Principais pontos
- O aumento da demanda de energia puxado pela IA deve equivaler, até 2030, à adição de outro Japão — quinto maior consumidor mundial de eletricidade — ao consumo global, na comparação com o início de 2024.
- O Goldman Sachs Research identifica sete restrições (“Ps”) para a energia de data centers, entre elas preço, política e mão de obra. As filas de conexão às redes elétricas regionais dos EUA chegam a sete anos.
- A região do Meio-Atlântico (PJM) deve permanecer o maior mercado americano de energia para data centers até pelo menos 2030, mas o Meio-Oeste (MISO) deve superar o Texas na segunda posição.
A demanda global de energia dos data centers pode crescer 170% até 2030 em relação aos níveis de 2025, segundo Brian Singer, head global do GS Sustain, e Carly Davenport, analista sênior de utilities para as Américas do Goldman Sachs Research. A projeção anterior, de março, era de alta de 117%. Em entrevista ao podcast Goldman Sachs Exchanges, apresentado por Allison Nathan e George Lee, os analistas discutiram de onde virá essa energia, os principais gargalos e a resistência crescente de comunidades locais.
Considerando o período de sete anos entre o início de 2024 e o fim da década, Singer estima que a IA — somada aos data centers — adicionará o equivalente ao consumo de eletricidade de todo o Japão.
Revisões para cima em toda a cadeia
O Goldman Sachs Research elevou sua projeção de crescimento da demanda de energia nos EUA para um CAGR de 3,5% até 2030, contra 3,2% anteriormente. No acumulado do ano, a demanda já avança mais de 4%, segundo Davenport.
O principal vetor da revisão foi a demanda dos data centers, que passou de cerca de 83 GW para aproximadamente 108 GW em 2030, com base em dados da 451 Research. Dois movimentos explicam a mudança: a entrada de novos projetos na fila de desenvolvimento e a maior utilização da infraestrutura existente. As taxas de vacância nos principais mercados americanos caíram para 1% a 2%, contra uma faixa de 2% a 7% nos últimos anos; a projeção é de 3% de vacância média nos EUA em 2030.
A revisão acompanha o salto no capex dos hyperscalers. A projeção de gastos para 2027 subiu de US$ 1,2 trilhão em março para US$ 1,7 trilhão, e a de 2029, de US$ 1,5 trilhão para US$ 2,1 trilhão. Os ganhos de eficiência em modelos, chips e servidores têm se materializado, mas ainda não pressionaram para baixo os orçamentos de tecnologia e P&D — a demanda reprimida por tokens e computação continua superando a eficiência conquistada. Como observou Lee, tokens mais baratos ampliam o universo de tarefas economicamente endereçáveis dentro das empresas, expandindo o mercado em vez de contrair a demanda.
Os sete “Ps” que sustentam e restringem o ciclo
Singer atualizou seu framework de restrições, que passou de seis para sete fatores: penetração da IA, produtividade de servidores, chips e modelos, preço da energia, política (com três subitens — licenciamento, resistência local e populismo), peças (transformadores e turbinas), pessoas (eletricistas e soldadores habilitados para alta tensão) e, o novo item, ambiente físico.
No caso das peças, um dos grandes fabricantes de turbinas afirmou em teleconferência recente que, até o fim deste ano, deve estar com metade da capacidade de 2031 já vendida. A escassez de mão de obra qualificada reflete uma década de demanda estagnada nos EUA, com pouco incentivo para entrada nesses ofícios, que exigem no mínimo quatro anos de formação e certificação.
O ambiente físico diz respeito ao resfriamento. Mais da metade dos data centers está em áreas com risco físico elevado — temperaturas extremas, umidade ou seca —, o que impõe um trade-off entre consumo de água e consumo de energia. Nos EUA, a expectativa é de que a prioridade seja minimizar o uso de água, ainda que isso implique tecnologias com maior consumo elétrico, já que encontrar novas fontes de água é mais caro do que novas fontes de energia. Na China, por regulação, a prioridade tende a ser o inverso.
