O Einstein Hospital Israelita está redesenhando sua estratégia de inovação para deixar de ser apenas um grande comprador de tecnologia e passar a atuar como um desenvolvedor e exportador de soluções de saúde. A organização anunciou, nesta quarta-feira (4), a criação dos Centros Colaborativos de Inovação (CCIs), um modelo de parceria estruturada de longo prazo que visa inserir o Brasil nas rotas globais de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
O movimento ocorre em um cenário de subinvestimento crônico: de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o Brasil destina apenas 1,2% do seu PIB a P&D, enquanto a média da OCDE é de 2,7%, e líderes como Israel alcançam 6,3%. “O que estamos fazendo é deixar de ser apenas um consumidor de tecnologia de fora, mas criar soluções tecnológicas com foco na nossa população para que a saúde local seja melhorada e escalada para fora”, afirmou Sidney Klajner, presidente do Einstein, em entrevista ao Valor.
O modelo financeiro dos CCIs exige um compromisso de longo prazo. Cada empresa parceira deverá realizar um aporte de cerca de R$ 3 milhões por ano, ao longo de um período minímo de cinco anos. Com a meta de estabelecer seis centros até o final de 2026 — dos quais três já estão com contratos previstos para os próximos 40 dias —, o Einstein estima movimentar entre R$ 60 milhões e R$ 90 milhões no primeiro ciclo do projeto.
Diferente de parcerias pontuais, os CCIs atuarão em toda a cadeia de valor da saúde: dispositivos médicos, indústria farmacêutica, tecnologia digital, insumos e até cosméticos. A governança será compartilhada por meio de comitês executivos, e a propriedade intelectual (PI) será tratada de forma flexível, podendo pertencer ao Einstein, à empresa ou ser compartilhada.
Rodrigo Demarch, diretor executivo de Inovação, explicou que a estratégia é encurtar o “time-to-market”. “Esses parceiros encontram tudo debaixo do mesmo guarda-chuva. Isso faz com que o desenvolvimento seja mais rápido e certamente mais barato.”
Um dos pilares mais ambiciosos dos CCIs é a inclusão de empresas nacionais para fortalecer a base industrial do país. Diferente das multinacionais, o Einstein reconhece que o fôlego financeiro das empresas locais exige uma engenharia financeira distinta. “A gente tem explorado formas de financiamento por meios de bancos nacionais e agências de fomento à inovação”, disse Demarch.
O objetivo é que esses centros sirvam como uma “fagulha inicial” para o desenvolvimento de uma indústria nacional de alta tecnologia. Ao conectar empresas brasileiras a esse ecossistema, o Einstein espera atrair de volta pesquisadores que foram para o exterior por falta de infraestrutura local. Cada centro terá entre 10 a 20 profissionais dedicados, gerando empregos de alto valor agregado e fixando capital intelectual no país.
Para convencer os “quartéis-generais” globais a deslocarem orçamentos de P&D para o Brasil, o Einstein aposta em ativos singulares: a diversidade genética populacional e a enorme massa de dados gerada pela sua rede, que inclui 11 hospitais (sendo nove públicos).
“O Brasil tem uma condição singular, uma população extremamente heterogênea que gera dados fundamentais para o desenvolvimento tecnológico”, disse Demarch. Klajner reforçou que o foco é criar soluções para a “população maior”, com aplicabilidade tanto no sistema privado quanto no Sistema Único de Saúde (SUS).
“Existem regiões do Brasil que se assemelham a outras partes do mundo. O que criarmos aqui para a nossa diversidade terá benefício e escala global”, observou.
O ecossistema ganhará base física no segundo semestre de 2026 com a inauguração da Vila Einstein, no Morumbi. Um dos edifícios será dedicado exclusivamente à inovação, permitindo que as equipes de P&D das empresas parceiras trabalhem lado a lado com os clínicos e mentores do Einstein. O ecossistema já acelerou mais de 150 startups nos últimos oito anos.
Klajner reforçou que o sucesso será medido pela capacidade de levar essas inovações ao sistema público. “Tão importante quanto o retorno material e econômico é o retorno em relação à saúde da população. Como que isso vai permitir melhores diagnósticos, tratamentos e incorporações pelo SUS”, disse.
Dentro das frentes tecnológicas, que incluem Genômica e Terapias Celulares, a Inteligência Artificial (IA) é a aposta para resultados imediatos. “É possível que as iniciativas relacionadas à inteligência artificial sejam capazes de trazer algo tangível mais rapidamente”, projetou Demarch.
Para Klajner, fazer parte desse “clubinho” de inovadores globais coloca o Einstein e o Brasil na rota de produtos que atendem às necessidades de países em desenvolvimento, mas que possuem alto interesse comercial para as grandes indústrias. “Estamos deixando de ser apenas consumidores para criar tecnologias com foco na nossa população e que sejam escaladas para fora”, concluiu.
Fonte: Valor Econômico