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O ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) Reinaldo le Grazie alerta que seria “perigoso” vender dólares das reservas internacionais para se contrapor ao enfraquecimento do real se a política macroeconômica seguir desequilibrada, com o atual ritmo de expansão fiscal.
“US$ 350 bilhões [em reservas internacionais] é bastante, um tremendo seguro, mas acaba rápido se a política econômica estiver inadequada”, diz Le Grazie, que é sócio da Panamby Capital. “A reserva pode ir toda embora.”
Ele pondera que, sem corrigir os problemas de fundo, o Banco Central provavelmente vai vender dólares a um preço mais baixo do que estará no futuro. “É ruim, não resolve o problema e ainda queima patrimônio público.”
A decisão que poderia ser tomada é na área monetária, não cambial. “A curva de juro já põe três altas de 0,5 ponto percentual”, afirma. “O Copom subir o juro é uma alternativa que favorece a valorização do real.”
O diagnóstico de Le Grazie é que o dólar busca um novo valor de equilíbrio porque o mercado entende que os juros reais não serão suficientes. “Se a expansão fiscal continuar da maneira como está, a inflação vai subir”, afirma. “Se existir uma restrição ao juro acompanhar essa expansão fiscal, isso desvaloriza a moeda.”
Para ele, o mercado vive todos os dias na expectativa sobre notícias de medidas de contenção de gastos públicos. “Cada dia que passa que isso não acontece, o dólar sobe mais”, afirma.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Por que o dólar sobe?
Reinaldo Le Grazie: Tem uma força global. Os Estados Unidos estão com uma expansão fiscal e uma taxa de juro alta. É uma economia dinâmica, com um mercado bursátil forte, que atrai recursos. Então o dólar já está forte há um tempinho e se fortaleceu recentemente. Já o real está com uma fragilidade maior do que a dos pares. A moeda do Brasil é a que mais se desvalorizou neste ano, com 14%. As moedas do Chile, México e Colômbia estão com uma desvalorização de 7%.
Valor: Qual é a explicação para o Brasil ter um desempenho pior?
Le Grazie: Se você vai trabalhar com uma taxa real de juros mais baixa ou até negativa, é natural a moeda se desvalorizar. Ficou um pouco essa ameaça, recentemente, de uma taxa de juros real mais baixa. Seja por uma inflação mais alta ou por um juro artificialmente mais baixo, ou pelo dois. Essa situação desencadeia uma busca de um novo patamar de câmbio. É isso que o mercado está tentando entender. Se a expansão fiscal continuar da maneira como está, a inflação vai subir. Se existir uma restrição ao juro acompanhar essa expansão fiscal, isso desvaloriza a moeda.
Valor: O BC mudou a política monetária recentemente, ao tirar a expectativa de cortes de juro. Mesmo assim, o câmbio não respondeu.
Le Grazie: Mas antes disso tivemos uma mudança na política fiscal também. Então tivemos a fiscal expansionista e a monetária contracionista. É assim mesmo. Quando a fiscal expande, a monetária tem que contrair. A resultante disso, segundo o preço do câmbio, não é suficiente. A expectativa de expansão fiscal está sendo muito maior do que a expectativa de contração monetária. O que sobra é uma redução da taxa de juro real. Portanto, o câmbio tem que desvalorizar.
Valor: O Banco Central já deveria ter reformado a sua comunicação de política monetária?
Le Grazie: O BC não pode fazer isso a cada momento que os preços mudam. Ele faz isso nos documentos oficiais a cada 45 dias. Mas a gente consegue fazer as contas. Com os juros de 10,5% até o final de 2025, o BC projetou uma inflação de 3,1% com câmbio que, naquele exercício, estava em R$ 5,30. Agora ele se desvalorizou uns 5%. Se você coloca a transmissão desse câmbio para os preços, então a projeção passaria de 3,1% para 3,5%. O BC trabalha com a conta fiscal que o que o governo informou. O mercado está trabalhando com outra projeção fiscal, porque o governo já está dando sinais de que não vai cumprir aquela meta anterior. O mercado está pondo uma expansão fiscal ainda maior. Por isso que o mercado está com quase 4% de inflação para 2025, com viés de alta.
Valor: Seria um efeito do excesso de especulação no mercado?
Le Grazie: O mercado nada mais é do que a soma de todas as pessoas que investem e participam do sistema financeiro de alguma maneira, ou investindo ou tomando dinheiro emprestado. As pessoas estão se protegendo um pouco contra essa expectativa de dólar para cima, da mesma maneira que as pessoas compram produtos que acham que o preço vai subir. As pessoas compram ação da Petrobras e da Vale quando acham que vão subir. É legítimo chamar de especulação? Eu não sei se isso é muito adequado. Mas, de qualquer maneira, a questão é que as pessoas estão comprando mais dólares porque o equilíbrio parece que caminha para um real mais desvalorizado, por duas forças, a externa e a doméstica.
Valor: O Brasil estaria sofrendo mais porque tem uma economia maior, entre os emergentes, com um mercado mais líquido?
