A farmacêutica Novo Nordisk, fabricante das canetas emagrecedoras Ozempic e Wegovy, lança nesta quarta-feira (4), com o Ministério da Saúde, um projeto piloto para levar seu tratamento de obesidade à base de semaglutida ao Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa quer atender pelo menos mil pacientes em três unidades de saúde no Brasil e mostrar que a adoção traz benefícios de longo prazo para a saúde pública e para a economia da saúde, afirma a dinamarquesa.
“A ideia aqui não é, inicialmente, atingir muitas pessoas, mas ter o que chamamos de prova de conceito, para demonstrar que funciona, e então poder expandir a partir daí. É um projeto de dois anos, e começaremos o mais rápido possível”, disse, em entrevista ao Valor, Emil Larsen, vice-presidente executivo de operações internacionais da Novo Nordisk.
O piloto faz parte de programa global da fabricante, que inclui iniciativas semelhantes na Dinamarca e na Austrália, e usará no Brasil a caneta Wegovy, aprovada pela Anvisa, a agência reguladora brasileira, especificamente para o tratamento de sobrepeso e obesidade – o Ozempic é indicado originalmente para o tratamento de adultos com diabetes tipo 2 não controlado.
A Poviztra, versão local da caneta para obesidade produzida pela Novo Nordisk e comercializada pela Eurofarma, em parceria anunciada no ano passado, também poderá ser considerada no processo.
Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 60% da população brasileira tinha excesso de peso em 2024. A estimativa do Atlas Mundial da Obesidade, com base em dados de 2021, é a de que 60,9 mil mortes prematuras no Brasil podem ser atribuídas a doenças crônicas não transmissíveis associadas ao sobrepeso ou obesidade.
“Cada ponto percentual que conseguirmos reduzir no nível de IMC [Índice de Massa Corporal] da população ajuda a prevenir, por exemplo, mortes prematuras e muitas comorbidades bastante desagradáveis, que também são muito custosas de tratar”, disse Larsen.
As discussões para o desenvolvimento do piloto no país começaram há cerca de seis meses e as unidades públicas selecionadas são o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede), no Rio de Janeiro, do nível estadual de administração, e o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, do nível federal. A terceira unidade será do nível municipal de administração e ainda está em processo de definição.
A contrapartida da dinamarquesa na iniciativa será oferecer produtos com preço mais competitivo para as instituições públicas. A empresa não deu detalhes da precificação, mas disse que já aguarda as compras públicas dos medicamentos. Ela também irá investir no treinamento de profissionais de saúde e no monitoramento e gestão de dados do projeto, para comprovar a viabilidade e o impacto do tratamento na saúde pública.
“Esperamos que a falta de recursos não seja um motivo para não receber tratamento, porque, no longo prazo, o setor público também pode oferecer tratamento para a obesidade, assim como já aconteceu com a insulina para diabetes tipo 2, fornecidos gratuitamente no Brasil”, disse.
A ambição da companhia é a de mudar a curva da obesidade no país, conforme aumenta o uso da semaglutida. A empresa disse que já vê sinais disso em outros países que fazem o uso da classe de medicamentos, como os Estados Unidos, onde a penetração entre pessoas com obesidade e diabetes, segundo Larsen, já chega a 5%.
No ano passado, a estimativa é a de que cerca de 0,5% da população brasileira em idade ativa, de 15 a 64 anos, fizeram uso mensal e contínuo de medicamentos desse perfil de medicamento, incluído também a liraglutida, tirzepatida e dulaglutida, segundo levantamento recente do Grupo FarmaBrasil, feito com base em dados do IQVIA.
“Em termos de atenção nas redes sociais, cobertura da mídia e debates, pela minha experiência, os GLP-1 já estão há bastante tempo em evidência no Brasil. Mas, quando olho para os números reais, para a quantidade de pacientes que estão sendo tratados, ela ainda é muito baixa”, disse o executivo da Novo Nordisk.
No caso da semaglutida, princípio ativo das canetas emagrecedoras da dinamarquesa, a patente deve cair neste mês no Brasil, após idas e vindas na justiça, que tentavam estendê-la. A queda tem aquecido o mercado de canetas emagrecedoras, que já contam com laboratórios nacionais concorrentes interessados na produção de versões genéricas ou biossimilares do medicamento da dinamarquesa.
Larsen disse que é provável que os genéricos da semaglutida entrem no mercado em algum momento deste ano. “Não sabemos se eles conseguirão garantir a qualidade, se terão capacidade de fornecimento, nem conhecemos a qualidade de seus dispositivos. E tudo isso não cabe a nós comentar”, disse, questionado sobre como vê a entrada de novos atores no negócio.
Pioneira dos medicamentos contra obesidade, a Novo Nordisk também tem enfrentado a concorrência da Eli Lilly, americana fabricante da Mounjaro, caneta emagrecedora lançada no Brasil no ano passado.
No quarto trimestre de 2025, o lucro líquido da Novo Nordisk caiu 4,7%, para 26,89 bilhões de coroas dinamarquesas (R$ 21,85 bilhões ao câmbio atual) e a receita, 7,6%, para 79,14 bilhões de coroas (R$ 64,32 bilhões). No contexto, a dinamarquesa anunciou no mês passado que a expectativa para 2026 é de queda de até 13% nas vendas líquidas e nos lucros.
A aposta para proteger sua fatia de mercado tem sido a de se diferenciar pelo “legado” de seus produtos originais e pela produção local, no caso do Brasil. Também tem adotado política de preços diferenciados para aqueles que aderem ao programa de descontos da companhia e ampliado o acesso a sua molécula por meio de segundas marcas.
Com a parceria com a Eurofarma, que incluiu, além da Poviztra, a Extensior, versão local da caneta para o tratamento de diabetes tipo 2, ela passou a contar com a brasileira para distribuir a molécula em regiões antes não atendidas, com preço “mais atrativo”, disse Larsen.
“Ainda é cedo para avaliar o desempenho [da parceria com a Eurofarma], porque estamos há pouco tempo nesse processo, mas temos observado bastante atividade e interesse até o momento”, completou o executivo.
No piloto que está sendo lançado no país para testar o tratamento a rede pública, a prioridade é atender pacientes com obesidade associada a outras condições de saúde, principalmente diabetes e doenças cardiovasculares.
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Fonte: Valor Econômico