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A tentativa de assassinato de Donald Trump, ocorrida logo depois dos tropeços do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, durante o recente debate eleitoral, está reforçando fora dos EUA a impressão de que a principal superpotência do mundo entrou em um período excepcional de turbulência e imprevisibilidade, o que deixa aliados em dúvida sobre sua confiabilidade e provoca regozijo nos rivais.
As imagens de um Trump ensanguentado sendo retirado às pressas do palco chamaram a atenção de todo o planeta, e para muitos mostram uns EUA cada vez mais em conflito consigo mesmo – um país que tem uma economia forte, mas um cenário político disfuncional e perigosamente dividido.
Em capitais de outros países ao redor do mundo, a tentativa de assassinato de Trump e as gafes repetidas de Biden mudaram os cálculos políticos e diplomáticos e levaram muitos governos a correr para se preparar para um segundo mandato de Donald Trump na Presidência como o cenário mais provável, por causa das preocupações cada vez maiores dos eleitores sobre a capacidade mental de Biden e da possibilidade de que Trump se beneficie de uma onda de simpatia depois do ataque.
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Um colunista de um jornal britânico disse que agora Trump é “imbatível”. Um relatório divulgado nesta segunda-feira pela corretora sul-coreana Eugene Investment & Securities tinha como título “A ascensão de Trump e a queda de Biden” e mostrava lado a lado a foto de um Trump ensanguentado com o punho erguido e a imagem de um tropeço de Biden em um evento na Academia da Força Aérea dos EUA no ano passado.
A tentativa de assassinato, junto com o debate sobre a idade avançada do presidente Biden, também deu vida nova à narrativa de política externa favorita da Rússia: o suposto declínio acelerado dos EUA.
Autoridades russas falaram no domingo sobre a “suposta condição suicida” da democracia americana, e avaliaram que o país está à beira de uma guerra civil. O Kremlin responsabilizou o governo Biden, que acusou de criar um clima que provocou o ataque.
“A Rússia tem um histórico comprovado de jogar lenha na fogueira dos problemas dos EUA”, afirmou Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center. “Para o Kremlin… os tiros e o debate em torno da idade de Biden só reforçam sua crença de que os EUA, embora sejam tão poderosos, estão na verdade no seu leito de morte.”
Alguns comentaristas próximos do governo da China também fizeram eco a essas ideias, pois em Pequim é antiga a opinião de que os EUA estão em uma fase de declínio como única potência do mundo. “É o fim de feira da democracia ao estilo americano”, escreveu o jornalista Han Peng na popular rede social chinesa Weibo. Peng, da emissora estatal CGTN, trabalhou durante um período nos EUA.
Para outros países, no entanto, o atentado contra Trump serve como um lembrete, não da excepcionalidade ou do declínio dos EUA, mas de que se trata de um país como qualquer outro, que sofre espasmos ocasionais de violência política.
Em maio, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, quase morreu depois de ser baleado, e em janeiro o chefe do partido de oposição esquerdista da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, foi esfaqueado no pescoço. No domingo, Lee desejou a Trump uma rápida recuperação em um post na rede social X.
No Brasil, várias centenas de seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que sofreu uma tentativa de assassinato durante a campanha eleitoral de 2018, reuniram-se no domingo na principal avenida de São Paulo para mostrar sua solidariedade a Trump, um aliado próximo do líder conservador. “Viva Trump!”, gritavam os manifestantes.
Muitos de fora dos EUA estarão observando atentamente se o ex-presidente usará o momento para tentar começar a superar a divisão partidária ou se ele vai reforçar essa divisão.
“É possível que Trump continue a enfatizar a polarização e o confronto na política dos EUA”, diz François Heisbourg, consultor especial da Foundation for Strategic Research de Paris. “Também é possível que ele enfatize a união nacional… Se ele fizer isso, então poderá estar caminhando para uma vitória esmagadora.” Seja como for, afirma ele, a Europa deveria se planejar para uma reeleição de Trump.
Um possível retorno de Trump à Casa Branca significaria coisas diferentes para diferentes países. Alguns, como a Rússia e Israel, receberiam bem um segundo mandato de Trump, pelo menos inicialmente, enquanto muitos países europeus, especialmente a Ucrânia, temem que Trump esteja menos empenhado em controlar uma Rússia agressiva e venha e enfraquecer a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental), a aliança de defesa transatlântica.
As políticas comerciais de Trump, especialmente as tarifas prometidas sobre os produtos importados, preocupam a China, o México e a Europa.
Mas os acontecimentos recentes nos EUA aumentaram preocupações que vão além de qual candidato vencerá. Independentemente de qual partido estiver no poder, os EUA se tornaram muito mais protecionistas nos últimos anos e cautelosos em relação a complicações em outros países.
As divisões dentro da política americana também estão restringindo sua capacidade de apresentar resultados no cenário global, da segurança ao comércio, segundo alguns analistas políticos.
“Há uma grande preocupação sobre se os EUA poderão continuar liderando, formando parcerias e alianças”, diz Leslie Vinjamuri, diretor do programa EUA e Américas da Chatham House, um centro de estudos de Londres.
“Mesmo sob um governo democrata, há tantas restrições internas devido à política disfuncional, polarizada e partidária, que mesmo que um presidente tenha boas intenções, ele terá dificuldades para cumprir suas promessas.”
