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Sentado diante de uma grande mesa redonda, o executivo Joe Dai afirma que há muitas empresas chinesas interessadas em investir no Brasil. A sua, a Jingdong, conhecida como JD, é apenas uma delas. O grupo desembarcou no Brasil recentemente e quer expandir as operações. Há, no entanto, um obstáculo: a dificuldade de entender o sistema tributário do país.
“Eu não penso que o modelo de taxação seja exatamente um problema, é apenas uma regulação com a qual a gente precisa se familiarizar. Em qualquer país, a gente precisa entender o ambiente local, as leis, a regulamentação. Sobre o Brasil, isso é algo que nós ainda precisamos aprender e nós vamos contratar conselheiros locais para nos ajudar com isso”, avalia Dai.
A conversa, na sede da empresa em Pequim, reuniu um grupo de jornalistas brasileiros convidados pelo governo chinês para uma viagem ao país. A mesa redonda, em que dezenas de pratos giram para facilitar as pessoas a se servirem, é um modelo comum na China. O banquete servido naquele domingo, 31 de maio, incluiu pratos à base de frango, pato, porco, cordeiro, peixe e lagosta – o destaque ficou para os “dumplings” (bolinhos recheados) do crustáceo. Toda a refeição, conta o executivo, foi inspirada na culinária típica da região onde nasceu o presidente da China, Xi Jinping.
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Normalmente, explica Camila Ghattas, CEO da Foreseekers, é nesse tipo de compromisso em que começam a nascer as oportunidades de negócio na China. Baseada em Xangai desde 2018, ela dá assessoria a empresas latino-americanas que querem entrar no mercado asiático. “O empresário chinês, antes de fazer negócio, precisa confiar em você”, pontua.
Segundo ela, na primeira vez em que você encontrar um possível parceiro chinês, não se falará de trabalho. “A gente vai estabelecer um relacionamento. Eu vou te contar da minha vida, você vai me contar da sua, a gente vai entender se está alinhado. Não vamos falar de dinheiro, não vamos falar de contrato nesse primeiro momento.”
No país asiático, o principal braço da JD é o de logística. A empresa é chamada de “Amazon chinesa” e, atualmente, adota o modelo de entrega “das 11h às 11h”, isto é, o cliente pede um produto pela internet até as 11h da manhã e recebe o pacote em casa até as 11h da noite – ou vice e versa.
O Valor visitou um centro de distribuição do grupo em Pequim, que tem capacidade de despachar, diariamente, até 810 mil encomendas. Somente por essa unidade passam cerca de 27 mil tipos de produtos, principalmente eletrônicos.
O processo do centro é altamente automatizado, desde o empacotamento até a acomodação das mercadorias nos caminhões. Ferramentas de inteligência artificial são utilizadas para separar as encomendas por região de distribuição e otimizar as entregas.
A unidade de Pequim, no entanto, não é um centro 100% robotizado, como um dos depósitos da companhia que fica em Xangai e atua sob o modelo “fábrica escura”. O nome remete a estabelecimentos que funcionam praticamente sem luz, uma vez que quase não há mão de obra humana.
Além disso, mirando o futuro, a JD começou a testar a entrega final feita por robôs ou drones, mas essa ainda não é uma realidade concreta nem para a empresa nem para a China, que estuda uma regulamentação sobre o tema. Hoje, a maior parte dos cerca de 1 milhão de funcionários do grupo JD é formada por entregadores.
No Brasil, o foco da JD, por ora, não é o varejo. Mas sim o braço industrial do grupo, para oferecer soluções de ponta a ponta para a cadeia de suprimentos a grandes empresas. Dai, inclusive, desconhecia a chamada “taxa das blusinhas”. Ao tomar conhecimento de que era um imposto de importação de 20% cobrado sobre compras de até US$ 50, e que foi extinto recentemente pelo governo, ele se surpreendeu, pois acredita que esse tipo de taxação é importante para proteger a indústria local.
A cerca de 160 quilômetros de Pequim fica a sede global da Great Wall Motor (GWM), na cidade de Baoding, província de Hebei. O complexo é responsável pelo desenvolvimento e testes dos modelos da montadora, que é uma das principais marcas de carros elétricos no Brasil. Lá, uma das instalações visitadas pela reportagem foi uma espécie de “laboratório de vento”, que simula diferentes temperaturas, condições de umidade, além de velozes rajadas de vento, para submeter os veículos a condições climáticas do mundo inteiro, de olho na expansão das vendas.
Após abrir a sua primeira fábrica no Brasil no ano passado, a empresa se prepara para instalar uma segunda unidade, no Espírito Santo. Hoje, a fábrica de Iracemápolis (SP) tem capacidade para entregar 50 mil veículos anualmente. A GWM também já anunciou que pretende investir, até 2032, cerca de R$ 10 bilhões no Brasil.
