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Por décadas o condado de Chester, na Carolina do Sul, esteve em declínio, marcado por lojas vazias e fábricas têxteis abandonadas, depois que os produtores locais transferiram suas operações para a produção de menor custo no exterior.
Quando a Albemarle Corp, maior produtora mundial de lítio, anunciou no ano passado que iria construir na área uma das maiores refinarias dos EUA, investindo US$ 1,3 bilhão para atender o crescente mercado de veículos elétricos, a população local ficou esperançosa com uma revitalização.
“Com a chegada da nova indústria, essas construções na parte alta da cidade começaram a ser reformadas e utilizadas”, diz Marvin Waldrep,74, um ex-trabalhador da indústria têxtil. Ele notou a chegada de novas lojas especializadas, como uma sorveteria. “A cidade, quase fantasma, passou a ser vibrante novamente.”
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O projeto da Albemarle é um de centenas anunciados em todo o país depois da reformulação radical das políticas industriais dos EUA sob o presidente Joe Biden, por meio das novas leis aprovadas em agosto de 2022.
A Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês) e a Lei dos Chips e da Ciência oferecem, juntas, mais de US$ 400 bilhões em créditos fiscais, subsídios e empréstimos para revitalizar os centros industriais do país e rivalizar com a China nas tecnologias necessárias para promover as mudanças climáticas e eletrificar a maior economia do mundo.
As duas leis catalisaram o investimento em manufatura, estimulando uma disputa acirrada entre os estados para atrair corporações ansiosas para construir fábricas e aproveitar o apoio federal, muitas vezes ilimitado. Dados do Censo dos EUA mostram que os gastos com construção industrial encontram-se em níveis recordes e o “Financial Times” estima que os compromissos de manufatura em grande escala superaram US$ 225 bilhões no primeiro ano.
Mas à medida que o aniversário de dois anos das leis se aproxima, muitas dessas fábricas enfrentam obstáculos ligados à deterioração das condições de mercado, excesso de produção na China e uma incerteza política em um ano eleitoral de alto risco.
Dez meses após o anúncio feito em Chester, a Albemarle interrompeu as obras do projeto depois de um colapso global no preço de lítio e da desaceleração da demanda por veículos elétricos. Não há data para a retomada das obras e o local continua sendo um terreno vazio.
A Albemarle não está sozinha. Uma investigação do “Financial Times” revelou que 40% dos investimentos em manufatura de pelo menos US$ 100 milhões anunciados no primeiro ano depois da aprovação das duas leis enfrentam atrasos ou foram interrompidos por tempo indefinido. Dos 114 grandes projetos monitorados pelo “Financial Times” no valor combinado de US$ 227,9 bilhões, cerca de US$ 84 bilhões estão atrasados.
Os contratempos levantam dúvidas sobre se a revitalização do setor industrial dos EUA iniciada por Biden poderá ser entregue conforme prometido. Eles também ressaltam o quanto será difícil, prática e politicamente, reconfigurar a economia dos EUA para ela competir nos setores que deverão dominar o século 21.
A questão agora é se esses atrasos são simplesmente um soluço esperado em uma recalibragem tão ampla da política industrial, ou se eles são evidências de que o processo levará mais tempo que o previsto para se concretizar, colocando seu sucesso em risco ao longo de muitos ciclos econômicos e políticos.
“O tempo mata negócios”, diz Lauren Berry, gerente sênior da Maxis Advisors, que ajuda empresas a encontrar locais para suas operações. “Quanto mais tempo um projeto for engavetado, mais difícil será retomá-lo.”
Os EUA já foram a maior potência industrial do mundo, produzindo mais aço, automóveis e bens de consumo do que qualquer outra nação. O emprego no setor atingiu o pico de 19,55 milhões de pessoas em 1979, quando os postos na manufatura representavam um em cada cinco trabalhadores americanos.
Décadas de terceirização para economias de custos mais baixos, no entanto, custaram milhões de empregos, especialmente em estados do “Cinturão da Ferrugem” como Illinois, Indiana, Michigan, Missouri, Nova York, Ohio, Pensilvânia, Virgínia Ocidental e Wisconsin.
Em maio, havia 12,96 milhões de pessoas trabalhando no setor industrial, menos de 10% da força de trabalho dos EUA e ligeiramente acima dos 12,81 milhões registrados em 2019, segundo o Bureau of Labor Statistics.
A China ultrapassou os EUA como maior fabricante do mundo em 2010, e também se tornou o maior produtor de semicondutores e tecnologia de energias limpas do mundo.
Quando chegou ao poder, Biden prometeu revitalizar o setor e competir com a China em tecnologias avançadas. “Onde está escrito que os EUA não podem liderar o mundo mais uma vez na indústria? Eu não sei onde isso está escrito, e estamos provando que ela pode”, disse ele em dezembro de 2022.
O governo Biden descreve seu modelo para a transformação industrial dos EUA como “habilitado pelo governo, liderado pelo setor privado”.
Embora os incentivos da IRA e da Lei dos Chips funcionem para direcionar os investimentos para setores específicos, geralmente as empresas não conseguem acessar os financiamentos até atingirem certos feitos de produção. Muitas precisam garantir seus próprios financiamentos por meio dos mercados de capitais tradicionais e enfrentar obstáculos estruturais como a lentidão na obtenção de licenças e um mercado de trabalho restrito.
