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A meta atual de inflação, de 3%, é “exigentíssima” e “inimaginável”, disse na quarta-feira o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A afirmação foi feita em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação na Câmara. O ministro também disse que surgiram ruídos “patrocinados” na economia brasileira ao longo do último mês. Ele não detalhou quem estaria por trás desses ruídos, mas defendeu a continuação de um “diálogo profícuo” entre técnicos da pasta e do Banco Central (BC).
“Os núcleos estão rodando abaixo da meta, que é exigentíssima”, disse, referindo-se às medidas de inflação que excluem itens com preços mais voláteis. “Uma meta, para um país com as condições do Brasil, de 3% de inflação é um negócio inimaginável. Desde que o regime de metas foi instituído, quantas vezes o Brasil teve 3% de inflação? Quantos anos isso aconteceu nos 25 anos do regime de metas?”
A meta de 3% foi estabelecida pela primeira vez para este ano, ainda em 2021, já que o Conselho Monetário Nacional (CMN) precisa decidir sobre o tema com três anos de antecedência. No ano passado, o CMN, do qual Haddad faz parte, também optou por unanimidade pela manutenção da meta de 3% em 2026. De 1980 para cá, a inflação só terminou abaixo de 3% duas vezes: 1998 (1,65%) e 2017 (2,95%).
Na sequência, ele afirmou que tem “a impressão” de que existe “um fantasminha fazendo a cabeça das pessoas e prejudicando o nosso plano de desenvolvimento”.
“Não estou entendendo esse ruído todo que está acontecendo”, disse minutos depois. “Esse ruído não está fazendo bem para a economia brasileira e não tem amparo nos dados. Nós estamos gerando emprego com baixa inflação. O rendimento do trabalho aumentou no ano passado, mas não gerou inflação. Eu acredito piamente que, se continuar existindo um diálogo profícuo e respeitoso entre os técnicos do Tesouro e do Banco Central em proveito de uma agenda sustentável, todos vamos ganhar com isso.”
Segundo Haddad, esses ruídos surgiram “de um mês para cá”.
“Eles vão desaparecer porque são patrocinados, não são reais. Tem interesse por trás disso, e nós ficamos fingindo que não existe”, disse. Segundo Haddad, justamente o que o Ministério da Fazenda previa “está acontecendo do ponto de vista de crescimento, inflação, emprego, fiscal”.
Na área fiscal, o ministro afirmou que “temos um desafio em relação ao arcabouço, que são as vinculações” de despesas, como os pisos de gastos com educação e saúde e as despesas atreladas ao salário mínimo. Ele defendeu a adoção de “uma regra melhor” do que a atual “para que ela seja mais respeitada por todos os governos”.
“[Seria] um pacto em torno de educação, saúde e salário mínimo que seja sustentável no longo prazo e não que dure em um governo progressista para ser desfeito em um governo conservador”, disse.
Haddad ainda afirmou que tem dormido “menos” desde as enchentes no Rio Grande do Sul, relatando que “o terceiro bimestre está me preocupando um pouco” por causa dos impactos econômicos e fiscais das enchentes. Mas disse que acredita que a recuperação econômica do Estado começará “neste ano e rapidamente”.
Ele disse ainda que as vinculações são um desafio para o arcabouço. “Nós sabemos que tem uma questão de médio prazo de como compatibilizar esses vários interesses legítimos”, disse. Segundo o ministro, a equipe econômica está estudando a melhor forma de estruturar isso. “Está no nosso radar.”
A audiência foi marcada ainda por alguns momentos de embates entre o ministro e os poucos congressistas da oposição presentes. O deputado Filipe Barros (PL-PR) apresentou, por exemplo, um gráfico com a trajetória do déficit primário acumulado em 12 meses do governo para afirmar que “as contas públicas estão completamente descontroladas”. Haddad rebateu, dizendo que os números apresentados levavam em conta a quitação, pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT, do “calote” de R$ 90 bilhões dado pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) no pagamento de precatórios.
Fonte: Valor Econômico


