Muitas questões se concentraram em torno da maneira como o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, expressaria seus muito aguardados comentários em Jackson Hole, entre eles os que dizem respeito ao equilíbrio entre tática e estratégia. No evento, Powell optou por um foco duplo naquilo que será encarado como seu segundo discurso mais marcante — o primeiro foi a fala de oito minutos em 2022, que enfatizou o “sofrimento” que estava por vir.
Primeiro, ele formalizou a opinião aceita de forma generalizada de que “chegou a hora de ajustar a política” e de que “a direção da viagem é clara”. Em segundo lugar, ofereceu uma avaliação histórica sobre o episódio de inflação de 2021 a 2024, que hoje significa que ele ficou mais “confiante de que a inflação está em um rumo sustentável para voltar à meta de 2%”.
Esse enfoque permite que o Fed mantenha um volume considerável de opções táticas e estratégicas. Em particular, o discurso bem escrito para Jackson Hole resistiu ao desejo de muitos de que Powell se guiasse pelo tamanho do corte das taxas de juro em setembro e, mais importante, o destino dessas taxas. No entanto, ironicamente, a reação imediata do mercado foi insistir ainda mais na noção de cortes agressivos nas taxas de juros para um Fed que ainda é visto como um banco central de mandato único, mas com a qualificação crucial de que agora seu foco está mais em evitar um desemprego maior do que em baixar a inflação.
Powell foi claro sobre por que chegou o momento de uma virada na política, ao observar que “o mercado de trabalho esfriou de maneira considerável”. Como resultado, o equilíbrio de risco hoje vê uma ameaça menor de que a inflação fique mais alta e “um aumento nos riscos de impacto negativo para o emprego”. Ele enfatizou ainda que o Fed “não busca nem recebe bem mais esfriamento nas condições do mercado de trabalho”, para dissipar quaisquer dúvidas que restem. Palavras fortes para um banco central que, compreensivelmente, é cauteloso para declarar que a missão está cumprida no que diz respeito à batalha contra uma alta da inflação que “trouxe dificuldades prolongadas, em especial para os que são menos capazes de arcar com os custos mais altos de itens de primeira necessidade, como alimentação, moradia e transporte”.
Sobre a inflação, Powell reconheceu que o Fed cometeu um erro em sua avaliação inicial (de 2021), de que a inflação mais alta seria temporária e reversível rapidamente. Ainda assim, o banco central estava longe de ser o único. Afinal, como o presidente do Fed aponta, “o bom navio transitório era um navio lotado, com a maioria dos analistas convencionais e dirigentes de bancos centrais de economias avançadas a bordo”.
Tão interessante quanto o que Powell disse é o que ele se absteve de falar e como os mercados reagiram apesar disso.
Muitos de nós esperávamos que ele fosse mais longe na busca de recuperar as narrativas política e econômica. Powell poderia ter feito isso ao ser mais claro a respeito de onde ele vê a nova taxa de juro neutra, do que será a jornada até essa taxa e do que significa na prática a meta de inflação de 2%, dada a posição da política fiscal e as condições do lado da oferta. Sem isso, tanto os mercados como a comunidade de analistas terão dificuldade em sair do modo “narrativa pingue-pongue” no qual, em menos de 30 dias, a visão de consenso mudou de um pouso suave para uma recessão, em que alguns até defenderam com veemência um corte emergencial no intervalo entre as reuniões do Fed, apenas para voltar a um pouso suave.
Embora eu suspeite que o Fed deseja consolidar a mudança de política de um mandato único (vencer a batalha contra a inflação) para um mandato duplo (estabilidade de preços e emprego máximo), não é aí que o mercado está. De fato, a reação imediata foi insistir ainda mais na avaliação de que o Fed cortaria as taxas em cerca de 100 pontos-base nos próximos quatro meses, com um aumento da probabilidade de um corte inicial de 50 pontos-base em setembro, que seria seguido por outros 100 pontos-base nos seis meses seguintes. Operadores têm dobrado a aposta em um Fed de mandato único, concentrado no emprego e muito disposto a implementar “cortes como medida de segurança” para reduzir de maneira concreta a probabilidade de uma recessão.
Logo antes de Jackson Hole, os mercados já operavam com base na noção de uma mudança de política que resultaria em cortes consideráveis nas taxas ao longo dos próximos 12 meses. Ironicamente, o discurso de Powell os encorajou a operarem ainda mais rápido e com mais confiança. Nesse processo, os mercados têm ignorado, pelo menos até o momento, suas importantes observações finais de que “os limites do nosso conhecimento… exigem humildade e um espírito questionador, focado em aprender lições do passado e em aplicá-las de maneira flexível aos nossos desafios atuais”. Em suma, eles criam o risco de mais volatilidade do mercado e da narrativa nos meses pela frente.
23/08/2024 21:02:34
Fonte: Valor Econômico


