Os investidores de firmas ocidentais de biotecnologia deparam-se com a perspectiva de obter avaliações mais baixas para suas participações porque as startups chinesas rivais vêm atraindo cada vez mais dinheiro dos laboratórios farmacêuticos internacionais que buscam reforçar suas carteiras de lançamentos.
A China emergiu nos últimos anos como um polo de desenvolvimento de medicamentos, em particular de produtos em fase inicial, ao possibilitar cronogramas mais rápidos que permitem às empresas chegar à “prova de conceito” antes das rivais ocidentais.
Como as firmas chinesas de biotecnologia conseguem realizar ensaios clínicos de forma mais rápida e barata, as concorrentes de outras regiões correm o risco de ficar “enfraquecidas nas discussões de licenciamento ou parcerias”, disse Oliver Kenyon, diretor sênior da RTW, uma gestora de investimentos especializada em ciências da vida que tem ações negociadas em Londres.
Isso vale ainda mais em “áreas terapêuticas muito concorridas”, acrescentou Kenyon, observando que a tendência “poderia comprimir os retornos de longo prazo” dos investidores.
“A biotecnologia chinesa representa claramente uma mudança estrutural no desenvolvimento global de medicamentos”, disse Kenyon. “Não achamos que seja um fenômeno cíclico eles vieram para ficar.”
Historicamente, a China ficou conhecida por sua capacidade de replicar com rapidez novos medicamentos desenvolvidos em outros países.
Embora essa ainda seja o caso, agora as firmas chinesas também passaram a desenvolver novas terapias. Elas vêm assumindo a dianteira, por exemplo, em “conjugados anticorpo-fármaco” (CAF), que usam anticorpos para realizar quimioterapias de forma muito mais direcionada.
Mais da metade dos novos medicamentos CAF em ensaios clínicos iniciais no mundo é de empresas chinesas, segundo a firma consultoria McKinsey. Elas também vêm mostrando grandes avanços no desenvolvimento de terapias de RNA interferente pequeno (siRNA, na sigla em inglês), que podem “desligar” temporariamente genes prejudiciais, e da nova geração de tratamentos contra doenças autoimunes, conhecidos como Car-T.
De acordo com Zavain Dar, fundador do fundo nova-iorquino de investimentos em ciências da vida Dimension, o Ocidente vem perdendo sua tradição de ter os “inventores e os cowboys”.
“Até que nós, no Ocidente, voltemos a reconquistar o conforto e a confiança para desbravar as fronteiras da biologia, da química e da ciência, estaremos correndo atrás da mesma biologia conhecida e comoditizada contra concorrentes mais baratos e rápidos.”
Por sua vez, a multinacionais vêm se mexendo para colher as vantagens do ambiente operacional diferenciado da China. Nos últimos 12 meses, foram assinados mais de US$ 85 bilhões em acordos de licenciamento envolvendo empresas chinesas, em mais de 100 transações. A maioria se refere a medicamentos em estágio inicial, nos quais as empresas estrangeiras ganham os direitos para fazer ensaios adicionais e a comercialização fora do país.
Um dos maiores acordos é a parceria de até US$ 12 bilhões entre a GSK e a Jiangsu Hengrui para um possível tratamento contra a doença pulmonar obstrutiva crônica e outros 11 novos medicamentos. Em setembro, a Novartis anunciou um acordo de licenciamento de US$ 5,2 bilhões com a firma de biotecnologia chinesa Argo, em parte para ter acesso à sua tecnologia de siRNA.
Daniel Lyons, gestor do portfólio de saúde e biotecnologia da gestora de recursos Janus Henderson, disse que uma forma de as empresas ocidentais conseguirem competir melhor seria “desenvolver seus produtos para múltiplas indicações e entrar em ensaios clínicos com a melhor versão possível do produto”.
“O objetivo”, disse Lyons, “é evitar entrar em ensaios com algo que possa ser facilmente melhorado depois”. Caso contrário, acrescentou, há o risco de dar aos concorrentes chineses a oportunidade de avançar a partir do trabalho feito por eles.
De acordo com Michael Patten, diretor de estratégia da Harbour BioMed, uma firma de biotecnologia internacional com raízes chinesas que tem parceria com a AstraZeneca, ninguém está surpreso com a ascensão das firmas de biotecnologia chinesas, porque a “melhoria e a qualidade do ecossistema chinês são imensas”.
Patten, que ingressou na Harbour BioMed em 2025, não considera a competição entre firmas de biotecnologia chinesas e suas equivalentes ocidentais como um jogo de soma zero.
“Se você é um paciente em busca de terapias inovadoras, você não liga de onde o medicamento vem”, disse Patten. “Mas se você é um investidor com algum interesse envolvido, talvez veja ameaças. É um debate saudável que precisa ser feito sobre a mudança das dinâmicas do setor de biotecnologia.”
As firmas chinesas ganharam vantagem ao possibilitar prazos mais curtos nos ensaios clínicos, também usufruindo de mudanças na regulamentação que tornaram os processos mais rápidos.
De acordo com Steve Ruston, executivo-chefe da Persica, uma firma de biotecnologia do Reino Unido que desenvolve tratamentos para dor lombar crônica, a experiência de sua empresa no trabalho com hospitais e no recrutamento de pacientes na Europa para ensaios clínicos foi um “pesadelo”. Os contratos chegavam a levar muitos meses para ser assinados.
“Se você quer criar novos medicamentos, todo o processo de contratação e tomada de decisão precisa ser revisto”, disse Ruston, acrescentando que isso vale para hospitais no Reino Unido, França e Espanha. “Se a China consegue fazer ensaios clínicos mais rápido, isso precisa ser motivo de atenção.”
Muitos investidores em firmas de biotecnologia chinesas disseram ter sido procurados por empresas dos Estados Unidos e do Reino Unido para realizar ensaios clínicos na China, com a ideia de competir contra as “biotechs” chinesas rivais explorando o próprio sistema delas, de rápido de desenvolvimento de medicamentos.
Kenyon fez uma ressalva sobre a ascensão da China no setor farmacêutico. Observa que, embora o país venha ganhando terreno rápido em ativos em estágio inicial, os EUA “continuam sendo o único jogo na cidade” para medicamentos em fases mais avançadas de ensaio que chegam ao mercado. O ecossistema do Ocidente, de capital de investimentos de risco, de mercados de capitais profundos, de experiência regulatória e de canais de comercialização, disse Kenyon, ainda é o melhor disponível.
Empresas americanas também poderiam se beneficiar do que o governo Trump chama de políticas “Estados Unidos em Primeiro Lugar”, inclusive na pesquisa e desenvolvimento de medicamentos. O chefe da Agência de Remédios e Alimentos (FDA) dos EUA, Marty Makary, já disse em outras ocasiões não confiar nos resultados de ensaios em grande escala de Fase 3 realizados na China.
Lyons, da Janus Henderson, no entanto, alerta para o erro que Ocidente estaria cometendo se excluísse a inovação chinesa. Em vez disso, defende reformas.
“Acredito que os EUA e a Europa deveriam se concentrar em acelerar os caminhos de desenvolvimento e simplificar os processos regulatórios para ajudar terapias promissoras a chegar mais rápido aos pacientes.”
(Colaborou Eleanor Olcott)
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Fonte: Valor Econômico