O CEO da Organon & Co, Kevin Ali, renunciou após uma investigação interna do conselho identificar o que a fabricante de medicamentos chamou de práticas de vendas indevidas para impulsionar os resultados trimestrais nos últimos anos.
A Organon solicitou a distribuidores nos EUA que comprassem mais implantes anticoncepcionais Nexplanon do que precisavam no final de seis trimestres distintos, entre 2022, 2024 e 2025, incluindo os três trimestres mais recentes, segundo a investigação revelada em um comunicado à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos.
Em alguns casos, os distribuidores puderam receber taxas de incentivo que normalmente não receberiam, em troca de aceitarem as vendas do Nexplanon, concluiu a investigação. As vendas permitiram à Organon “cumprir projeções e/ou certas expectativas externas de receita”, dizia o comunicado.
“O conselho determinou que essas práticas de vendas aos distribuidores foram indevidas, e que certas declarações anteriores da empresa eram imprecisas ou incompletas”, afirmou o documento.
Ali concordou em abrir mão da indenização e dos benefícios de aposentadoria relacionados a ações como parte de sua renúncia, informou a Organon. Joseph Morrissey, atual chefe de manufatura e suprimentos da Organon, assumirá como CEO interino.
A empresa também informou que demitiu o chefe de assuntos comerciais e governamentais nos EUA. A Barron’s entrou em contato com Ali para comentar, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
As ações da Organon despencaram 22%, para US$ 7,15 nesta segunda-feira (27), caminhando para fechar no menor nível já registrado, segundo dados da Dow Jones Market Data. Os papéis acumulam queda de mais de 50% no ano.
Executivos de diversos setores enfrentam forte pressão para atender às expectativas de Wall Street, especialmente em uma era de avaliações vertiginosas. Mas a manobra com os distribuidores representou “uma quebra flagrante nos controles internos”, escreveu o analista da Piper Sandler David Amsellem, em nota de pesquisa nesta segunda-feira.
A firma rebaixou duplamente a Organon, de compra para venda, e reduziu sua meta de preço de US$ 18 para US$ 5. A Piper Sandler afirmou que a Organon tem um longo caminho para se recuperar — se conseguir.
“Esse é o tipo de má conduta que pode tornar uma empresa/ação não investível por um longo período”, escreveu Amsellem. “O processo de restaurar essa confiança será, compreensivelmente, longo e trabalhoso.”
A Organon enfatizou que as vendas indevidas representaram menos de 1% da receita total em 2022 e 2024, e menos de 2% em qualquer trimestre específico. Mas o impacto na receita não é tão significativo quanto a conclusão de que a gestão agiu de forma indevida para cumprir expectativas, disse a Piper Sandler.
Além disso, o Nexplanon é um produto com margem relativamente alta, que provavelmente representou entre 14% e 17% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização da empresa no ano passado, segundo Amsellem. Pareceu “mais do que um pouco dissimulado” não mencionar também o efeito sobre os lucros, escreveu ele.
A Organon não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário da Barron’s. A empresa ainda está revisando seus controles internos sobre relatórios financeiros, levantando a possibilidade de que mais casos de irregularidades possam ser descobertos, acrescentou a Piper Sandler.
Fonte: Valor Econômico