De acordo com Andy Zhang, presidente da GWM Brasil & México, o mercado brasileiro é muito importante para a empresa, não só pelo potencial de crescimento das vendas internamente mas também por ser uma boa base para exportar carros para outros países da América Latina.
“O nosso objetivo é investir mais no Brasil. Investiremos em novas tecnologias, carros novos, para construir veículos personalizados, de alta qualidade, e que proporcionem uma boa experiência para a população local”, diz.
A empresa se prepara para lançar, no fim do mês, um novo modelo no Brasil, o Ora 5, espécie de SUV compacto 100% elétrico, cuja pré-venda já começou. De olho no mercado nacional, também está investindo em modelos híbridos flex, para rodar tanto com gasolina quanto com etanol, tecnologia que se popularizou no Brasil.
Para Zhang, hoje um dos principais desafios da GWM no país é conquistar a confiança dos clientes, especialmente diante do aumento de concorrência no setor de carros elétricos. “Precisamos conquistar a confiança do cliente, dos nossos parceiros, dos nossos funcionários e do governo. Essa é a estratégia de longo prazo. É como dizer: ‘Somos da China, mas seguimos as práticas locais’. Ou talvez: ‘Não somos uma empresa chinesa, somos uma empresa local’”, aponta.
Em outra frente, na China, a empresa está desenvolvendo carros a hidrogênio, focando inicialmente em veículos pesados. Os modelos de caminhões já estão rodando por lá, e Zhang acredita que a expansão da frota pode ser uma realidade no país asiático em três a cinco anos.
Para o Brasil, a GWM levou apenas um exemplar movido a hidrogênio, para que sejam feitos testes, mas tem investido em parcerias com universidades para desenvolver essa nova alternativa de combustível. Entre as vantagens desse tipo veículo está a de ser uma opção ainda menos poluente que os carros elétricos, com emissão praticamente zero. Hoje, no entanto, a falta de postos de abastecimento é o principal entrave para o avanço da tecnologia, até mesmo na China.
Outro ramo que está de olho no mercado brasileiro é o farmacêutico. O Valor visitou a fábrica da Yiling, especializada em medicina tradicional chinesa, que fica em Shijiazhuang, capital de Hebei. A empresa ficou conhecida internacionalmente por produzir um medicamento à base de ervas para a covid-19, cujo uso foi estimulado pelo governo chinês durante a pandemia, apesar dos questionamentos em relação à eficácia do remédio.
O Lianhua Qingwen é um dos quatro produtos da farmacêutica que podem ser encontrados no Brasil. Além disso, há outros 13 medicamentos com pedidos de certificação apresentados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O diretor do departamento de negócios internacionais da empresa, Sun Xuefei, conta que um dos desafios no Brasil é mostrar que o principal remédio da empresa não serve apenas contra a covid, e sim para resfriados e gripes no geral.
Segundo ele, inicialmente, a empresa começou a mirar o Brasil para atender as necessidades da comunidade chinesa no país. Hoje, no entanto, a farmacêutica tem estudado as necessidades do consumidor local, e quer expandir as opções de remédios para problemas respiratórios, cardiovasculares e até relacionados à depressão.
Há, contudo, entraves específicos para o setor, já que a legislação brasileira traz uma série de exigências, como a realização de testes clínicos e outros procedimentos, o que torna o registro de novos remédios um processo normalmente demorado.
“O principal problema ainda está no fato de que os nossos medicamentos são baseados em ingredientes da medicina tradicional chinesa, que muitas vezes não são reconhecidos pela Anvisa. Portanto, ou temos que abandonar esses produtos ou chegar a um acordo com as autoridades regulatórias brasileiras. Isso envolve experimentos científicos e outros procedimentos, o que acarreta custos adicionais de tempo e financeiros”, diz Xuefei.
Mesmo assim, o diretor garante que a empresa considera o Brasil um mercado fundamental na América Latina e que um dos planos é promover a cooperação com universidades brasileiras. “A ideia é utilizar recursos naturais da Floresta Amazônica, que, na nossa opinião, são recursos pouco explorados. Para isso, esperamos estabelecer parcerias com universidades ou empresas para realizar essas pesquisas em conjunto”, diz.
Também na capital de Hebei, um representante do grupo Kingda, especializado em produzir bombas de dragagem, não consegue esconder a animação ao exibir as dezenas de peças espalhadas em um galpão que foram encomendadas pela Vale, para serem usadas em um projeto da companhia em Omã.
Zhao Chaofeng, diretor de departamento de marketing internacional do grupo, conta que esse é o primeiro negócio fechado com a mineradora brasileira, que classifica como uma empresa referência na área, com quem todos almejam estabelecer laços.
