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Encontrar a cura para uma doença pode levar anos de pesquisa, especialmente se for uma enfermidade rara. Mas e se esse prazo pudesse ser consideravelmente reduzido? É o que busca o Medulloblastoma Initiative (MBI), um consórcio que reúne laboratórios e instituições médicas de referência para descobrir a cura para o meduloblastoma (um tipo raro de câncer cerebral que acomete principalmente crianças) no prazo de dois anos a partir de meados de 2025, que foi quando começaram os testes clínicos. No modelo convencional, esse processo levaria de 7 a 15 anos.
Criado em 2021 pelo empresário gaúcho Fernando Goldsztein, o MBI é fruto de um drama pessoal. Em 2015, seu filho mais novo, Frederico, à época com 9 anos, recebeu o diagnóstico de meduloblastoma do tipo IV. Ele passou por uma cirurgia para retirada do tumor e dezenas de sessões de radio e quimioterapia em Boston, nos Estados Unidos.
Quatro anos depois, em 2019, veio a notícia de que o tumor de Frederico havia voltado. Nesses casos, as terapias existentes até o momento praticamente não têm eficácia. Segundo a American Cancer Society, o meduloblastoma recidiva em cerca de 30% das crianças, e, nesses casos, a taxa de sobrevida em cinco anos é próxima de zero em função da inexistência de tratamentos eficazes.
Foi nesse momento que Goldsztein começou a entender a realidade dos tratamentos para a doença, que até o momento seguiam protocolos estabelecidos havia mais de três décadas e sem avanços científicos ou inovações no radar.
“Ele [Fernando] me perguntou o que poderíamos fazer se tivéssemos recursos disponíveis”, conta o médico americano Roger Packer, responsável pelo tratamento de Frederico. Ele é vice-presidente sênior do Center for Neurosciences and Behavioral Medicine do Children’s National Hospital, em Washington, capital dos Estados Unidos, e referência mundial em neuro-oncologia pediátrica. “A minha promessa era que faríamos o que fosse cientificamente sólido, mas de um jeito um pouco menos convencional.”
A proposta do médico consistia em reunir diferentes instituições para trabalharem juntas em pesquisas focadas no meduloblastoma do tipo IV — algo que não vinha sendo feito até então. Para fazer parte do consórcio, a condição central era derrubar qualquer barreira ou competição, garantindo o compartilhamento imediato de dados e avanços entre os laboratórios envolvidos.
“A missão era chegar a uma nova terapia disponível para crianças em dois anos, o que é praticamente inédito, já que ir da descoberta à aplicação terapêutica em pessoas normalmente pode levar 15 anos”, afirma Packer. O modelo foi prontamente aceito por Goldsztein, que investiu recursos próprios para fundar o MBI.
Graduado em administração, ele fez carreira no segmento imobiliário com a construtora de sua família no Rio Grande do Sul. Em 2010, o negócio foi vendido para a Cyrela, uma das maiores construtoras do país, onde ele passou a integrar o conselho de administração.
A partir da fundação do MBI, a maior parte de seu tempo passou a ser dedicado a encontrar a cura para o câncer de seu filho e conhecer a história de outras famílias que enfrentam o mesmo problema. A experiência com Frederico escancarou para o executivo uma situação que até então ele desconhecia.
“Não há um olhar focado nas crianças. Nos Estados Unidos, de todo o montante disponível para pesquisa, apenas quatro centavos de [cada] dólar são direcionados para a pediatria”, diz.
Três anos depois, o instituto já conta com 16 laboratórios e instituições médicas de diversos países e arrecadou mais de US$ 11 milhões, sendo que a maior parte dos doadores é brasileira. Até o momento, foram dois ensaios clínicos aprovados pela FDA americana, a Anvisa dos EUA. O primeiro, já em fase de testes clínicos em pacientes para averiguar sua segurança e eficácia, é uma imunoterapia inédita.
Diferentemente das terapias tradicionais, que podem afetar também células saudáveis, essa abordagem busca treinar o sistema imunológico do próprio paciente para reconhecer e combater exclusivamente as células tumorais. Pesquisadores comparam essa estratégia a um “míssil teleguiado”, capaz de atacar o câncer com maior precisão e reduzir efeitos colaterais.
Outro tratamento aprovado envolve as vacinas oncológicas de RNA, molécula responsável pela síntese de proteínas. Enquanto as vacinas tradicionais são desenvolvidas para prevenir infecções causadas por vírus comuns a toda a população, as vacinas contra o câncer são formuladas de maneira personalizada, a partir das características do tumor já existente em cada paciente. O objetivo é estimular uma resposta imunológica específica e duradoura contra as células malignas, ajudando o corpo a eliminá-las e a impedir que a doença volte a se manifestar.
Um terceiro estudo, ainda pendente da aprovação pela FDA, envolve uma tecnologia conhecida como CAR-T. Nesse tipo de tratamento, cientistas modificam geneticamente as células T do paciente, responsáveis pela defesa do organismo, para atacar células cancerígenas. A técnica já se mostrou altamente eficaz em tumores hematológicos, como leucemias e linfomas, e é considerada um dos principais avanços da oncologia de precisão. A expectativa, segundo Packer, é que esse tratamento seja liberado para testes clínicos em março.
Neste momento Frederico não tem sinal de tumor ativo, por esse motivo ele ainda não se beneficiou dos avanços nas pesquisas. Mas é sabido que o câncer pode voltar a qualquer momento, por isso a urgência do MBI em ter um tratamento eficaz o quanto antes.
Atualmente ele mora no Brasil e vai aos EUA periodicamente para fazer exames de acompanhamento. Aos 19 anos, o jovem tenta levar uma vida o mais normal possível, faz cursinho pré-vestibular, planeja estudar geografia na faculdade e cultiva a fotografia como hobby.
Além das pesquisas, outro compromisso do MBI é fazer com que essas descobertas não fiquem restritas aos países desenvolvidos. No início de novembro, o instituto assinou um memorando de entendimentos com o Hospital Israelita Albert Einstein, a primeira colaboração formal da instituição com uma organização brasileira.
O acordo prevê colaboração científica, compartilhamento de conhecimento e participação prioritária em futuros ensaios clínicos desenvolvidos pelo consórcio. “A depender dos resultados, nosso desejo é que o Brasil seja o primeiro país a se beneficiar dos trials [testes]. Mas isso é uma intenção, porque dependemos de terceiros”, afirma Goldsztein.
Para Packer, que acompanha pesquisas nesse segmento há mais de 40 anos, a experiência com o MBI tem representado não só uma oportunidade profissional como uma mudança pessoal. Ele, que por muito tempo se considerou alguém que via “o copo meio vazio”, diz que o progresso recente o tornou mais otimista. “Ao longo da última década fiz parte de coisas que nunca achei que veria na medicina”, diz.
Apesar de cauteloso, ele acredita que o MBI pode vir a se tornar uma referência para outros tratamentos. “O que estamos percebendo é que esse modelo funciona e que, em um futuro próximo, deve se tornar uma forma sustentável de levar novas terapias a crianças com outros tipos de tumores cerebrais.”
Fonte: Valor Econômico