A apreciação do dólar no exterior e a persistência das incertezas fiscais internas voltaram a pressionar o real ontem, com efeitos negativos nos juros longos e na bolsa. O movimento ocorreu mesmo após o Comitê de Política Monetária (Copom) mostrar coesão na ata de sua última reunião e sinalizar que deve manter a Selic parada na faixa dos 10,5% por algum tempo.
O dólar subiu 1,16%, a R$ 5,4534, e o índice DXY avançava 0,15%, aos 105,626 pontos, no fim da tarde. Já a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 subiu de 11,85% para 11,915%, enquanto o Ibovespa caiu 0,25%, aos 122.331 pontos.
Em dia de dólar forte no exterior, diante de incertezas sobre a trajetória dos juros nos EUA, a ausência de medidas de contenção de gastos pelo governo e temores de maiores despesas ainda maiores no Plano Safra, pressionaram real e juros longos na sessão.
As incertezas envolvendo a evolução da dívida pública brasileira devem continuar a exercer pressão na moeda ao longo deste ano e talvez até em um horizonte mais distante, dizem economistas do Wells Fargo, que projetam o dólar a R$ 5,50 até o fim de 2024. “As preocupações fiscais se intensificaram e é pouco provável que se dissipem num futuro próximo”, afirmam.
O banco americano espera que o Banco Central mantenha seu ciclo de afrouxamento interrompido, o que pode mudar no ano que vem com as indicações do governo para o BC. Em tese, os economistas não veem a redução da Selic como algo que necessariamente contribuiria para um real mais fraco. “Mas, se os mercados questionarem a independência do BC, a depreciação do real poderá persistir no médio e longo prazo”, dizem.
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Há, no entanto, quem enxergue espaço para uma reversão do movimento. Ricardo Cará Monteiro, gestor de fundos líquidos da EQI Asset, diz ter iniciado posições táticas vendidas em dólar contra o real. “Não é uma posição estrutural porque ainda há ruídos, mas a depender da melhora do ambiente local posso rever isso”, diz.
“Vejo três razões para essa aposta: posicionamento técnico melhor, uma vez que a indústria de fundos está mais desalavancada; o dólar entre R$ 5,45 e R$ 5,50 parece ter assimetria favorável; e o cenário externo, uma vez que estamos vendo o índice de surpresas caindo nos EUA, o que indica números mais fracos do que o esperado.”
Ainda de acordo com Monteiro, a economia americana, em especial o consumo e a inflação, tem mostrado desaceleração após pico no começo do ano. “Ainda é um movimento gradual, mas se a discussão de corte de juros pelo Fed amadurecer e o corte vier em setembro ou novembro, teremos um ambiente mais positivo para os mercados em geral e também para o câmbio, com dólar mais fraco globalmente”, explica. “Por aqui, com juros elevados e sem cortes poderemos ter um novo ciclo de dólar fraco”, complementa.
Priscila Araújo, gestora de renda variável da O3 Capital, avalia que o cenário externo ficou menos incerto, com viés levemente mais construtivo para ativos de riscos caso os dados de atividade dos EUA não piorem muito. “Mas o cenário local está muito difícil. A foto não é ruim, com economia surpreendendo e inflação controlada. A grande questão é o filme, por conta das incertezas fiscais. O câmbio depreciado pode impactar a inflação, enquanto os juros mais altos e a confiança em baixa tendem a afetar a atividade”, afirma.
A executiva acrescenta que mesmo as sinalizações tidas como positivas pelo mercado, como os discursos recentes do banco central, indicam que as taxas ficarão mais altas por mais tempo, o que limita o fluxo para a bolsa. “Para vislumbrar uma alta mais fundamentada, talvez seja preciso o Fed cortar mais que o previsto lá fora e o governo apresentar algum plano de contingenciamento crível”, diz.
Fonte: Valor Econômico