Matriz “all of the above” e o papel do behind the meter
Não há previsão de escassez de energia em âmbito nacional nos EUA, mas alguns mercados ficam criticamente apertados — PJM em primeiro lugar. O ERCOT, no Texas, não é visto como apertado hoje, mas deve ficar por volta de 2028.
Cerca de 60% da demanda dos data centers deve ser atendida por gás natural e 40% por renováveis, com alguns religamentos pontuais de usinas nucleares ajudando a fechar a conta. O sequenciamento previsto é: gás em ciclo simples e renováveis com baterias no curto prazo, ciclo combinado no médio prazo e nuclear no longo prazo.
A resistência local e as restrições físicas fortaleceram a alternativa behind the meter — geração local ilhada da rede. A estimativa foi elevada para cerca de 30 GW de capacidade a gás nessa modalidade até 2030, o equivalente a pouco mais de 20 GW de entrega efetiva de energia, ou aproximadamente 20% da demanda projetada dos data centers. Davenport avalia, no entanto, que se trata de uma solução-ponte: os grandes clientes preferem estar conectados à rede, que oferece custo e confiabilidade melhores em projetos de múltiplos gigawatts.
Regulação, financiamento e o obstáculo mais íngreme
A incerteza regulatória sobre como as conexões de data centers serão tratadas é, na avaliação de Davenport, a questão mais importante hoje para as empresas de energia e utilities. As filas de interconexão variam de dois a sete anos, dependendo da rede regional. Entre os mitigantes em curso estão o behind the meter e, nos mercados regulados, estruturas tarifárias especiais padronizadas e transparentes, com aval prévio do regulador, que definem prazos, exigências financeiras e proteções aos demais consumidores.
É também por isso que o MISO — do Minnesota à Louisiana — deve se tornar o segundo maior mercado americano de data centers em 2030, com cerca de 16% do total. Ali são as próprias utilities reguladas, e não desenvolvedores independentes, que constroem a geração, funcionando como balcão único e com o regulador controlando o que é cobrado em cada elo da cadeia. O PJM deve manter os 35% de participação que tem hoje, sustentado por capacidade nuclear merchant, espinha dorsal de transmissão em alta tensão e clusters já estabelecidos. O ERCOT deve ficar em terceiro, com cerca de 14%, em meio à incerteza gerada pelas auditorias de projetos anunciadas pelo governo do Texas.
Do lado do financiamento, o investimento das utilities reguladas sob cobertura do banco deve crescer 60% nos próximos cinco anos em relação ao quinquênio anterior, com cerca de 100 pontos-base de folga em relação aos limiares de rebaixamento de crédito. A expectativa é de que o capital incremental seja financiado com 30% a 50% de equity.
O maior obstáculo, na leitura de Lee, é a opinião pública. Existe hoje uma moratória em nível estadual, mas mais de 300 moratórias regionais ou locais em curso no país. Uma pesquisa recente citada por ele aponta que uma pluralidade de americanos prefere ter uma usina nuclear na vizinhança a um data center. Singer enumera cinco frentes de resistência — risco de apagão, alta de tarifas, uso de água, ruído e calor rejeitado — e aponta soluções técnicas para cada uma: interruptibilidade da carga, contratos take-or-pay, resfriamento em circuito fechado ou a seco, tecnologias de abatimento acústico e, em climas frios como o da Finlândia, aproveitamento do calor residual. Nada disso, ressalva, faz o tema desaparecer.
Como indicadores a monitorar, os analistas citam o surgimento de moratórias estaduais — especialmente na aproximação das eleições de novembro —, eventuais revisões na capacidade projetada para 2030 e, como métrica menos óbvia, a contratação de energia nuclear pelos hyperscalers, que pouco afeta os próximos cinco anos e por isso sinaliza a convicção de longo prazo dessas empresas.
Fonte: Goldman Sachs


