Um aumento brusco, maior que o esperado pelos investidores, nos gastos do governo com o objetivo de recuperar popularidade pode elevar o prêmio de risco fiscal no Brasil e pressionar o câmbio doméstico, segundo os economistas Gustavo Sung e Rafael Perez, da Suno Research. Por isso, eles dizem que o câmbio deve desempenhar papel relevante nas eleições deste ano.
“Uma eventual desvalorização da taxa de câmbio, decorrente do aumento do risco fiscal, pode gerar impactos inflacionários próximos ao período eleitoral. Considerando que devemos ter uma eleição bastante polarizada, a questão do custo de vida tende a ganhar ainda mais relevância”, afirma Rafael Perez.
Por enquanto, Gustavo Sung destaca que, no curto prazo, o real ainda encontra suporte em fatores como o diferencial de juros elevado, os preços favoráveis do petróleo e o fluxo estrangeiro positivo para a bolsa brasileira. Porém, as incertezas no campo fiscal, especialmente relacionadas às diretrizes econômicas dos candidatos, tendem a se intensificar ao longo do tempo. “Esse ambiente pode levar a depreciação da taxa de câmbio, com o dólar se aproximando de R$ 5,65 entre o final do terceiro e o quarto trimestre”, afirma.
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Os economistas avaliam que o atual governo tem chances de reeleição, sobretudo por contar com a máquina pública e por conta da implementação de medidas voltadas ao aumento de popularidade ao longo do ano.
Diferentes leituras foram feitas pelos profissionais para a possível reação do câmbio em três cenários: “Se o governo atual vencer, vai ficar muita incerteza no radar, sobre quem vai ser a equipe econômica e quais serão as políticas a serem adotadas. Poderemos ter um ‘overshooting’ [desvalorização forte] do câmbio semelhante ao visto em 2024”, afirma Perez, apontando que os agentes poderiam se frustrar em torno do ambiente fiscal, como ocorreu no fim de 2024 com os anúncios das medidas de cortes de gastos pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Já Sung afirma que, caso vença a oposição, outros dois cenários poderiam se formar: “se tivermos um presidente mais fiscalista, o dólar pode ir de forma mais sustentável a R$ 5,20, enquanto um presidente fiscalista e reformista poderia levar a moeda americana para níveis mais perto de R$ 5,00”, diz.
Mas é preciso que quem entrar indique claramente o que vai fazer, ainda segundo Sung. “É mais fácil alterar as regras fiscais que temos hoje do que mudar tudo novamente, então teremos que discutir a desvinculação [de pisos constitucionais] e a desindexação [de benefícios ao salário mínimo]”, diz. “Se não estiver isso presente nos planos, na questão do ajuste fiscal, vai empobrecer o debate. O mercado espera esse tipo de política, se não tiver no rol, o câmbio vai piorar.”
No caso do cenário externo, Sung afirma que, depois dos recentes eventos, a perspectiva é que os conflitos geopolíticos comecem a perder força e se encerrem ainda no segundo trimestre. “Ainda é difícil dizer o que vai ser mais relevante por conta da incerteza global. Se tudo caminhar como indicado, questões locais tendem a pesar mais no segundo semestre.”
Fonte: Valor Econômico