Parece inegável que a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã produz ganhos concretos para o Kremlin. Como grande exportador de petróleo e gás, a Rússia tende a se beneficiar diretamente da alta dos preços de energia resultante do conflito e da interrupção do fluxo de petroleiros no Estreito de Hormuz.
Em um cenário de oferta global mais restrita, cada barril vendido gera receitas adicionais que ajudam a financiar a máquina de guerra russa na Ucrânia e a amortecer o impacto das sanções ocidentais.

A situação torna-se ainda mais favorável para Vladimir Putin diante das crescentes dificuldades energéticas na Europa. Com danos a instalações energéticas no Golfo e menos disponibilidade de gás natural liquefeito, especialmente do Catar, pode aumentar a pressão em alguns países europeus para reconsiderar a compra de energia russa, um ganho político para Moscou, que há anos aposta no desgaste da unidade europeia e na fadiga das sanções.
Diante do aumento dos preços de energia, os EUA recentemente flexibilizaram sanções ao petróleo da Rússia. Uma guerra prolongada no Oriente Médio também pode reduzir os estoques americanos de armas que países europeus adquirem para repassar às forças ucranianas.
No entanto, o impacto da guerra no Irã pode, de maneira inesperada, fortalecer também a posição da Ucrânia e possivelmente lhe trazer ganhos mais duradouros do que os benefícios obtidos pela Rússia.
O amplo uso de drones iranianos contra países do Golfo — os mesmos modelos que a Rússia utiliza há anos para atacar cidades e infraestrutura ucraniana — e as dificuldades desses países em se defender, apesar de contarem com tecnologia americana altamente sofisticada, despertaram o mundo para o fato de que estamos entrando na era da guerra por drones, e Forças Armadas do mundo inteiro deverão fazer grandes investimentos nessa área.
Para Kiev, trata-se de uma oportunidade estratégica. Poucos países no mundo acumularam tanta experiência prática no combate a esses sistemas quanto as Forças Armadas ucranianas. Além disso, os ucranianos desenvolveram uma produção local de drones de baixo custo. Essa expertise transforma a Ucrânia em um parceiro estratégico não apenas para o Ocidente, mas também para países do Golfo que agora enfrentam ameaças semelhantes.
O país pode ampliar sua influência diplomática ao compartilhar know-how em defesa aérea, guerra eletrônica e neutralização de drones, ao mesmo tempo em que fortalece parcerias com países que antes não tinham papel central na guerra contra a Rússia. Esse processo tende a consolidar a Ucrânia como um polo emergente de tecnologia militar, com potencial crescente de exportação e cooperação internacional.
Esse novo papel ficou simbolicamente claro quando o presidente Volodmyr Zelensky se tornou o primeiro líder ocidental a visitar o Golfo após o início da guerra com o Irã. A viagem sinalizou que a Ucrânia busca se posicionar não apenas como vítima da agressão russa, mas como fornecedora de conhecimento militar e tecnologia de defesa.
A experiência ucraniana torna-se, portanto, um ativo valioso no mercado global de segurança. Diante do baixo custo e da alta eficácia dos drones ucranianos, o governo da Ucrânia vê amplas oportunidades de cooperação com países do Sul Global, onde também há crescente demanda por integrar drones em suas estratégias de segurança nacional.
Esse desenvolvimento também altera a forma como a Europa enxerga a guerra. Cada vez mais, governos europeus percebem que a sobrevivência da Ucrânia não é apenas uma questão moral ou política, mas um imperativo estratégico. O conhecimento acumulado pelos ucranianos no campo de batalha pode ser essencial para a defesa europeia em um cenário de confronto futuro com a Rússia.
Enquanto especialistas militares alemães treinavam tropas ucranianas no início da invasão, o papel está se invertendo, com ucranianos treinando tropas alemãs. Em outras palavras, apoiar Kiev significa também investir na própria segurança do continente.
Além disso, os ganhos russos com o aumento dos preços de energia podem acabar sendo menores do que o esperado. Ao longo das últimas semanas, ataques de drones ucranianos, danos ao oleoduto Druzhba e a apreensão de navios-tanque interromperam cerca de 40% da capacidade de exportação de petróleo da Rússia, a maior disrupção do setor na história recente do país.
Com portos e rotas ocidentais sob pressão, Moscou é cada vez mais obrigada a redirecionar suas exportações para a Ásia, embora a capacidade dessas rotas seja limitada. Da mesma forma, se o conflito entre Estados Unidos e Irã se intensificar, o apoio de Moscou a Teerã, inclusive com o fornecimento de inteligência para ataques contra equipamentos militares americanos no Golfo, deve complicar as relações entre Washington e Moscou e abrir uma oportunidade estratégica adicional para Kiev preservar seu vínculo com os Estados Unidos.
Tudo isso evidencia que o destino da Ucrânia e da guerra no Oriente Médio tornam-se, mais do que nunca, parte da mesma equação geopolítica.
Fonte: Estadão