/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/1/z/7FGF4iThywHP7paB3I9Q/foto15bra-101-iasaude-a8.jpg)
A inteligência artificial avança no dia a dia das pessoas e das empresas, mas também dentro de hospitais públicos e privados do Brasil. Ela já escuta conversas entre médico e paciente para construir prontuários, sugerir diagnósticos e identificar se o paciente pode ter piora clínica ou receber alta.
Segundo a pesquisa TIC Saúde 2025, a inteligência artificial é utilizada por 18% dos estabelecimentos de saúde do Brasil. Na edição anterior, o uso era de apenas 4%. As ferramentas mais adotadas foram modelos de linguagem generativa (76%), como o ChatGPT, além de mineração de texto e análise de linguagem (52%), automatização de processos de fluxo de trabalho (48%) e reconhecimento de fala (26%).
A pesquisa aponta que o maior uso ocorre em estabelecimentos com mais de 50 leitos de internação e naqueles que ofereciam Serviço de Apoio à Diagnose e Terapia (SADT), como radiologia e ultrassonografia. O resultado indica que o uso da IA está relacionado a ambientes com maior complexidade assistencial, ao volume de dados clínicos gerados e a locais com infraestrutura tecnológica mais avançada.
A percepção de que houve crescimento dos sistemas de IA em todas as fases da assistência à saúde, junto ao surgimento de questões éticas e legais, também levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a criar, em fevereiro, uma norma para regulamentar o uso da tecnologia entre médicos. Um projeto de lei que estabelece um marco regulatório para IA no Brasil continua em discussão na Câmara dos Deputados, após passar pelo Senado.
Segundo o professor Alexandro Chiavegatto, da Faculdade de Saúde Pública da USP, a inteligência artificial já é uma realidade na gestão hospitalar. Há também uso da tecnologia para reduzir burocracias e preenchimento de prontuários. O uso mais impactante ainda está em estágio inicial: apoio ao diagnóstico.
A empresa CTC Tech criou uma ferramenta de IA chamada Lya Health, que escuta e transcreve a conversa entre paciente e médico, organiza o prontuário e sugere perguntas e até possíveis diagnósticos. A decisão final continua sendo do profissional, que revisa e assina as informações. “A tecnologia jamais pode substituir o médico”, diz Valter Lima, CEO da empresa. Segundo ele, o sistema permite que o médico dê mais atenção ao paciente durante a consulta, além de melhorar a qualidade das informações registradas. Na Santa Casa de São Paulo, a ferramenta é usada no centro cirúrgico e ajuda a construir os resumos clínicos.
Lima diz que os dados de pacientes sempre foram sensíveis para o setor de saúde. No caso da ferramenta, eles não ficam armazenados no sistema da empresa, mas na infraestrutura do próprio hospital. Segundo ele, a conversa entre médico e paciente é apagada após a consulta, e a tecnologia não utiliza esse conteúdo para aprendizado.
A ferramenta da Munai se integra ao prontuário e organiza dados, gerando alertas sobre pacientes com possibilidade de alta ou piora clínica. Cabe ao médico a decisão final. Segundo o infectologista Hugo Morales, cofundador e diretor médico da empresa, a ferramenta torna o acesso à informação mais fácil para as equipes médicas e ajuda a reduzir situações mais graves na enfermaria, como paradas cardiorrespiratórias.
“Não damos diagnóstico, a ferramenta não afirma: ‘esse paciente tem pneumonia’. Não é isso. Ela indica: ‘esse paciente, com base nos 120 mil atendimentos analisados e de acordo com o protocolo do hospital, está em curva de piora, é preciso avaliá-lo’”, explica.
O governo federal anunciou a criação da Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, com investimento em IA, big data e outras tecnologias digitais. Entre os destaques, está o uso de IA para automatizar a triagem de pacientes e otimizar o agendamento de consultas no futuro hospital inteligente que será construído em São Paulo.
Segundo o conselheiro federal e coordenador da comissão de IA do CFM, Jeancarlo Cavalcante, uma resolução do órgão que normatiza o uso da tecnologia em todo o território nacional, busca dar maior segurança ao uso das ferramentas. A norma foi publicada em fevereiro para vigorar 180 dias depois.
“O profissional pode utilizar a inteligência artificial como ferramenta de apoio, mas a decisão clínica deve ser sempre do médico”, diz.
A resolução também estabelece que o paciente tem direito de ser informado sempre que a IA for utilizada e que o médico não pode ser responsabilizado indevidamente por falhas específicas dos sistemas de IA, desde que comprovado o uso crítico e ético da ferramenta.
Para o conselheiro, a norma não altera a rotina dos médicos, mas impacta as instituições de saúde, que também terão de criar uma comissão de IA e telemedicina. Cavalcante afirma que a norma será revista sempre que necessário.
Duas resoluções da Anvisa também regulamentam os softwares médicos, incluindo os que usam IA.
Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, diz que a saúde é citada pelo menos cinco vezes no texto do projeto de lei que trata de IA no Congresso. Tecnologias usadas para auxiliar diagnósticos, quando houver risco relevante à integridade física ou mental das pessoas, são enquadradas como de “alto risco”.
Zanatta explica ainda que o projeto prevê que empresas, profissionais e setores econômicos possam criar suas próprias regras para o uso da tecnologia. O texto também permite a criação de entidades sem fins lucrativos para definir padrões, trocar experiências e dialogar com o poder público, desde que respeitem as regras de concorrência.
Esses mecanismos devem se integrar ao Sistema Nacional de Regulação e Governança de IA (SIA), coordenado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
O relator do projeto, deputado federal Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), afirmou que vai retirar do texto os trechos que classificam os níveis de risco dos sistemas de IA, segundo informações do jornal O Globo. Para ele, essa responsabilidade deve caber às agências reguladoras.
Chiavegatto acredita que ainda não é o momento para uma regulação, mas que é necessário continuar fomentando o debate e observando os rumos da IA. Para Zanatta, regular não significa travar a inovação.
Chiavegatto considera que o primeiro obstáculo ao avanço da tecnologia na saúde é a aceitação por parte de profissionais e pacientes. Segundo o pesquisador, essa barreira vem sendo superada rapidamente, com o uso cada vez mais frequente de ferramentas digitais para tirar dúvidas e relembrar informações.
Outro desafio é o aprimoramento dos algoritmos, além da necessidade de ampliar a base de dados com informações de todo o país. Ele avalia que, quando o assunto é dados, o SUS sai na frente. Em contrapartida, hospitais privados investem mais. Mesmo assim, o avanço da tecnologia esbarra em uma dificuldade comum aos dois setores: a escassez de capital humano qualificado. “Para treinar o algoritmo, você precisa de profissionais capacitados e esse é o mesmo perfil demandado, por exemplo, pelo mercado financeiro.”
Morales avalia que o Brasil está um pouco atrás de grandes potências como China e Estados Unidos, mas que há espaço para desenvolver soluções voltadas a problemas específicos do sistema de saúde. “Temos excelentes desenvolvedores, e o custo de desenvolvimento aqui é menor do que nos Estados Unidos e na Europa”, afirma.
Para Lima, o Brasil não está atrasado no desenvolvimento de soluções com inteligência artificial na saúde, já que se trata de um campo recente. Ele também afirma que o país tem a oportunidade de ampliar o acesso à tecnologia por meio do SUS.
Fonte: Valor Econômico