Se alguém se perguntava se os mercados ainda estão na temporada de notícias bobas de verão, deixe-me resolver sua dúvida: sim, eles definitivamente estão. Agosto costuma ser um mês em que os mercados fazem movimentos estranhos, devido às mesas de negociação mais enxutas no verão do Hemisfério Norte, e 2024 é um exemplo especialmente bom.
Lembra do “carry trade” (operação em que o investidor toma emprestado em moeda de um país com juro baixo para investir em outro com taxas altas) do iene? Não, ninguém mais, mas apenas três semanas atrás ele foi um dos vários fatores citados para ajudar a entender uma onda de vendas do mercado de ações bastante feia e que foi revertida rapidamente. Os mercados de bônus e câmbio continuam a exagerar a escala provável da desaceleração econômica iminente dos EUA. Mas a prova real dos delírios fantasiosos do verão tem sua origem na magnitude do foco da semana passada sobre os resultados de uma empresa, a Nvidia.
A propaganda exagerada e o entusiasmo geral excessivo são algo bastante comum nos mercados, e a Nvidia é, no fim das contas, uma das empresas mais valiosas do planeta. Mas os momentos de perder o fôlego que antecederam a divulgação, na semana passada, dos resultados da fabricante de chips do Vale do Silício foram muito intensos, até mesmo para esses padrões.
Vários analistas compararam a importância desses resultados à divulgação dos dados econômicos mais impactantes dos EUA, como os de inflação ou das folhas de pagamento não agrícolas – os únicos relatórios de dados regulares capazes de levar gestores de fundos a remarcar um almoço. Os números da Nvidia são, como o Deutsche Bank apontou, “um evento macro importante por eles mesmos”, e estão lá no topo, ao lados dessas informações chave para a política monetária americana.
Isso é algo curioso, mas perfeitamente razoável, dado o enorme papel que a Nvidia tem no impulso das ações dos EUA e do mundo. Mas o verdadeiro excesso exposto por esse “evento macro” é o peso das expectativas dos investidores.
A Nvidia conseguiu mais do que dobrar suas receitas nos três meses encerrados no fim de julho, em comparação com o trimestre anterior, chegando a espantosos US$ 30 bilhões. A empresa informou que sua expectativa para o terceiro trimestre é que o resultado se amplie a US$ 32,5 bilhões.
E o que as ações fizeram? Elas caíram nas negociações do pós-mercado, é claro. Tiveram uma queda de cerca de 6%, em grande parte porque alguns investidores esperavam uma previsão um pouco maior para o terceiro trimestre. Analistas do UBS, entre outros, sugeriram que isso era bobagem. Para Timothy Arcuri, analista do banco, essa atitude “é… deixar de ver a floresta por causa das árvores” e um reflexo de “expectativas um tanto quanto frívolas”. Ele aconselhou os clientes a comprar na baixa e deixou claro que ainda espera que as mesmas ações subam 20% daqui para a frente.
Isso é algo que sempre vale a pena lembrar sobre os mercados: eles dizem muito pouco sobre o que está acontecendo hoje e muito mais sobre o que os investidores acham que acontecerá amanhã. Neste caso, as expectativas são, de fato, muito grandes. A alta explosiva das ações da Nvidia – de cerca de 800% ou mais desde o início de 2023 – já é um reflexo do potencial da inteligência artificial (IA), que até o momento ainda não foi comprovado, em grande medida. A tarefa hoje para as empresas ligadas à IA é demonstrar que podem estar à altura de toda a propaganda. Nesta fase de “mostrar as evidências”, os mercados punirão qualquer pequena rachadura ou oscilação, mesmo que apenas de maneira breve.
Razões para acentuar o lado positivo se dividem em duas áreas. A primeira é que, finalmente, salvo algum tipo de desastre inflacionário, as taxas de juros estão a ponto de cair, como o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Jerome Powell, destacou recentemente no simpósio de política monetária de Jackson Hole.
Outra é que, deixando um pouco de lado a obsessão míope do mercado com a Nvidia, o mercado de ações dos EUA em geral está em boa forma. O banco francês Société Générale aponta que 80% das companhias americanas superaram as expectativas de ganhos por ação no trimestre e, o mais importante, a proporção de empresas que trazem surpresas positivas está em crescimento.
O analista do banco Manish Kabra disse que retirar do índice amplo S&P 500 as empresas do Nasdaq 100, que se concentra em tecnologia, traz notícias encorajadoras. O crescimento dos lucros das empresas não tecnológicas tem ultrapassado o das companhias do reluzente setor de tecnologia que ganharam tanta atenção ultimamente. “O maior tema que encontramos é o da rotação – a rotação do estreito ‘trade de bolha’ para um trade de maior amplitude deve continuar”, escreveu Kabra.
É impressionante que, apesar do golpe expressivo nas ações da Nvidia na semana passada, o S&P 500 continuou a subir. Talvez de agora em diante o foco intenso na empresa se dissipe ao menos um pouco.
Charlotte Daughtrey, especialista em investimentos na Federated Hermes, está entre os que esperam que uma fatia dos lucros conseguidos este ano com ações de tecnologia passe a ser direcionada para o resto do mercado. Ela observa que a diferença entre as avaliações das gigantes da tecnologia e as do resto do mercado, de mais de 25%, é anormalmente grande. Para Daughtrey, as “ações gigantes” de tecnologia podem ficar “vulneráveis” pelo resto do ano, enquanto as ações de pequena e média capitalização podem finalmente encontrar seu momento ao sol.
Essa dinâmica saudável não tem os fogos de artifício da recuperação espetacular das ações ligadas à IA. Sejamos honestos, ela é bem chata. Mas ganhos de mercado de base ampla e um Fed que está prestes a começar a cortar os juros são notícias inequivocamente positivas para investidores do mercado de ações. Ignore os obcecados por tecnologia de curto prazo – eles são uma turma dura demais.
Fonte: Valor Econômico