O Banco Central afirmou nesta quinta-feira (26) que, caso o trânsito pelo Estreito de Ormuz siga interrompido por período prolongado em decorrência do conflito entre EUA, Israel e Irã, ou se a tensão ganhar dimensão regional, o impacto sobre os preços e a atividade econômica pode ser significativo e duradouro. Neste contexto, a alta das expectativas de inflação, dos prêmios de risco e da inclinação da curva de juros podem exigir reação “preemptiva” (preventiva) das autoridades monetárias, que seguem atentas ao cenário.
A análise consta do Relatório de Política Monetária (RPM) de março, divulgado hoje. Em suma, o BC avalia que o conflito no Oriente Médio “complica” a condução da política monetária, ao exigir atenção aos efeitos secundários do choque de oferta e ao risco de tratar como transitórias pressões inflacionárias persistentes. “Elevação das expectativas de inflação, prêmios de risco e inclinação na curva de juros podem sinalizar a necessidade de reação preemptiva”, diz.
“De qualquer maneira, os bancos centrais continuam atentos à dinâmica da inflação e da inflação subjacente, às expectativas inflacionárias, ao nível de emprego, ao balanço de riscos e, agora, aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, reforçando a necessidade de manter uma política monetária flexível e uma comunicação transparente”, emenda.
Segundo o BC, se o choque nos preços de energia se mantiver, será crucial avaliar como esse efeito se transmite para a inflação e para o crescimento econômico, o que influenciará a calibração das políticas fiscal e monetária nos próximos meses.
A autoridade monetária acrescentou que, embora recente, a alta dos preços de energia já elevou as expectativas de inflação no curto prazo. “Em síntese, o conflito no Oriente Médio traz uma incerteza adicional ao cenário prospectivo de inflação e de crescimento. À medida que o conflito se estende, o fluxo de matérias-primas no Estreito de Ormuz fica comprometido, pressionando os preços para cima”, diz.
No entanto, o BC pondera que a transmissão do choque de preços das commodities energéticas para o consumidor será heterogênea e dependerá do “arcabouço de definição de preços” de cada país.
“A magnitude e a distribuição temporal dos repasses à inflação dependerão não só da intensidade e da duração do conflito, mas também da efetividade das respostas de mitigação. Dependerá também da persistência do choque de oferta sobre a atividade, quer por limitar a capacidade de produzir energia para além do conflito, quer por motivar reorganização defensiva adicional nas cadeias de suprimento”, afirma.
Os países mais diretamente ligados ao conflito e aqueles mais dependentes da importação de commodities energéticas, segundo o BC, tendem a ser os mais afetados, o que aumenta a necessidade de medidas fiscais para mitigar os efeitos da desaceleração da atividade.
No caso de economias com espaço fiscal limitado, a perspectiva de aumento do endividamento soberano eleva os riscos à sustentabilidade da dívida. “Expectativas de ganhos de produtividade permanecem como principal contramovimento, embora dependam da disponibilidade e do custo da energia”, pondera.
A autoridade monetária também atribui o aumento dos riscos e das incertezas para as economias emergentes às dúvidas em torno da política comercial dos Estados Unidos. “A decisão da Suprema Corte do Estados Unidos de suspender parte das tarifas comerciais, a reação do executivo americano de impor a tarifa global e a falta de definição em geral sobre esse tópico mantêm a incerteza elevada, afetando negativamente a atividade, a confiança e o investimento”, cita.
Segundo a autoridade, as expectativas de inflação para o fim de 2026 e 2027 nas principais economias emergentes permanecem, em sua maioria, dentro do intervalo das metas, embora com aumento dos riscos. Já nas economias avançadas, o ciclo de flexibilização monetária foi concluído ou deve se encerrar até 2026, havendo inclusive, em alguns casos, expectativa de alta de juros.
Inflação e crescimento
O BC também mencionou, no Relatório de Política Monetária, que o conflito no Oriente Médio eleva o grau de incerteza em torno das projeções de crescimento do Brasil e que, em caso de prolongamento, seus efeitos devem ficar mais nítidos.
“O recente conflito no Oriente Médio eleva o grau de incerteza ao redor das previsões. Em caso de prolongamento, seus efeitos devem ficar mais nítidos. Embora alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, possam se beneficiar, os efeitos agregados predominantes do conflito, na economia global e na doméstica, devem ser os usuais de um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e diminuindo o crescimento”, informa.
Os dados disponíveis até o momento indicam, de forma geral, crescimento da atividade econômica no início de 2026. O BC cita que a isenção do Imposto de Renda para Pessoas Físicas (IRPF) e o aumento do salário mínimo tendem a contribuir para a aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre.
“Contudo, os efeitos dessas medidas ainda não são claramente perceptíveis nos indicadores coincidentes de fevereiro, mês em que começam a afetar a renda das famílias, nem na confiança dos consumidores, que recuou no mês”, diz.
O BC afirma que, no cenário fiscal, não houve mudanças significativas desde o Relatório anterior, divulgado em dezembro. Já a trajetória crescente da dívida pública deve continuar nos próximos anos. O Relatório de Projeções Fiscais da Secretaria do Tesouro Nacional, divulgado em janeiro deste ano, mostra a projeção da razão entre dívida bruta do governo geral (DBGG) e PIB em 86% em 2026 e 88% em 2030.
A autoridade monetária cita também que as expectativas para a inflação apresentaram leve recuo para 2026, mas continuam desancoradas em todo o horizonte de projeção. O mercado de trabalho segue aquecido, com queda do desemprego e expansão do salário médio real.
Em relação ao ano passado, o BC aponta que os setores mais cíclicos da economia tiveram desempenho modesto, enquanto os menos cíclicos apresentaram maior dinamismo. Já as condições de crédito tornaram-se mais restritivas em 2025, em linha com o aperto monetário implementado.
Fonte: Valor Econômico


