Em meio ao redesenho do segmento de administração de fortunas, com a taxação dos fundos exclusivos fechados ou restritos e a euforia em torno dos títulos de crédito privado isentos, a gestão independente de patrimônio cresceu apenas 2,45% em volume financeiro ao longo do primeiro semestre. É uma variação inferior ao CDI do período, de 5,22%, e o segundo pior desempenho semestral desde 2020, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Houve aceleração frente ao segundo semestre de 2023, quando o crescimento foi de 0,94%. Porém, o número de gestores pela primeira vez não aumentou e foi de 147 em dezembro para 146 agora.
O estoque de ativos em casas de gestão de riqueza fora dos bancos subiu a R$ 468,95 bilhões em junho de 2024, em ritmo menor que o segmento de private banking (investidores com mais de R$ 5 milhões), que cresceu 3,3% no primeiro semestre, para R$ 2,2 trilhões.
Gabriel Redivo, sócio e diretor de gestão da Aware Investments, diz que o início da cobrança de come-cotas semestrais nos fundos fechados exclusivos ou restritos está levando a uma realocação dos recursos, mas ainda em ritmo lento, já que muitos investimentos têm baixa liquidez. Por isso, ele acredita que mudanças mais significativas virão em 2025. “É um movimento que já está acontecendo, mas são estruturas grandes, que demandam tempo para serem repensadas.”
Com a grande demanda por títulos de crédito privado, sobretudo os isentos de Imposto de Renda, as carteiras administradas tiveram forte expansão: 5,56% no volume no semestre, para R$ 152,51 bilhões, em 29.091 instrumentos, uma alta de 13%. Os fundos se mantiveram fortes como veículos de gestão de patrimônio, com R$ 316,45 bilhões em 4.775 fundos em junho, um avanço de 13,8%. Richard Ziliotto, presidente da Comissão de Gestão de Patrimônio da Anbima, diz que os fundos são o veículo que dá maior liberdade na tomada de decisão em investimentos locais e internacionais.
“Já vimos migração para carteiras administradas, mas há perfis de clientes que vão continuar com o fundo exclusivo porque precisam da estrutura para o processo sucessório, por exemplo”, afirma Redivo, da Aware. Arthur Mello, sócio da Vita Investimentos, ressalta que o volume de investidores desfazendo seus fundos exclusivos foi menor do que se pensava. Ele diz que muitos apenas reduziram o patrimônio do fundo e o converteram em fundos de ações, por exemplo, que não têm incidência de come-cotas.
No cenário de Selic alta e com perspectivas de voltar a subir, a renda fixa foi destaque, com avanço de 9,5% para R$ 190,1 bilhões, e participação de 40,5% nas carteiras. Já os multimercados seguem encolhendo. A classe de híbridos, em que a Anbima inclui ETFs e fundos imobiliários (FIIs), caiu 9,15%, para R$ 105,2 bilhões. A fatia foi de 25,3% para 22,4%. No entanto, o volume em ETFs e FIIs cresceu no semestre (16,3% e 18,8%, respectivamente), o que significa que toda a perda foi concentrada em multimercados. Já a parcela em renda variável ficou praticamente estável e foi de 34% em dezembro, para 33,7% (R$ 157,8 bilhões). “É um segmento que carrega posições. São patrimônios consolidados, por isso alocação tende a ser diversificada e se movimenta pouco.”
Ele afirma que, com a isenção de IR, a tendência é que os títulos incentivados continuem a crescer, sobretudo se os juros voltarem a subir. Conforme os dados da Anbima, os fundos de renda fixa e os títulos públicos representaram 51,5% do crescimento da classe. E os títulos isentos (CRI, CRA, LCA, LCI, LIG e debêntures incentivadas) avançaram 13,5%.
Pedro Nunes, diretor de investimentos da Criteria, afirma que parte do dinheiro que estava em fundos exclusivos fechados foi para esses papéis diretamente ou para fundos voltados a eles, mas a forte redução nos últimos meses dos prêmios de risco pagos nas emissões levou a uma desaceleração na criação dessas aplicações. “Ainda há oportunidades, mas a temperatura caiu um pouco.”
Embora as debêntures incentivadas isoladamente respondam por 21,61% da carteira de isentos, somados os instrumentos com lastro imobiliário têm grande força, inclusive as LCIs, que foram alvo de mudanças do Conselho Monetário Nacional (CMN) e tiveram seu prazo mínimo aumentado de 90 dias para nove meses. O volume investido nesses papéis cresceu 23,9% no semestre e, em CRIs, 15,3%.
Ziliotto, que é sócio da gestora Galápagos, chama também a atenção para a expansão dos fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), de R$ 16,9 bilhões para R$ 19,7 bilhões (16,6%), que não sofrem desconto de come-cotas. “As mudanças regulatórias feitas pela Comissão de Valores Mobiliários destravaram a busca pelos FIDCs, que são um veículo importante e o terceiro que mais captou no semestre.”
Mello, da Vita, frisa que a casa cresce 40% no ano, principamente por meio de um agressivo programa de aquisições de participações minoritárias em outros escritórios, mas diz que o baixo crescimento do setor em geral no semestre pode ser um efeito da reação dos bancos, que vinham sistematicamente perdendo mercado para as assets independentes. Uma das medidas adotadas pelas instituições financeiras para segurar esses clientes de altíssima renda, comenta, foi adotar o modelo de remuneração fixa, já amplamente adotado pelos escritórios de administração de patrimônio, por significar maior alinhamento entre os interesses do cliente e da gestora e dar transparência à relação.
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Fonte: Valor Econômico