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À medida que a fila de registro de novos medicamentos com semaglutida começa a andar no país, laboratórios que atuam no segmento de canetas emagrecedoras intensificam a disputa pelo consumidor.
A dinamarquesa Novo Nordisk e o laboratório brasileiro Eurofarma já contam com descontos de até 50% para clientes que participam do programa de suporte ao paciente das companhias. Até a americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, anunciou descontos de até 36% na compra de combos, movimento que surpreendeu analistas que esperavam a manutenção de preços do laboratório, que usa a tirzepatida, molécula diferente da semaglutida e está protegida por patente até 2036.
A exclusividade da semaglutida, princípio ativo dos remédios da Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, chegou ao fim em março, abrindo espaço para concorrentes. No momento, a EMS, de Carlos Sanchez, é o único laboratório com autorização para fabricar e vender uma versão própria de medicamentos com a molécula, mas a fila para novos registros na Anvisa, a agência reguladora brasileira, acumula cerca de outros 20 pedidos.
Em maio, o produto do grupo se tornou a primeira semaglutida sintética análoga à original com aprovação da agência no país, inicialmente indicada para diabetes. Na semana passada, começou a ser vendido sob o nome comercial Ozivy, com doses individuais de 0,25 mg, 0,5 mg e 1 mg, por entre R$ 452 e R$ 497. No programa de suporte ao paciente da companhia, o pacote para três meses de tratamento é vendido por R$ 863,23, ou R$ 287 por mês.
As novas condições da Lilly para o Mounjaro foram lançadas no dia 12 deste mês, dias antes do início das vendas daquele medicamento, que tiveram início no dia 15. Elas reduzem de 13% a 36% o preço de cada caixa na compra de duas unidades, condição também válida apenas para participantes do programa ao suporte ao paciente do laboratório.
O desconto maior aplica-se à dose de 5 mg, que no combo passa a custar R$ 1.125,00 por unidade, contra R$ 1.760,00 na compra individual. O desconto no combo de doses de 7,5 mg a 15 mg varia de 13% a 34% por unidade, com o preço de cada caixa não ultrapassando R$ 2.300,00, calcularam analistas do Goldman Sachs.
O banco disse que o laboratório americano já vinha ganhando participação de mercado, mesmo com preços mais altos, e que a redução pressiona ainda mais concorrentes. “Interpretamos o anúncio como uma indicação de um cenário competitivo mais acirrado no mercado brasileiro de GLP-1 [classe das canetas emagrecedoras], já que antecipávamos preços mais altos para esta molécula, dada a eficácia marcadamente superior e o posicionamento premium do Mounjaro”, disse, em relatório.
Mesmo com a patente protegida, o gesto da Lilly indica que a farmacêutica também está atenta à chegada de opções mais baratas de semaglutida, ainda que as moléculas não concorram diretamente. Enquanto o princípio ativo das canetas da dinamarquesa imita um hormônio para regular o apetite e o metabolismo, a molécula do laboratório americano imita dois.
Ao Valor, a companhia disse que a condição é local e temporária. “O preço do Mounjaro na lista da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão que regula preços de medicamentos no Brasil, permanece inalterado”, afirmou, em nota.
Na quinta-feira (18), na mesma semana em que o Ozivy começou a ser vendido, a Eurofarma também anunciou novos descontos, que chegam a 46% nas compras individuais da Poviztra (versão local do emagrecedor Wegovy) e da Extensior (versão local do antidiabético Ozempic) e a 48% para quem iniciou e está continuando o tratamento com as canetas. As duas são fabricadas pela Novo Nordisk, mas distribuídas pela brasileira desde o ano passado, em parceria que quer ampliar o alcance da molécula dinamarquesa.
No caso da Poviztra, o combo indicado para os dois primeiros meses de tratamento, com doses de 0,25 mg e 0,5 mg, passa a custar R$ 590, 2% mais barato comparado ao preço definido em abril. Já o preço da dose de manutenção do terceiro mês, de 1 mg, recuou em mais 48% e ficou em R$ 309. Na prática, três meses de tratamento com o emagrecedor custará R$ 899, 25% menos, ou R$ 299 por mês.
Para compras individuais, o desconto varia entre 40% e 46%, com doses de 0,25 mg e 0,5 mg sendo vendidas por R$ 445 e R$ 490, respectivamente. Doses maiores, de 1,7 mg e 2,4 mg, não tiveram novos cortes e seguem vendidas pelo preço anunciado em abril, de R$ 1.189,00 e R$ 1.444,00, respectivamente.
A diretora da unidade de prescrição médica da Eurofarma, Andrea Frazão, disse que os novos preços devem começar a valer a partir da próxima segunda-feira (29), e, inicialmente, não serão temporários. “A partir de julho, o público também já pode esperar descontos de até 50% em uma linha de suplementos para complementar sua jornada de tratamento.”
Já a dinamarquesa Novo Nordisk segue oferecendo gratuitamente a dose inicial de 0,25 mg do Wegovy, a caneta emagrecedora do laboratório, que custa de R$ 899 a R$ 949. Na prática, disse a farmacêutica o comprador pode pagar até 50% menos em duas doses, mas a condição está sujeita à duração dos estoques.
No dia 28 de maio, dois dias depois de a Anvisa aprovar o registro do Ozivy, anunciou combo para a maior dose do Wegovy, de 2,4 mg, em que o paciente pode comprar três unidades pelo preço de duas, algo entre R$ 3.498,00 e R$ 3.698,00, com cada uma custando entre R$ 1.166,00 e R$ 1.232,00. A condição também é temporária e acaba neste mês.
A redução nos preços das canetas da dinamarquesa, tanto sob rótulo internacional quanto local, pode ajudá-la a proteger parte de sua fatia de mercado. Também pode contribuir para argumentar contra rejeição, baseada em preço, da inclusão dos medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), outra medida que ajudaria a dinamarquesa a recuperar mercado.
Priscilla Mattar, vice-presidente médica do laboratório no Brasil, disse que a empresa aguarda resultado de novo pedido de incorporação, já que a solicitação anterior foi rejeitada no ano passado. “Aquela rejeição não foi por motivos técnicos e científicos. Pelo contrário, foi por questão de impacto orçamentário”.
Fonte: Valor Econômico