A crise atual poderia se tornar um ciclo virtuoso se o governo dissipasse as incertezas que ele mesmo criou, avaliaram gestores e economistas presentes nesta quarta-feira no congresso de investimentos da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Segundo o economista-chefe da AZ Quest, Alexandre Manoel, se o governo persistir na visão de que pode gastar sem pensar no amanhã e não reforçar a indicação de manter um corpo técnico autônomo na condução do Banco Central, “seria um suicídio econômico” para o governo Lula, que levaria fatalmente a uma derrota nas eleições em 2026.
Manoel, no entanto, afirmou enxergar um lado pragmático no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que na sua visão não deixaria a situação chegar a esse ponto. “Achamos que isso não vai acontecer, resta saber o quanto precisa piorar [para o presidente passar a sinalizar austeridade fiscal]”, acrescentou.
Para o gestor de renda variável da Perfin, Alexandre Sabanai, com sinalizações mínimas do governo, o mercado de ações pode viver um novo ciclo de expansão pelos próximos anos. Segundo o especialista, o presidente Lula precisa mostrar algum compromisso fiscal e com a manutenção da credibilidade do BC.
“O próximo banqueiro central só precisa saber conta de mais e menos para calcular o juro real e manter uma política monetária que traz credibilidade”, disse em alusão ao esforço para a reancoragem das expectativas de inflação. “Nossa situação de contorno é muito mais fácil em relação a outras crises, a gente está se afogando num copo d’água”, acrescentou. Para o gestor, “mantendo o BC com credibilidade na busca pela meta de inflação e mostrando um mínimo de disciplina fiscal, a gente entra num ciclo virtuoso muito grande [no mercado de ações].” Sabanai citou ainda como fator potencialmente impulsionador para a renda variável no Brasil se houver “um vento de cauda, com os juros americanos começando a cair”.
Na visão de Manoel, da AZ Quest, em um cenário mais extremo, a depreciação contínua dos preços dos ativos e a deterioração das condições financeiras poderia levar até mesmo a um cenário de crise de crédito.
O economista-chefe lembrou que após a reunião do Comitê d Política Monetária (Copom) na qual os quatro integrantes indicados pelo governo Lula votaram por um corte maior da Selic, de 0,50 ponto percentual, e os cinco apontados pelo governo anterior decidiram pela redução de 0,25 ponto, o mercado entendeu que “a partir de 2025 quem vai ser o presidente do BC será o Lula”. Por isso, a questão da credibilidade abalada da autoridade “só vai sumir quando o futuro presidente do BC for confirmado”. E teria de ser um nome visto como técnico e não político, caso do atual diretor de política monetária, Gabriel Galípolo, visto como o preferido pelo presidente Lula.
Outra questão importante é o governo acenar com um compromisso fiscal. “Aí vai ter de contingenciar algo como R$ 10 bilhões a R$ 20 bilhões e mostrar que não vai afrouxar o fiscal”, disse Manoel. Encaminhar uma reforma sobre despesas obrigatórias, com a desvinculação de benefícios do salário mínimo, também ajudaria, avalia.
Sem melhora do ambiente, o próximo movimento do BC deve ser uma alta de juros, afirmou o economista-chefe da XP, Fernando Genta. “Olhando para o que está acontecendo [incertezas no exterior e desequilíbrio fiscal no Brasil], é mais provável que o próximo movimento do BC seja de alta do que de corte [da Selic].”
Segundo o especialista, o gasto público “voltou a crescer como antes [durante o governo Dilma] e nesse primeiro ano de arcabouço vai crescer IPCA mais 6%”. Na visão de Genta, a política monetária, provavelmente, terá de “compensar” esse aumento das despesas. “Acho difícil mudar a regra do salário mínimo e desvincular os benefícios.”
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Fonte: Valor Econômico
