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O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse em entrevista ao Valor que a projeção alternativa de inflação apresentada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) com juros em 10,5% ao ano mostra que a Selic é “suficientemente alta” para, num período mais longo, trazer a inflação para a meta.
“Já houve no passado momentos em que a gente desenhou os cenários alternativos para mostrar que a taxa de juros é suficientemente alta, que num período mais longo ela traz a inflação para a meta”, disse o presidente do Banco Central. “Estava tendo muito ruído em torno dos números de curto prazo. A gente entende que essa é uma informação valiosa a mais para os agentes.”
Ele esclarece que o Banco Central usou a palavra “interrupção” do ciclo de queda de juros porque ela representa da melhor forma o objetivo de não dar “guidance” aos participantes do mercado, ou seja, uma sinalização firme de seus passos futuros.
Questionado se o uso da palavra “vigilante” significa que o Banco Central está pronto a subir os juros, respondeu: “Não é o nosso cenário base a alta”.
Na outra direção, também procurou afastar a possibilidade de baixa de juros em 2025, quando a política monetária se volta ao controle da inflação em 2026.
“Hoje a comunicação é compatível com um cenário base, que não é de alta e não é de queda. A comunicação está direcionada ao fato de que teve uma interrupção, a gente precisa de tempo para observar”, disse.
A seguir, trechos sobre o que Campos Neto falou sobre temas relacionados mais diretamente à política monetária:
Valor: A comunicação do Copom fala em interrupção do ciclo de corte de juro, o que dá uma ideia de uma pausa e implica que depois poderia ser retomado. Por que o BC usou essa a palavra?
Roberto Campos Neto: A interrupção era a palavra que mais sinalizava o que o ‘guidance’ deveria ser. Ou seja, nós não queremos dar um guidance. A interrupção estava muito compatível com não dar guidance.
Valor: O comunicado do Copom trouxe uma projeção diferente de inflação, com juros parados em 10,5%, que aponta uma inflação de 3,1% em 2025. O Copom está sinalizando algo com a divulgação dessa projeção?
Campos Neto: Já houve no passado momentos em que a gente desenhou os cenários alternativos para mostrar que a taxa de juros é suficientemente alta, que num período mais longo ela traz a inflação para a meta. Estava tendo muito ruído em torno dos números de curto prazo. A gente entende que essa é uma informação valiosa a mais para os agentes.
Valor: O comunicado diz que a política monetária deve se manter contracionista por tempo suficiente. Quanto tempo seria suficiente?
Campos Neto: Não demos o ‘guidance’ exatamente por essa razão, e oferecemos um cenário alternativo para esclarecer que achamos que está num terreno restritivo. É difícil dizer. Há muitas variáveis que vão se desenrolar no curto prazo de tempo que vão dar clareza. Tem um tema internacional que precisa observar. Tem uma incerteza local que se agravou nas últimas semanas. Com o tempo, esse efeito deve ser diluído. São incertezas tanto no monetário quanto no fiscal. Dos dois lados, essas incertezas tendem a diminuir. É um daqueles momentos em que o tempo é muito importante. Não consigo precisar quanto tempo vai ser [necessário]. Mas foi a melhor forma de expressar o que a gente acha que é importante fazer nesse momento.
Valor: A ata e o comunicado dizem que o Copom está “vigilante”. No passado, quando essa expressão foi usada, foi em geral quando se identificava um risco grave no horizonte e se atribuía uma chance considerável de ter uma alta de juro. Existe esse risco, e o BC está disposto a agir nesse sentido?
Campos Neto: Não é o nosso cenário base a alta. A comunicação está muito compatível com não dar um ‘guidance’ nesse momento, o que não significa que o Banco Central não vai estar vigilante. Vai estar olhando e entendendo, principalmente, esses ruídos que fizeram com que o prêmio de risco subisse bastante.
Valor: A projeção de inflação do Banco Central usa juro estável ao longo do horizonte relevante. Mas, no ano que vem, o Copom estará olhando 2026. Isso não abre a possibilidade de baixa de juro?
