Os títulos de dívida dos mercados emergentes, em queda este ano, devem enfrentar outra ameaça nos próximos meses: o impacto inflacionário do fenômeno climático La Niña.
A alta de preços dos alimentos deverá pesar sobre os títulos em moeda local da América Latina, que já apresentam um desempenho inferior ao de seus pares globais, de acordo com a Columbia Threadneedle Investments. Ativos do Brasil, Argentina e América Central estão especialmente em risco devido a eventos meteorológicos imprevisíveis, afirmou o TCW Group.
Há 65% de chance de que uma La Niña se formará nos próximos três meses e persistirá até 2025, de acordo com a Agência Atmosférica Oceânica Nacional dos EUA. O fenômeno La Niña é causado por temperaturas mais frias do que o normal na superfície das águas no meio do Oceano Pacífico, e pode causar secas na América Latina, prejudicar lavouras e pressionar os custos de produtos agrícolas. O padrão climático também pode provocar mais furacões no Golfo do México e impactar a produção de petróleo na América do Norte.
As perturbações climáticas representam um fator inflacionário “que pode retardar os ciclos de flexibilização dos bancos centrais em lugares como a América Latina”, disse Adrian Hilton, chefe de juros globais e dívida de mercados emergentes na Columbia Threadneedle, em Londres. O banco central da Colômbia, por exemplo, “pode acrescentar à sua lista de preocupações possíveis impactos climáticos sobre os preços dos alimentos”, disse ele.
Os mercados emergentes foram atingidos por uma série de condições climáticas extremas nos últimos anos, atribuídas ao aumento das temperaturas globais. O sul do Brasil sofreu inundações catastróficas em maio, enquanto a seca reduziu o número de navios que podiam usar o Canal do Panamá em junho. Na África, a Zâmbia sofreu a pior seca em quatro décadas, o que ajudou a convencer o banco central a elevar juros, enquanto a falta de chuvas na Índia puxou para cima os custos de alimentos em toda a Ásia.
Estes acontecimentos deram mais impulso à inflação global, que mina os retornos das carteiras de dívida dos países em desenvolvimento. Os títulos em moeda local dos mercados emergentes caíram 0,7% este ano, com desempenho inferior aos títulos do Tesouro americano (Treasuries), que perderam 0,3%, segundo índices compilados pela Bloomberg.
O padrão La Niña pode ter um efeito especialmente pronunciado desta vez, já que está previsto para ocorrer três meses após o fim do El Niño. É apenas a terceira vez que isso acontece desde 1950, de acordo com a Swiss Re.
“Uma transição rápida para La Niña poderia prolongar um período de três anos de inflação elevada, com preços dos alimentos e de energia sujeitos a um choque de oferta”, escreveram os economistas Fernando Casanova Aizpun e Caroline Cabral em relatório da Swiss Re.
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Fonte: Valor Econômico