O Irã projeta poder por meio de uma rede de milícias aliadas que Teerã banca com dinheiro e armas. Mas, à medida que a região se aproxima de um conflito mais amplo, o grau em que o governo iraniano pode contar com seus parceiros será testado como nunca antes.
Isolado e sujeito a sanções internacionais, o Irã busca exercer influência ao formar uma coalizão de milícias alinhadas ideologicamente com a agenda anti-Ocidente de Teerã e produzir mísseis e drones de baixo custo para compensar defesas aéreas limitadas. Essas milícias aliadas lutam diretamente contra Israel, os EUA e outros interesses ocidentais, permitindo que o Irã não assuma responsabilidade direta dos ataques, evitando uma ofensiva em seu território.
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No entanto, desgastes estão começando a aparecer na estratégia. O Irã culpou Israel por um ataque que matou o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerã, e a promessa do país em retaliar o ataque colocou toda a região em alerta. Este foi o segundo ataque direto de Israel ao Irã neste ano.
Agora, o Irã avalia como responder à morte de Haniyeh enquanto busca uma maneira de atingir Israel o suficiente para estabelecer uma dissuasão sem incentivar uma retaliação em solo iraniano.
Diversos interesses de milícias aliadas — incluindo as do Líbano, Iraque, Síria e Iêmen — podem complicar as coisas.
“A doutrina do Irã se baseia em empurrar a insegurança para longe de suas fronteiras, visando manter a violência contida, enfraquecendo seus adversários, mas evitando uma guerra total”, diz Thomas Juneau, professor especializado em Irã na Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Ottawa.
Um ataque ao próprio Irã poderia provocar danos significativos, já que Teerã tem lutado para demonstrar que suas defesas podem responder a uma invasão de seu espaço aéreo.
Em janeiro, depois que Teerã atacou alvos jihadistas no Paquistão, Islamabad respondeu com um ataque aéreo na área de fronteira do Irã. Depois veio o ataque de Israel a Isfahan em abril.
A maioria das aeronaves de combate e sistemas de defesa aérea do Irã foi adquirida na década de 1970, antes da Revolução Islâmica de 1979, de acordo com a Agência de Inteligência de Defesa dos EUA. Como resultado, a agência afirma que Teerã se concentrou em equipar suas forças armadas com capacidades específicas, enfatizando táticas assimétricas, como o uso de drones e mísseis que podem atingir Israel, mas são inúteis para proteger seu espaço aéreo.
“A maioria das aeronaves de combate do Irã e suas armas são obsoletas“, disse Douglas Barrie, pesquisador sênior para a área aeroespacial militar no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em Londres (IISS, na sigla em inglês). Além disso, “dado o grande tamanho do país, fornecer defesa aérea completa para todos os alvos potenciais não é possível”.
Em uma rara importação de defesa estrangeira, o Irã conseguiu comprar um pequeno número de sistemas de defesa S-300 da Rússia em 2016, o que forneceu ao Irã sua primeira capacidade de se defender contra uma força aérea moderna. Mas, mesmo isso parece ser insuficiente. A base aérea em Isfahan, onde Israel atacou em abril, estava equipada com S-300s, segundo o IISS.
O chamado Eixo da Resistência nasceu na década de 1980, depois que o Irã, uma nação persa em um Oriente Médio dominado por árabes, se viu isolado na guerra com o Iraque. Desde então, o Irã financiou e armou milícias no Líbano, Iêmen, Iraque e Síria, bem como o grupo islamista palestino Hamas. O ataque liderado pelo Hamas a Israel no dia 7 de outubro desencadeou a cadeia de eventos que trouxe a região à beira da guerra.
As consequências de uma guerra regional seriam particularmente altas para a milícia libanesa Hezbollah, que domina a região que faz fronteira com o norte de Israel. O regime do presidente sírio Bashar al-Assad, por sua vez, cuja sobrevivência depende em grande parte do Irã e suas milícias, disse ao Irã que não quer ser arrastado para uma guerra, de acordo com um assessor do governo sírio e um oficial de segurança europeu.
Damasco tem enfrentado uma crise econômica provocada por anos de sanções, o que levou a protestos e descontentamento entre grandes segmentos da população, e sua liderança perdeu o controle de grandes áreas no norte e leste do país.
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Mas as milícias aliadas ao Irã no Iraque e os rebeldes houthis no Iêmen parecem ansiosos por uma abordagem mais agressiva, não apenas em relação a Israel, mas também às tropas americanas estacionadas na região. Isso parece estar deixando Teerã desconfortável.
O Irã “é um pouco como uma carruagem puxada por um bando de cavalos indisciplinados”, diz Andrew Tabler, ex-diretor do Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. “O Irã está segurando as rédeas, mas seus aliados muitas vezes discordam sobre o ritmo e a direção da viagem, e isso pode levar a acidentes.”
Os houthis do Iêmen querem executar grandes ataques a navios de guerra dos EUA e portos israelenses, não apenas em vingança pela morte de Haniyeh, mas também por um ataque israelense a um porto dominado pelo grupo no mês passado, de acordo com autoridades houthi e europeias.
“Os houthis são muito imprudentes e ambiciosos”, disse Osamah Al Rawhani, diretor do Centro de Estudos Estratégicos de Sana’a, focado no Iêmen. “Eles são encorajados pelo fato de estarem em pleno controle de seu território e ocuparem uma localização estratégica que tem causado danos ao comércio global por meio de suas hostilidades contra as rotas de navegação.”
O Irã enfrenta o mesmo desafio com seus aliados iraquianos, as Forças de Mobilização Popular, cujo foco principal tem sido atacar bases americanas no Iraque e na Síria enquanto buscam expulsar as forças americanas da região.
Encontrar a resposta certa para o assassinato de Haniyeh será crucial, tanto para evitar uma retaliação das forças mais bem equipadas de Israel quanto para manter o respeito dos aliados.
Fonte: Valor Econômico