Campos Neto: Hoje a comunicação é compatível com um cenário base, que não é de alta e não é de queda. A comunicação está direcionada ao fato de que teve uma interrupção, a gente precisa tempo para observar.
Valor: Segundo a ata, o Copom decidiu deixar o balanço de riscos simétrico ‘nessa reunião’. Isso significa que pode ser reavaliado na próxima? Qual seria a implicação de uma eventual mudança para a política monetária?
Campos Neto: O balanço de riscos é reavaliado em cada momento. Dissemos na última ata que tinha algumas pessoas [do comitê] que tinham opiniões diferentes sobre o balanço de riscos. Algumas pessoas entenderam que o balanço de risco deveria estar assimétrico. O conjunto das pessoas entendeu que o que mais caracterizava o debate naquele momento era o balanço de risco simétrico.
Valor: O mercado reagiu muito mal à votação dividida do Copom de maio, e houve 100% de coesão em junho dentro do comitê. Poderemos esperar que essa unidade vai ser o padrão daqui por diante?
Campos Neto: Teve um aprendizado com o dissenso. O mercado puniu muito, não pelo dissenso em si, mas por entender que o dissenso poderia ter uma origem que não fosse técnica. A gente fez questão de enfatizar que isso não era verdade. Mas, de fato, a decisão do Copom anterior gerou um prêmio de risco grande. Eu diria que essa foi uma das reuniões do Copom onde a gente teve o maior espírito de equipe dos últimos tempos. Todo mundo entendendo que houve um ruído grande na dimensão fiscal, e começou a ter um ruído grande na dimensão monetária. A gente precisa endereçar o que é a nossa parte, que é o monetário. Endereçar as causas do ruído, fazer uma comunicação que passa uma tranquilidade de que o que fizemos foi técnico. E isso foi feito, e acho também que foi bem recebido pelo mercado.
Valor: O Copom se deparou com uma projeção de inflação de 3,4% na sua última reunião, acima da meta. As opções seriam não cortar o que estava precificado no Focus ou subir o juro. Por que o Copom escolheu a primeira opção?
Campos Neto: A gente olhou a projeção para 2024, 2025 e 2026, a inflação corrente e as expectativas e percebeu que tinha uma diferença grande entre o que estava vindo de inflação corrente o que estava acontecendo com as expectativas. As expectativas, em grande parte, estavam desancorando por ruídos. Ou seja, não era a inflação corrente que estava gerando uma perspectiva de inflação mais alta na frente. Eram ruídos em relação ao canal na política monetária. Endereçamos o canal da política monetária, explicando o trabalho que foi feito de forma técnica. Nós entendemos que essa era a melhor opção com as variáveis que a gente tinha na mesa. Isso não significa que não possa ser reavaliado em cada reunião daqui para frente.
Valor: A ata chama a atenção para a necessidade de políticas fiscais e monetária síncronas e contracíclicas. O fiscal está expansionista? Qual é o efeito disso?
Campos Neto: Na política fiscal, a gente tem uma coisa hoje parecida com a política monetária. Você tem os resultados de curto prazo não saindo tão ruins, não muito fora do esperado, mas a expectativa piorou. Foi o que a gente tentou endereçar inclusive no Relatório de Inflação. A gente tem uma dissonância entre o que está acontecendo no curto prazo, o que de fato está acontecendo, e o que as pessoas esperam que vai acontecer no futuro. Isso, obviamente, gera um efeito no prêmio de risco. Contamina algumas variáveis. Em algum momento essas variáveis podem ter um impacto mais definitivo na nossa função reação. A gente entende que é importante esclarecer e endereçar esses ruídos. Para o Banco Central comentar cada coisa que o governo, se essa medida é boa ou ruim, não cabe. Para a gente, o importante é o que os preços no mercado que influenciam a nossa função de reação estão dizendo. O que a gente tem de leitura de mercado é que, apesar dos números de curto prazo não estarem muito fora do esperado, a gente teve uma percepção de piora fiscal na frente. A gente consegue ver isso, por exemplo, no questionário pré-Copom, não nas pesquisas. Um número de quase 80% de pessoas que acham que o fiscal piorou. A gente incorpora isso, leva em consideração. Mas o importante é cuidar do nosso lado, cuidar da nossa cozinha. Parte do nosso trabalho é tentar olhar para frente. Quais são os riscos daqui para frente? E tentar comunicar as coisas de forma mais técnica possível.
