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A questão da imigração emerge como um tema crucial entre os americanos nas eleições presidenciais deste ano, com potencial para influenciar de forma decisiva a escolha dos eleitores entre o presidente Joe Biden e o ex-presidente Donald Trump. Apesar da significativa contribuição dos imigrantes ao vigoroso crescimento econômico dos EUA nos últimos três anos, o tema vem gerando debates cada vez mais estridentes, alimentando a polarização na sociedade americana. É com esse pano de fundo que Biden e Trump se encontram nesta noite no primeiro debate da eleição presidencial de 2024.
“Há um número de pessoas que são simplesmente contra mais imigração, outras pessoas que sentem empatia pelos próprios migrantes, muitos dos quais estão escapando ou fugindo de circunstâncias muito difíceis, e depois há pessoas que sentem que seus salários e oportunidades de trabalho estão sendo prejudicados. Então, essa é uma questão polarizadora”, afirma Alexander Keyssar, professor de história e ciências políticas na Universidade de Harvard.
Para Anita Mignone, advogada especialista em imigração nos EUA, a questão está ainda mais em foco este ano pelo alto fluxo de deslocados na fronteira sul do país, com recorde de 300 mil pessoas cruzando a fronteira em dezembro de 2023, o que contribuiu para o sentimento anti-imigração.
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“Estados como o Texas começaram a prática de enviar os imigrantes por ônibus para cidades como Nova York, Chicago e Denver, o que tem causado problemas com o sistema hospitalar, de educação, e transporte”, afirma.
Após Biden assumir o cargo, em 2020, as travessias ilegais dispararam pela fronteira com o México e, em 2022, bateu seu recorde de 2,2 milhões de passagens ilegais. Esse aumento se explicou não só pelas mudanças políticas do governo democrata, mas também pelas mudanças nos padrões de migração globais e nas mudanças demográficas dos migrantes.
Em 2019, no ano mais movimentado na fronteira com o México sobre o governo Trump, cerca de 80% dos migrantes detidos pelos EUA eram do México, Guatemala e Honduras. Sob o governo Biden, esses três países representaram menos da metade de todas as travessias de fronteira, enquanto migrantes da Venezuela, Colômbia, Peru, Senegal e Mauritânia e outros países da África, Europa e Ásia, estão atravessando do México em números nunca vistos antes pelas autoridades americanas.
O desafio de processar, deter e potencialmente deportar imigrantes de uma ampla gama de nações tem sobrecarregado a administração Biden, que tem recorrido à liberação de migrantes nos EUA quando as instalações estão superlotadas e solicitações de proteção humanitária não podem ser resolvidas rapidamente.
“Os sentimentos podem ser mais fortes do lado daqueles que estão incomodados com a imigração, em vez das pessoas que querem acolher mais migrantes”, diz Keyssar. “Biden será o mais prejudicado nessa questão. É um problema que ele preferiria não ter no centro da campanha.”
“Isso é um fato-chave por que Trump fará o seu melhor para torná-la uma questão central, ele baseou sua campanha em 2016 nisso e não vejo motivo para que mude”, completa o professor.
A insatisfação dos eleitores com o fluxo de imigrantes ocorre apesar do papel fundamental que têm na economia americana, de fornecer a mão de obra necessária para preencher as vagas abertas pela forte atividade econômica. “Em 2021, os EUA tiveram uma crise de mão de obra em que os imigrantes tiveram um papel crucial na recuperação da economia americana”, afirma Mignone.
Graças ao crescimento impulsionado pela imigração, o desempenho econômico dos EUA tem superado o de outras economias desenvolvidas que não usam o fluxo migratório a seu favor. O Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO, na sigla em inglês) estima que altas taxas de imigração poderiam adicionar 0,2 ponto percentual ao crescimento anual médio do Produto Interno Bruto (PIB) do país ao longo dos próximos dez anos.
“Mesmo com a importância dos imigrantes em preencher vagas de emprego qualificadas e não qualificadas, no momento, com o mercado de trabalho se estabilizando, há um impacto negativo de cidades com suas infraestruturas hospitalares, educacionais, e de moradia sendo sobrecarregadas pela população de imigrantes cruzando pelo México em números recordes”, afirma Mignone.
Para os especialistas, os eleitores que já definiram seu candidato devem manter seu posicionamento até o final da eleição, independente dos próximos desdobramentos, mas a questão da imigração pode ser essencial para influenciar os indecisos ou independentes.
Nesse cenário, Biden se encontra em uma corda bamba para tentar satisfazer o eleitorado e melhorar sua posição nas pesquisas de intenção de voto. “Para apelar para o eleitor mais conservador, Biden colocará sua medida restritiva na fronteira em foco, mostrando atenção na parte mais restritiva da lei imigratória, área onde ele foi considerado fraco dentre os indecisos”, afirma a advogada.
Como exemplo dessas medidas, Biden anunciou em 5 de junho que iria suspender a tramitação habitual de pedidos de asilo na fronteira com o México. Nas três semanas após o início da ordem, as detenções por cruzamentos ilegais caíram para 40%, segundo dados divulgados ontem pelo Departamento de Segurança Nacional.
Por outro lado, Trump deve aproveitar que a campanha está ganhando intensidade para usar a retórica de “lei e ordem”, defender a implementação de segurança na fronteira e deportações em massa. ”Para seu eleitorado, e para parte do eleitorado preocupado com a economia, essa mensagem será forte”, diz a advogada.
Fonte: Valor Econômico

