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Depois de lançar a caneta emagrecedora Mounjaro e somar, hoje, US$ 901,1 bilhões (R$ 4,5 trilhões ao câmbio atual) em valor de mercado, a Eli Lilly avança agora rumo à segunda onda da classe de medicamentos, com comprimido para emagrecer recém-aprovado nos Estados Unidos. No Brasil, a farma lançou o Mounjaro em meados do ano passado, o que fez as vendas mais que triplicarem, e espera que a pílula para perda de peso chegue ao país em 2027. O medicamento não se trata de versão em comprimido do Mounjaro, mas de novo produto, com outro princípio ativo.
Segundo o sueco Patrik Jonsson, presidente de operações internacionais da Lilly, a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, joga sozinha em sua classe e a farma não vê, no momento, laboratórios concorrentes ao seu negócio, já que sua molécula imita dois hormônios intestinais para potencializar o controle do nível de açúcar no sangue e saciedade. “Somos de um segmento diferente em que não tem ninguém que possa competir com a gente”, disse ao Valor.
O executivo, responsável por todos os mercados onde a Lilly opera, com exceção dos EUA, disse que o momento que a farmacêutica vive não tem precedentes. O laboratório chegou a atingir US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) em valor de mercado no ano passado. “Estou por aqui há bastante tempo, mas acho que nunca vivi um momento mais emocionante como esse”, afirmou.
As vendas da farmacêutica, com Mounjaro, cresceram mais de 200% no Brasil em 2025, o que reflete a alta da demanda por essa classe de medicamentos no país. No total, o varejo farmacêutico comercializou cerca de 8,9 milhões de unidades do perfil do remédio e somou R$ 9,6 bilhões em faturamento no ano passado, altas de 40% e 87%, respectivamente. Os dados são de levantamento do grupo FarmaBrasil, com base em dados da IQVIA, e consideram também vendas de outros medicamentos de GLP-1, como a semaglutida, liraglutida e dulaglutida.
Hoje, a Lilly atua com importação, já que decidiu fechar a única fábrica que tinha no país em 2018. Naquele momento, deixou clara a mensagem de que o gesto não diminuía a importância do mercado brasileiro, hoje principal da Lilly na América Latina e 5º no mundo.
Sobre planos de produção local, a Lilly disse que não há decisão no momento. “Não tenho nenhum anúncio a fazer, mas não estou descartando nada, porque nos últimos anos temos anunciado investimentos em manufatura global que ultrapassam US$ 50 bilhões [R$ 258 bilhões]”, disse. “Não estou excluindo a possibilidade de que possa haver uma futura unidade fabril no Brasil.”
Desde que lançou o Mounjaro, a Lilly avançou no terreno antes dominado pela dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante das canetas Ozempic e Wegovy e pioneira dos medicamentos contra obesidade. A patente do princípio ativo das canetas da dinamarquesa, a semaglutida, expirou no mês passado, aquecendo a corrida de farmacêuticas nacionais interessadas na produção de produtos similares. A patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, deve expirar em 2036.
A Lilly não enxerga o ingresso de alternativas às canetas emagrecedoras da dinamarquesa como algo que preocupe. “Mais pessoas terão acesso a um GLP-1 com semaglutida, porque a patente expirou, e tudo bem. Somos diferentes porque temos um agonista duplo”, disse.
O novo comprimido da Lilly já foi submetido à aprovação regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Questionado sobre quando o mercado brasileiro pode passar a contar com o medicamento, Jonsson disse que a previsão depende da velocidade da agência, mas, no cenário ideal, seria “meados de 2027 ou segunda metade do ano que vem.” O princípio ativo dele é o orforglipron, diferente da tirzepatida, e trata-se de GLP-1 não peptídico, mais fácil de ser absorvido no estômago, sem restrições alimentares para a ingestão do comprimido, disse.
O lançamento aumentará a pressão sobre a Novo Nordisk, até então com vantagem inicial por ser a única que contava, desde o fim do ano passado, com aprovação da FDA, o equivalente americano à Anvisa, para produzir versão em comprimido de medicamento para perda de peso, no seu caso o Wegovy. “Espero que a Anvisa faça como o FDA e acelere a aprovação [do orforglipron]”, disse Jonsson.
O foco da Lilly no país tem sido hoje investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), que somaram US$ 55 milhões (R$ 283,8 milhões) em 2025 e devem chegar a US$ 85 milhões neste ano (R$ 438,6 milhões). O Brasil participa principalmente de estudos de fase 3, a última antes da aprovação de órgãos reguladores, em áreas como saúde cardiometabólica, que inclui obesidade e diabetes, oncologia e imunologia.
“Existe um compromisso forte com investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil este ano, no próximo e, acho, que pelos que virão”, afirmou.
O laboratório espera lançar pelo menos dez medicamentos no país nos próximos anos, em portfólio que inclui tratamentos para Alzheimer, obesidade e perda auditiva, sendo o desenvolvimento deste último parte de projeto previsto para longo prazo. No campo da obesidade, está prevista ainda a terceira onda de medicamentos do segmento, com a retatrutida, com efeito previsto maior do que o do Mounjaro.
“[O pedido da retatrutida] Será submetido aos órgãos reguladores quando tivermos os resultados de todos os ensaios de fase três. Acho que até o fim deste ano [nos EUA]. O Brasil também é um mercado de prioridade máxima para nós, então também no fim deste ano ou início de 2027”, disse.
Globalmente, o faturamento da Lilly foi de US$ 65,1 bilhões (R$ 336,2 bilhões) em 2025, alta de 45%. Os EUA concentraram 66,7% do faturamento, seguido pela Europa (17,7%), Japão (3,3%) e China (3%). O Brasil integra o grupo dos demais países, que juntos responderam por 9,3% do faturamento. O lucro líquido da americana naquele ano foi de US$ 20,6 bilhões (R$ 106,3 bilhões), quase o dobro de 2024.
Fonte: Valor Econômico