Segundo Chaofeng, a empresa também deseja entrar no mercado brasileiro, mas diz que uma das dificuldades é o tamanho do Brasil, o que impactaria na logística para a distribuição de mercadorias internamente. “O Brasil é muito grande, tem demandas diferentes. Além disso, a maior parte das empresas chinesas não tem muito conhecimento do mercado brasileiro, não sabe as demandas mais concretas, então é preciso investir em pesquisas para entender melhor isso.”
Ao longo dos anos, Camila Ghattas diz que foi mapeando essas dificuldades e que costuma apresentar uma matriz com os diferentes desafios para os clientes brasileiros que a procuram. Ela destaca como exemplo as diferenças culturais, especialmente em relação às leis trabalhistas.
Segundo ela, enquanto o Brasil está prestes a aprovar uma proposta para acabar com a escala 6×1, os chineses ainda adotam a métrica “996”, que consiste trabalhar das 9h da manhã até as 9h da noite, seis dias por semana.
“É uma cultura que é muito orientada ao trabalho. O trabalho faz parte de quem eles são. Porque o trabalho dá condições de as pessoas mudarem de vida. E esse discurso, ele acontece na prática, não é uma promessa vazia”, aponta.
Além disso, a CEO da Foreseekers corrobora o que os empresários chineses relataram ao Valor: as incertezas em relação à legislação têm um grande impacto e fazem com que o Brasil seja visto com desconfiança. “Há várias incertezas em relação à legislação. Taxa das blusinhas vai, taxa das blusinhas vem, taxa das blusinhas sobe, taxas da blusinhas desaparece. Então é muito difícil você conseguir manter um plano de negócio com essa incerteza legislativa”, diz.
Segundo ela, é complicado para um empresário chinês decidir investir em infraestrutura e, em pouco tempo, se deparar com uma mudança na legislação, só porque o político da ocasião decidiu assim. “Essas questões legislativas do Brasil trazem essa questão da desconfiança. E isso é um grande problema para o investidor, que toda hora tem que mudar a estratégia.”
Por outro lado, Ghattas aponta que, nos últimos anos, um fenômeno tem ocorrido: os brasileiros começaram a conhecer marcas chinesas, mudança que ela atribui especialmente à popularização dos carros elétricos no país.
Ela lembra que, no passado, era comum você se referir a produtos chineses como “xing ling”, um termo pejorativo que significa “zero estrela”. “A China ficou estigmatizada por essa má qualidade em relação à industrialização, o que hoje não é verdade. Quando você vê a qualidade de um carro elétrico no Brasil, isso começou a fazer com que o brasileiro mudasse a percepção sobre a qualidade dos produtos chineses. Até cinco anos atrás, ninguém sabia nem nomear uma marca chinesa.”
Para Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), não é só a questão tributária que assusta o investidor chinês, mas a legislação brasileira de uma forma geral.
“Os chineses ficam um pouco chocados com o excesso de burocracia no Brasil, para você abrir ou comprar uma empresa. Então esses são desafios que são inerentes da nossa cultura de negócios, da nossa burocracia. E que, no fundo, não é um problema só para o investidor chinês”, diz.
Apesar disso, Cariello aponta que, em grande medida, os empresários chineses têm superado esses obstáculos. “Eles sabem o que fazer, porque geralmente chegam aqui e já se associam a um escritório de advocacia, para tratar dessa questão tributária, por exemplo.”
De acordo com dados do CEBC, em 2025, os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos, registrando crescimento de 45% em valor em relação ao ano anterior. Além disso, nos últimos cinco anos, o Brasil tem se destacado entre os países que mais atraíram investimentos chineses no mundo.
Para Cariello, esse quadro indica a atratividade do mercado brasileiro, em um cenário mundial marcado por tensões geopolíticas, especialmente diante da atual postura dos Estados Unidos e dos conflitos no Oriente Médio.
“Nos últimos anos, a China começou a buscar investir no sul global de forma geral. E aí o Brasil aparece como um dos principais destinos por várias razões. A primeira delas é porque somos um país aberto ao investimento estrangeiro. A gente também tem um mercado consumidor relativamente grande. Além disso, tem a questão de a nossa matriz elétrica ser muito verde, em um momento que a China está buscando se descarbonizar”, explica Cariello.
Ele afirma ainda que o Brasil também atrai muitos investimentos porque tem recursos naturais, incluindo petróleo, que continua sendo um setor importante para os chineses. “Todas essas questões conjunturais colocam o Brasil bem posicionado. Além disso, é uma relação politicamente muito estável, com grandes complementaridades econômicas”, diz.
A repórter viajou a convite do China Media Group (CMG) e da Embaixada da China no Brasil
Fonte: Valor Econômico