“É basicamente alcançar uma forma de planejamento econômico, mas fazer isso através do código tributário e deixar o setor privado decidir”, diz Todd Tucker, diretor de política industrial e comércio do Roosevelt Institute. “Você ainda tem que lidar com o capitalismo e ainda precisa tratar com a democracia.”
Um cenário macroeconômico difícil com juros e inflação altos, combinado com o colapso na formação global de preços para essas tecnologias específicas, abalou o interesse dos investidores em apoiar projetos industriais, mesmo com a certeza de longo prazo e os incentivos oferecidos pelas duas leis. A IRA oferece uma janela de dez anos para créditos fiscais e a Lei dos Chips concede fundos generosos para os candidatos selecionados, além de créditos fiscais para projetos que começarem antes de 2027.
É “fenomenal” que o governo ofereça esses créditos, mas eles “chegam com atraso”, diz Deanna Ahmed, diretora de estratégia da fabricante de baterias Our Next Energy. “Definitivamente, precisamos fazer isso de forma muito mais rápida.”
Embora sua fábrica de US$ 1,6 bilhão em Michigan apoiada pela IRA esteja dentro do cronograma, a startup está enfrentando uma crise de caixa após uma rodada de financiamento fracassada no fim do ano passado, tendo já anunciado inúmeras demissões.
Os problemas não estão afetando apenas os fabricantes de baterias. Depois de receber US$ 162 milhões em um financiamento pela Lei dos Chips em janeiro, a fabricante de semicondutores Microchip anunciou este mês que iria dar uma pausa em suas expansões no Colorado e no Oregon, avaliadas em US$ 880 milhões e US$ 800 milhões, respectivamente, devido ao “cenário macroeconômico lento e o crescimento dos estoques”.
Às vezes a ameaça aos produtores nacionais são seus equivalentes mais estabelecidos – e mais competitivos – no exterior. Vários fabricantes de painéis solares atrasaram ou adiaram seus planos, pois um excesso de produtos feitos pela China derrubou os preços para níveis recordes e vem tornando o lado econômico dos projetos desfavorável, mesmo com os subsídios disponíveis pela IRA.
Em Inola, Oklahoma, uma comunidade pecuarista conhecida por seus campos de feno tem um terreno vago onde no ano passado a Enel, estatal italiana de serviços públicos, propôs construir uma fábrica de painéis solares de US$ 1 bilhão pela sua subsidiária 3Sun, com a criação de 1.000 empregos. A produção deve começar no final deste ano, mas a companhia ainda precisa garantir financiamentos e começar a construção.
“Estamos ansiosos para que eles tomem a iniciativa do que quer que eles vão fazer”, diz Scott Devers, prefeito de Inola, que acredita que são necessárias “todas as fontes de energia trabalhando juntas para fornecer o que o mundo precisa”.
Várias empresas estimam que a China produza mais do que o dobro da demanda global de painéis, o que pode levar as fábricas dos EUA correrem o risco de não serem competitivas quando a produção chegar.
Forrest Monroy, porta-voz da Maxeon, diz que o excesso teve um “efeito inibidor” sobre o ímpeto da produção no setor de energia solar. A companhia adiou em um ano seus planos de começar a produzir uma fábrica de painéis e células solares de US$ 1 bilhão no Novo México.
Os painéis produzidos no exterior são bem mais baratos que os nacionais. Os painéis de silício cristalino feitos nos EUA geram energia a um custo médio de 29,5 centavos de dólar por watt, segundo a BloombergNEF. Enquanto isso, um painel obtido no sudeste da Ásia pode custar menos de 16 centavos por watt, e na China o custo é de 10 centavos por watt.
Além de todos esses problemas, os fabricantes estão enfrentando um mercado de trabalho historicamente apertado e uma escassez de trabalhadores treinados. A Associated Builders and Contractors (ABC), grupo que defende os interesses do setor da construção, estima que os EUA precisam contratar mais meio milhão de trabalhadores além das contratações normais, para atender a demanda do setor. A consultoria McKinsey estima que o setor de semicondutores dos EUA poderá enfrentar uma escassez de 59 mil a 146 mil trabalhadores até 2029.
Os adiamentos de projetos mostram o quanto será difícil para os EUA repatriar indústrias estratégicas, segundo Anirban Basu, economista-chefe da ABC. “A repatriação é difícil para a América porque por décadas não treinamos técnicos qualificados.”
As incertezas com o futuro da IRA no âmbito político também paralisaram o progresso nos projetos. Embora a grande maioria dos dólares sob a IRA tenha fluído para distritos e estados controlados pelos republicanos, a IRA não teve o apoio republicano no Congresso e o ex-presidente Donald Trump prometeu em campanha que vai “acabar com ela”.
“Ninguém sabe o que vai acontecer [em novembro] e é muito arriscado começar as obras agora”, diz Martin Pochtaruk, presidente da Heliene, que está adiando seus planos de construção de novas linhas de fabricação de células solares para depois das eleições.
E os atrasos acrescentam ainda uma camada de risco político para o governo. A criação mais lenta de empregos no setor industrial torna mais difícil para a candidata democrata Kamala Harris, vender aos eleitores em novembro a agenda econômica do que seria seu governo. O apoio de Estados do Cinturão da Ferrugem, como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, será decisivo para garantir uma vitória.
Fonte: Valor Econômico


