Aires
25/10/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
Em campanha eleitoral para o segundo turno das eleições presidenciais na Argentina, o candidato líder, Sergio Massa (Unión por la Pátria), ainda não apresentou um plano de governo caso seja eleito no próximo dia 19 de novembro. Mas já sinalizou que quer reduzir drasticamente o déficit fiscal e unificar as múltiplas taxas de câmbio, mas sem dizer como fará isso.
Apesar de seu programa econômico ser uma grande incógnita, há uma certa expectativa positiva entre os analistas com um eventual governo Massa, considerado por eles como um político mais aberto ao diálogo e à negociação com os diferentes grupos políticos, em contraste com o kirchnerismo e o rival da ultra direita, Javier Milei.
“Sergio Massa é um líder com grande capacidade de conseguir apoio político. Ele contará com a estrutura do peronismo em nível federal para dar musculatura política à sua gestão”, diz Juan Ignacio Di Meglio, diretor da consultoria LLYC Argentina. Como presidente, diz ele, Massa teria liberdade para montar a equipe econômica e de se distanciar do kirchnerismo numa área em que nunca esteve muito alinhado ideologicamente.
O projeto de lei do orçamento 2024 traz algumas indicações dos planos do ministro de Economia. Massa já indicou que pretende enviar uma modificação na meta de resultado fiscal, de um déficit de 0,9% para um superávit de 1% do PIB. Trata-se de uma meta muito ambiciosa, que envolveria cortes drásticos nos gastos, pois a meta oficial para este ano é um déficit de 1,9%. Analista privados, porém, estimam um déficit de, no mínimo, 3,9%, citando as medidas de incentivos fiscais anunciadas por Massa desde as primárias de agosto e que ajudaram a impulsionar sua votação no domingo.
Em encontro com a mídia estrangeira na segunda-feira, Massa afirmou que quer criar um mecanismo de “prêmio e antecipação de pagamentos de alguns bônus argentinos” para dar suporte aos preços desses ativos no mercado. Mas ele não detalhou como seria esse instrumento e tampouco explicou como convocará um governo de união nacional, como manifestou no discurso de vitória na noite de domingo.
Em outra entrevista recente, o vice-ministro de Economia, Gabriel Rubinstein, antecipou que há planos de unificar as várias cotações de câmbio em um eventual governo. Em 10 de outubro Massa já promoveu a fusão de três cotações do dólar – os chamados solidário, Catar e cartão de crédito.
“Com o contundente resultado de domingo, todo mundo pensa que Massa vai ganhar em novembro e, claramente, as expectativas estão refletidas no mercado cambiário que descomprimiu um pouco”, afirma a economista Marina Dal Pogetto, diretora executiva da consultoria EcoGo. Ela observa que em um eventual governo de Massa a principal certeza é a de que não haverá risco de transição entre um esquema de repressão financeira a um esquema distinto, como a dolarização – que colocava em dúvida os contratos -, defendida por Milei.
Luis Secco, fundador da consultoria Perspectiv@s Económicas, concorda que Massa representa uma “garantia” de governabilidade. “Mas a política por si só não é suficiente. É preciso uma boa política econômica para consertar a economia”, acrescentou.
Massa não terá margem para gradualismo como teve Maurício Macri (aliança Juntos por el Cambio) em 2015. No diagnóstico da economista, o problema fundamental é o balanço do Banco Central, com reservas líquidas negativas. A recomposição do balanço e correção de preços relativos vão exigir um programa de choque, diz Dal Pogetto.
“O próximo governo deverá ir a um cenário de rápida consolidação fiscal que leve à emissão monetária zero, uma renegociação do acordo com o FMI e uma correção do câmbio oficial combinado com uma gradual suspensão das restrições cambiais, e implementar um plano de estabilização sem explosão social”, diz a economista da Ecolatina, Agostina Myronec.
Para analistas, Massa tem capacidade política para negociar uma maioria no Congresso para aprovar as medidas em seu eventual governo e, com isso, superar a crise. “Está claro que Massa é uma pessoa que não vai hesitar em fazer tudo rápido. Gostaria de acreditar que será mais rápido do que qualquer outra coisa”, diz o diretor do Centro de Estudos da Orlando Ferreres y Asociados, Fausto Spotorno.
O economista-chefe da Câmara Argentina de Comercio (CAC), Matías Bolis Wilson, diz que Massa terá de apresentar rapidamente um plano para estabilizar o nível de preços e o câmmbio. Ele ressalta que também é preciso eliminar as distorções e restrições macroeconômicas e melhorar as regulações para impulsionar as exportações, especialmente de energia (Vaca Muerta) e mineração (lítio).
A grande pergunta que os analistas fazem é se Massa vai querer pagar o preço político de anunciar um programa de choque que requer correção dos preços relativos, do dólar e das tarifas no início do mandato. (Colaborou Roberto Lameirinhas, de São Paulo)
Fonte: Valor Econômico