Le Grazie: Não é o caso. Assistimos isso em poucos momentos. Por exemplo, no ataque às Torres Gêmeas, quando grande parte dos mercados fechou, e o Brasil ficou aberto. As posições de proteção vieram para vender o real no Brasil, vender bolsa. Mas olha a diferença de proporção. O Brasil está sofrendo mais porque, agora, está no holofote em função dessa mudança macroeconômica. Na Turquia, isso está acontecendo há cinco anos. Continua no processo de desvalorização há bastante tempo. O Brasil agora entrou na lupa.
Valor: A posição dos estrangeiros nos mercados significa que eles estão especulando contra o real?
Le Grazie: Não tenho visto isso. Pelo contrário. Se você olhar o fluxo de bolsa, fluxo nos últimos cinco ou talvez dez dias úteis, foi positivo. A desvalorização do dólar está atraindo recursos para a bolsa. Parece até um pouco de contrassenso, mas de novo é a busca de equilíbrio. A bolsa fica mais barata, entre aspas. Os papéis ficam um pouco mais baratos, porque o investidor entra com esse dólar. Então tem algum fluxo. Tem investidores estrangeiros comprando dólar e reduzindo posição de renda fixa. E tem outros investidores estrangeiros comprando real e investindo na bolsa.
Valor: Chegou-se a acreditar, várias vezes, que teria um teto quando o dólar chegou em R$ 5,30, depois em R$ 5,40, e sucessivamente. Existe um limite para a alta?
Le Grazie: Não tem teto, isso é chute. Análise gráfica às vezes funciona, às vezes não. A questão é realmente o equilíbrio. Estamos naquele momento em que ‘no news, bad news’ [é uma má notícia não ter notícias]. Quando a gente acorda pela manhã e não teve nenhuma novidade de governo, isso não é positivo. Entramos numa dinâmica em que alguma decisão precisa ser tomada. O que o mercado espera? O anúncio de corte de gastos, o anúncio de uma política macroeconômica duradoura. Cada dia que passa que isso não acontece, o dólar sobe mais.
Valor: O Banco Central pode fazer alguma coisa para conter essa escalada do dólar?
Le Grazie: Subir o juro, é o que ele pode fazer. Enquanto não tem novidade no fiscal, no corte de gastos, o mercado está acreditando, está pondo nos preços, que o juro vai subir. A curva de juro já põe três altas de 0,5 ponto percentual. O Copom subir o juro é uma alternativa que favorece a valorização do real.
Valor: O Brasil poderia usar os US$ 350 bilhões de reservas cambiais para intervir?
Le Grazie: Até pode. US$ 350 bilhões é bastante, um tremendo seguro, mas acaba rápido se a política econômica estiver inadequada. Vender reserva, sendo que a política econômica se coloca desequilibrada e pedindo um câmbio mais desvalorizado, é perigoso. A reserva pode ir toda embora. Como disse o nosso querido e rigoroso professor [ex-presidente do BC Affonso Celso] Pastore, câmbio às vezes é preço e às vezes é taxa. O mercado está acreditando que o preço do câmbio é mais alto. Se o BC vender câmbio agora, ele provavelmente vai vender mais baixo do que o câmbio vai estar daqui a um mês. É ruim, não resolve o problema e ainda queima patrimônio público.
Valor: O mercado não está disfuncional?
Le Grazie: Não. O mercado está funcionando bem, a bolsa subiu esses ultimos dias. O juro é que está subindo junto com a queda do real. O mercado de crédito está funcionando muito bem, as empresas estão emitindo papéis. O volume de emissão estava grande, os fundos de renda fixa estão operando normalmente. A volatilidade do câmbio e do juro está muito alta, mas o resto dos mercados está funcionando bem. Não está disfuncional, está buscando o equilíbrio de preços.
Valor: A venda de swaps cambiais poderia ser uma solução?
Le Grazie: Quando se fala em swaps, é reserva do mesmo jeito. A contrapartida dos swaps são as reservas. Se não tiver reservas, não pode fazer swaps. Claro que acabar com US$ 350 bilhões é difícil, mas a gente não sabe o tamanho do desequilíbrio. Se soubesse, faria a conta, e poderia chegar à conclusão de que o câmbio deveria ser R$ 4,50 ou R$ 6,50.
Valor: E o que mais poderia ser feito para aliviar a situação?
Le Grazie: Tem uma questão doméstica também bastante relevante, que surgiu com a divergência no Copom de maio, que é a formação do novo Banco Central. Isso também é uma dúvida grande do mercado com relação ao futuro. É uma decisão que o governo também podia tomar. Se o governo anunciar quem é o. novo presidente do Banco Central, de certa maneira, vai sinalizar a tendência de formação da equipe. Isso pode ser esclarecedor para o preço da moeda. Se for positivo, vai fazer a moeda se valorizar. Se for uma equipe fraca, o real desvaloriza mais.
Fonte: Valor Econômico


