Às vezes, penso que o ChatGPT presta um desserviço ao campo mais amplo da inteligência artificial. Enquanto alucinações, conteúdo de baixa qualidade, fraudes em provas e redatores robôs dominam o discurso, outros usos da tecnologia estão revolucionando a ciência.
No ano passado, o Prêmio Nobel de Química foi concedido a Sir Demis Hassabis e John Jumper, do Google DeepMind, pelo trabalho pioneiro no formato de proteínas com o uso de IA. O AlphaFold promete acelerar enormemente a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos e já está sendo usado para combater cânceres e outras doenças.
Desde então, a OpenAI entrou na disputa, desenvolvendo uma versão pequena e especializada de seus grandes modelos de linguagem, voltada para a ciência da longevidade, com resultados iniciais promissores. Desenvolvimentos como esses, aliados à perspectiva de avanços ainda maiores no horizonte, levaram alguns a fazer afirmações ousadas sobre uma possível extensão radical da vida humana graças à IA.
Mas, ao analisar o estudo mais recente sobre as tendências globais de mortalidade do Institute for Health Metrics and Evaluation (Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde), tive outro pensamento: será que estamos subestimando o risco de a IA exercer não apenas uma pressão ascendente, mas também descendente sobre a expectativa de vida humana?
Uma das principais descobertas é que, embora as taxas de mortalidade continuem caindo entre os mais velhos, as mortes entre adultos jovens e de meia-idade têm aumentado em muitos países, principalmente nos EUA, no Canadá e no Reino Unido. Essa tendência está transformando o que seriam aumentos sólidos na expectativa de vida em uma estagnação.
Essa onda de mortalidade preocupante na meia-idade costuma ser atribuída às chamadas “mortes por desespero” – perdas prematuras de vida por suicídio, drogas ou álcool, que atingem pessoas em sofrimento intenso. Mas pesquisas mais recentes, que acompanharam milhares de adultos nos EUA ao longo de várias décadas, mostraram que essa classificação como “desespero” não é totalmente precisa. O que caracteriza aqueles que sucumbem a comportamentos autodestrutivos não é a angústia psicológica ou a dificuldade financeira – é, mais especificamente, o desemprego de longo prazo e o isolamento social.
Minha análise da mortalidade de meia-idade em ambos os lados do Atlântico confirma que uma narrativa igualmente simplista de “é apenas por causa das drogas” explica apenas parte da história. As mortes por abuso de substâncias não aumentaram de forma uniforme em toda a população; elas afetam grupos específicos de pessoas que sofreram grandes choques negativos de emprego no início da vida. Isso é mais evidente na Escócia, onde a maioria das mortes por drogas e suicídio atinge a geração que cresceu em meio ao alto desemprego durante a rápida desindustrialização das décadas de 1970 e 1980.
Mas drogas e desestruturação econômica, por si só, não explicam tudo. Muitos países da Europa Ocidental onde há circulação de fentanil enfrentaram períodos de desemprego quase tão severos, sem as subsequentes ondas de mortalidade.
Dados separados revelam a peça final do quebra-cabeça: tanto jovens homens quanto pessoas desempregadas relatam estar significativamente mais isolados socialmente nos países de língua inglesa, o que aumenta de forma marcante o risco de comportamentos autodestrutivos. Vários fatores nos países não anglófonos podem exercer um papel protetor, desde níveis mais altos de religiosidade e solidariedade social até fatores mais concretos, como lares multigeracionais coesos. Esses elementos podem permitir que outras populações suportem crises que fragilizam as sociedades anglófonas.
Essa combinação perigosa de desestruturação econômica e isolamento social nos traz de volta à IA. Se versões futuras dos atuais grandes modelos de linguagem vierem, um dia, a causar desemprego em larga escala, isso não será um pico passageiro. Significará a destruição duradoura de profissões e carreiras, deixando cicatrizes permanentes na geração afetada. Como o desemprego involuntário de longa duração (muito mais do que a dificuldade financeira) é o que causa o maior dano, mesmo uma renda básica universal substancial talvez não seja suficiente para substituir a perda de propósito, camaradagem e contato social que o trabalho pode oferecer.
Agrava essa situação o fato de que passar mais tempo conversando com grandes modelos de linguagem e menos com humanos pode levar a um isolamento ainda maior. Há indícios de que as plataformas digitais podem estar contribuindo para o aumento das taxas de rompimento de relacionamentos.
O resultado pode ser uma disputa sobre a expectativa de vida: saúde aprimorada pela IA para aqueles que chegam à velhice, e vulnerabilidade ampliada pela IA para os jovens e adultos de meia-idade. Seria prudente que formuladores de políticas e indivíduos se preparassem para se defender contra este último cenário.
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Fonte: Valor Econômico