Enquanto os investidores estrangeiros seguem aportando dinheiro no mercado brasileiro e enxergam, de forma quase consensual, o país como um beneficiário relativo do atual contexto geopolítico global, a consultoria canadense BCA Research voltou a exibir seu ceticismo sobre os ativos locais em seu último relatório. No documento, intitulado “overhyped” [excesso de euforia, em tradução livre], a empresa orienta que seus clientes evitem se expor ao mercado acionário do Brasil, ao real. Além disso, a BCA abriu uma posição que aposta na alta dos juros de 10 anos do país.
Segundo o estrategista Juan Egaña, o rali que já dura 15 meses nos mercados brasileiros foi impulsionado de forma desproporcional por fluxos estrangeiros especulativos, e não por uma melhora do cenário macroeconômico. Assim, são três os principais fatores que devem levar a uma reversão no bom desempenho dos ativos locais nos próximos meses: uma deterioração nas condições globais para tomada de risco; um ciclo limitado de afrouxamento monetário; e uma piora relevante das condições macroeconômicas locais.
Egaña nota que, na última década, apenas dois trimestres tiveram um fluxo estrangeiro maior do que o observado nos três primeiros meses de 2026. Segundo ele, a entrada de recursos deve diminuir à medida que a aversão a risco global se mantiver firme. Além disso, o estrategista nota que as ações locais se valorizaram por uma expansão de múltiplos e não por uma melhora nos lucros corporativos.
“Os fluxos estrangeiros para os mercados brasileiros se tornaram extremamente esticados. Historicamente, esses períodos de euforia são seguidos por vendas por parte de estrangeiros e por uma retração dos ativos de risco brasileiros”, afirma.
Do ponto de vista macroeconômico, Egaña argumenta que o ciclo de afrouxamento monetário local deve ser bastante limitado, diante de um cenário macro ainda desafiador, com pressões no mercado de trabalho. Por outro lado, a economia deve perder tração nos próximos meses, com chances crescentes de o país entrar em recessão. Observando o impulso fiscal e as condições financeiras apertadas, o estrategista afirma que “a economia brasileira enfrenta uma das combinações de políticas mais restritivas dos últimos 25 anos”.
O estrategista argumenta que a única coisa que poderia evitar um enfraquecimento mais forte da economia local seria um afrouxamento da política fiscal. Isso levaria, de qualquer maneira, a um movimento de aversão a risco nos mercados, em sua visão.
Por fim, o profissional da BCA busca refutar a hipótese de que uma elevação nos preços das commodities seria benéfica para os ativos brasileiros. “A velocidade e a magnitude das oscilações do preço do petróleo são mais importantes do que a sua direção. Há algumas ressalvas que sugerem que os mercados brasileiros devem cair no curto prazo, apesar da alta do petróleo”, aponta.
Egaña afirma que, historicamente, sempre que o preço do petróleo sobe de forma tão intensa em um curto período de tempo, as ações brasileiras caem em termos absolutos. “Isso ocorre porque um choque de petróleo costuma gerar uma desaceleração (ou recessão) do crescimento global, o que é negativo para a economia brasileira e para os ativos de risco no curto prazo”, afirma.
O estrategista ainda chama atenção para as eleições no fim do ano, que devem inserir ainda mais volatilidade nos mercados domésticos. Neste momento, aponta, a probabilidade parece mais inclinada a uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas as condições podem mudar no decorrer do ano. Caso a oposição vença, a BCA Research acredita que pode haver um novo rali nos ativos locais.
No ambiente atual, a consultoria canadense recomenda que seus clientes mantenham uma posição vendida em real e comprada em peso mexicano, refletindo fundamentos macroeconômicos muito mais sólidos no México. No mercado acionário, a consultoria também reafirma sua visão negativa para o Brasil. “Mantemos uma visão pessimista para os preços das ações brasileiras em termos absolutos. Também mantemos nossa estratégia de comprar bancos mexicanos e vender ações de bancos brasileiros”, afirma.
Já nos mercados de renda fixa, a BCA orienta que os investidores permaneçam com posição subalocada em títulos domésticos brasileiros e em crédito soberano, em relação aos seus respectivos ‘benchmarks’ de mercados emergentes.
Por fim, a consultoria abriu uma nova operação de curto prazo, com horizonte de três meses: apostar na alta das taxas de swap de 10 anos no Brasil. “Uma inflação mais alta, combinada com a deterioração das contas fiscais, deve levar à elevação das taxas de longo prazo”, conclui Egaña.
A BCA Research mantém uma visão pessimista sobre o Brasil há pelo menos sete anos.
Fonte: Valor Econômico