Valor: O Banco Central vive a realidade da desancoragem de expectativas por fatores globais, fiscais e de sua credibilidade. O que o BC pode fazer contra isso?
Campos Neto: A decisão do último Copom endereça um pouco esse ponto. O tema da meta de inflação endereça um pouco esse ponto também. O que a gente precisa é elencar os fatores que estão gerando essa desancoragem, uma vez que a inflação de curto prazo não está surpreendendo para pior. Uma vez entendidos os fatores que levam a essa desancoragem, nosso trabalho é tentar atuar nesses fatores. Teve uma reunião do Copom que teve uma decisão que não foi bem esclarecida, que parte do mercado entendeu que não era técnica, nós temos que esclarecer que é técnica. Temos que mostrar ao mercado que o grupo está unido no sentido de trazer a inflação de volta para a meta. É isso que foi feito. Se tem uma incerteza em relação à meta, a nossa função é falar com o Executivo, mostrar que precisamos fazer o decreto da meta, explicar o decreto da meta, dizer que o governo está comprometido com essa meta no médio prazo. E foi isso que foi feito. A gente entende que essas coisas, ao longo do tempo, vão descomprimindo esse prêmio de risco que existe hoje.
Valor: Tem muita dúvida no mercado se a política monetária é capaz de se contrapor a uma política fiscal que é expansionista. A política monetária é eficaz?
Campos Neto: Se você tem uma política fiscal que é expansionista e uma política monetária que é contracionista, você tem um grau de eficiência. Mas se a gente olhar hoje o que está acontecendo na política fiscal, a gente tem um problema maior de expectativa do que de fato os números que estão saindo. Se a gente pega tudo que foi feito, o esforço que o ministro da Fazenda tem feito no sentido fiscal… A gente entende que, sim, teve alguma dificuldade de medidas de recomposição de receita. A gente também falou sobre isso no Relatório de inflação. Mas não cabe ao Banco Central ser comentarista do cenário fiscal em tempo real. Vamos pensar aqui que também tivemos um pedaço do prêmio de risco que foi gerado pela dimensão de política monetária. Vamos endereçar essa parte, e aí a gente entende que no fiscal, ao longo do tempo, as pessoas vão ser capazes de quantificar melhor o efeito das medidas que o governo está tomando.
Valor: Há críticas de que o Banco Central dá muita importância para as expectativas Focus e não ouve o empresariado. O Banco Central está refém das projeções do mercado?
Campos Neto: Não é só o Focus que a gente olha. A gente agora está fazendo o Firmus, que é um boletim Focus com empresas. Não é a verdade que a gente tem historicamente um boletim Focus que sempre jogue os números para cima. Ao contrário. Em outros países, quando a gente olha essas pesquisas coletadas no mundo real, elas geralmente são iguais ou maiores às coletadas do sistema financeiro. A gente vai saber em breve quando o Banco Central divulgar. Até agora, o que a gente tem visto é que estão mais ou menos alinhados. Vai ser igual a um pouco maior do que o Focus.
Valor: Pronunciamento de membros do Copom a grupos fechados de investidores vem causando ao longo do tempo ruídos. O que está sendo feito para lidar com isso?
Campos Neto: As reuniões com grupos fechados, com 10 ou 15 pessoas, passam a ser transmitida. As reuniões com a economistas, a gente está pensando como melhorar. Os países avançados têm mais a característica de não fazer nenhum tipo de reunião fechada com uma ou duas pessoas. Em países emergentes, é mais comum fazer esse tipo de reunião. O país emergente tem aquela característica de vender a sua história para atrair investimento.
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Fonte: Valor Econômico