Para o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, por exemplo, qualquer resultado nas eleições nos EUA traz riscos. Nos últimos dois anos, a frustração com o governo Biden tem crescido em Kiev.
Autoridades, soldados e civis dizem que a ajuda dos EUA é pouca e chega muito tarde – o suficiente apenas para evitar que as forças ucranianas percam a guerra, mas insuficiente para lhes permitir recuperar os 20% do país que Moscou ocupa no momento.
Biden, temendo desencadear um conflito direto com Moscou, adiou por meses – ou, em alguns casos, anos – a entrega de novos sistemas de armas para a Ucrânia. Autoridades afirmam que os atrasos permitiram aos russos reforçar suas posições, tornando o trabalho de recapturar o território ocupado mais difícil do que teria sido se as armas tivessem chegado antes.
Trump, porém, prometeu acabar com a guerra através de negociações de paz e criticou os gastos dos EUA em ajuda à Ucrânia. Como resultado, existe uma grande preocupação entre os ucranianos de que, se ele for eleito, isso significará o fim da ajuda em grande escala dos EUA.
Em uma entrevista recente à Bloomberg News, Zelensky apelou a Trump para fornecer detalhes sobre como ele poderá mudar a política dos EUA em relação à Ucrânia.
“Gostaria de entender, o que significa acabar com a guerra rapidamente”, disse Zelensky. “Porque se há riscos para a independência da Ucrânia, há riscos de que percamos a soberania, [e] queremos estar preparados para isso. Queremos entender se, em novembro, vamos ter o poderoso apoio dos EUA ou vamos estar sozinhos.”
Na Alemanha, a expectativa do governo é que, não importa qual seja o resultado da eleição americana, haverá uma intensificação da pressão dos EUA para que a Europa aumente os gastos militares. Os recentes esforços de Berlim para elevar o investimento no arsenal militar e diversificar o comércio exterior para fora da China foram empreendidos, em parte, prevendo uma pressão americana.
Thomas Silberhorn, membro do Parlamento alemão da oposição conservadora, tem mantido contato estreito com parlamentares republicanos e nesta semana participará da convenção do partido em Milwaukee. Silberhorn espera que as diretrizes gerais da política externa americana continuem constantes seja com Trump ou com a reeleição de Biden. “Você precisa diferenciar entre a campanha eleitoral, com toda sua brutalidade, e a ‘realpolitik’”, disse.
Por toda a Europa, os recentes eventos colocam em evidência o argumento de que o continente não pode mais se dar ao luxo de basear suas necessidades futuras de segurança no resultado das acirradas eleições americanas, cada vez mais voláteis.
O presidente da França, Emmanuel Macron, há muito defende a ideia de que a Europa precisa passar a ter uma “autonomia estratégica” em relação aos EUA e a outras potências militares, por meio de uma união militar para comprar armas e desenvolver a indústria de defesa do continente.
No entanto, diante das próprias turbulências políticas em alguns de seus maiores países, inclusive na França e na Alemanha, da lentidão da economia e dos altos níveis de dívida, autoridades econômicas e analistas advertem que pode levar anos para a Europa ter condições de apresentar uma dissuasão militar significativa à Rússia.
“A Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental] está constantemente tendo essa conversa – como fazer com que Otan e a Europa fiquem ‘à prova de Trump’”, disse Vinjamuri. “E eles deram alguns passos modestos. Mas a realidade é que os EUA ainda são o parceiro indispensável.”
Quanto à China, o governo Biden manteve e, em alguns casos, até expandiu as rigorosas políticas econômicas de Trump. Mas Biden tem sido muito menos incisivo nas declarações sobre a China do que Trump, e autoridades chinesas temem que Trump aprofunde a guinada protecionista dos EUA e traga um período de incertezas muito maiores nas relações bilaterais.
O México também está preocupado, uma vez que há uma revisão do acordo de livre comércio EUA-México-Canadá marcada para 2026. Na ocasião anterior em que Trump esteve no cargo, os EUA ameaçaram impor tarifas de até 25% sobre produtos mexicanos, se o governo não impedisse a chegada de dezenas de milhares de migrantes à fronteira. O governo mexicano rapidamente mobilizou milhares de soldados para impedi-los.
“Trump representa uma enorme ameaça, um risco enorme”, para a presidente eleita Claudia Scheinbaum, a primeira presidente mulher do México, disse Jorge Castañeda, ex-ministro das Relações Exteriores do México.
Funcionários mexicanos de alto escalão que negociaram com o governo Trump estão preocupados com políticas de segurança agressivas que possam ser direcionadas contra os poderosos cartéis de drogas mexicanos envolvidos no contrabando de fentanil e migrantes. Republicanos da Câmara dos Deputados já cogitaram a ideia de usar as Forças Armadas dos EUA contra grupos do crime organizado no México.
Autoridades mexicanas também preveem um aumento nas deportações de migrantes mexicanos e o desmantelamento das estratégias bilaterais atuais que lidam com as travessias ilegais na fronteira entre os países. (Colaboraram Georgi Kantchev, Laurence Norman e José de Córdoba – Tradução de Lilian Carmona, Mario Zamarian e Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico