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Empresas que já emitiram títulos de dívida neste ano estão voltando a acessar o mercado para uma segunda – ou até terceira – rodada de captação, para tirar proveito de um cenário que combina aumento do interesse dos investidores por renda fixa e níveis baixos das taxas.
Na lista dos repetecos, aparecem companhias com alta demanda de recursos para investimentos, mas também alguns casos de antecipação de operações, diz Matheus Licarião, responsável pela área de mercado de capitais em renda fixa do Santander Brasil. “São emissores frequentes, que têm aproveitado a oportunidade para reperfilar dívidas ou que já estão pensando em 2025.”
A Rumo, por exemplo, captou recursos três vezes neste ano usando debêntures. A empresa de logística fez uma primeira emissão, de R$ 1,2 bilhão, em março. Em junho, voltou ao mercado para uma captação de R$ 704 milhões. Mais recentemente, na última semana de agosto, concluiu uma oferta de R$ 800 milhões. Já a empresa de transmissão de energia Taesa levantou R$ 1,3 bilhão em junho e, no fim de agosto, teve uma nova operação, desta vez de R$ 400 milhões, aprovada pelo conselho de administração.
Renato Otranto, do Daycoval, diz que empresas de setores como energia elétrica já estão acostumadas a dividir as captações em várias operações ao longo do ano, mas que agora isso tem acontecido também com companhias de outros ramos. “O aumento das captações dos fundos tem garantido a demanda e levado mais empresas a voltarem ao mercado”, afirma. “A janela ainda está favorável para os emissores, com taxas interessantes principalmente para os títulos não incentivados.”
Os fundos de renda fixa captaram até agosto R$ 303,8 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Só em agosto, a classe captou R$ 42,8 bilhões, mantendo a liderança da indústria em volume de entradas.
As companhias também estão agora olhando para novas emissões como uma possibilidade de financiar a recompra de papéis mais caros em circulação no mercado, no chamado “liability management” (gerenciamento de riscos para evitar o descasamento entre ativos e passivos). “Elas estão pré-pagando emissões antigas e mais caras e refinanciando com captações com prêmios menores”, afirma Odilon Costa, estrategista de renda fixa e crédito privado do Grupo SWM.
São casos como o da varejista Assaí, que está com uma oferta de R$ 2,8 bilhões na rua, de papéis que vencem em cinco anos. Em junho, a companhia captou outros R$ 500 milhões. O dinheiro da operação atual será usado para gestão de passivos, incluindo o pré-pagamento de notas promissórias e debêntures emitidas em 2021, conforme informações enviadas pela empresa à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A companhia pretende pagar, no máximo, CDI mais 1,25% ao ano pelos novos títulos – bem abaixo das taxas da operação feitas há três anos, que ficaram em DI mais 1,7% no mesmo prazo de cinco anos e 1,95% no prazo de sete anos.
Já a Oncoclínicas saiu neste mês com uma operação no mercado de R$ 190 milhões para reforçar o caixa e pré-pagar uma dívida com o Banco do Brasil. Antes disso, em abril, levantou R$ 800 milhões também para reperfilamento do passivo.
Esse movimento de troca de dívidas ganhou força principalmente a partir de março, acompanhando a queda das taxas de remuneração dos títulos. Desde janeiro, os spreads de debêntures indexadas ao CDI acumulam queda de 0,6 ponto porcentual, chegando a CDI+1,35%, segundo relatório do BTG Pactual divulgado na semana passada.
O volume de emissões no mercado de dívida desacelerou nos últimos meses, após um início de ano frenético. Até agosto, o volume de recursos levantados com debêntures somou R$ 283,9 bilhões, superando o total de R$ 236,4 bilhões captado por meio do instrumento durante todo o ano de 2023, conforme dados da Anbima.
“Sazonalmente temos um segundo semestre mais ativo que o primeiro, mas neste ano é provável que o segundo semestre fique linha ou menor que o primeiro”, afirma Costa.
Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, diz acreditar que o mercado doméstico não deve ser tão aquecido no segundo semestre como foi na primeira metade do ano. No entanto, observa que a queda vista em agosto reflete muito mais a antecipação de ofertas do que uma diminuição de ritmo. “Empresas que captaram duas, três vezes, podem, inclusive, voltar para novas captações nos últimos meses do ano”, afirma o executivo.
Para ele, as emissões voltadas à gestão do passivo podem se esgotar em algum momento, mas as companhias continuarão olhando para o mercado de debêntures como uma possibilidade de financiar outras necessidades, como o de investimento.
Fonte: Valor Econômico