Por Marina Guimarães, Especial para o Valor — Buenos Aires
26/10/2023 13h50 Atualizado há uma hora
Defasagem de preços, escassez de dólares, baixa produção interna de biocombustível e aumento da demanda por causa do início do plantio da soja geram escassez de combustíveis na Argentina. O quadro se completa com a tensão do período eleitoral que favorece a especulação.
Nos postos de combustíveis são cada vez maiores as filas de caminhoneiros para abastecer. “Quanto mais distante da capital, encontramos postos que aumentam os preços e outros que guardam os combustíveis para esperar uma alta — um pouco de abuso de um lado e de especulação do outro”, revela uma fonte do setor ao Valor.
Além disso, essa fonte observa que nesta época do ano algumas refinarias argentinas param por algumas semanas para trabalhos de manutenção, o que se “coincide” com a demanda do produtor com o início do período do plantio de soja. Para essa fonte, a falta de dólares é um fator, mas não o predominante, para essa situação de desabastecimento.
“O país produz petróleo. Não vejo a importação ou a falta de dólares como um fator tão importante. A falta de dólares se aplica mais à importação de peças de reposições, bens críticos… salvo alguma importação pontual de diesel”, disse um executivo de uma companhia petrolífera. Para ele, “o problema é a defasagem de preço”.
Fonte da câmara de postos de combustíveis das províncias produtoras de petróleo, Neuquén e Rio Negro, disse ao Valor que como os postos não são formadores de preços, estão sujeitos as companhias de energia. “Os preços são formados pelas companhias petrolíferas, mas é claro que em relação à inflação, os preços estão atrasados”, reconhece.
Na segunda-feira, o ministro de Economia e candidato à presidência, Sergio Massa (Union por la Pátria), autorizou o aumento de 4,5% dos preços para os consumidores. Os reajustes são trimestrais e variam entre 3,5% a 4,5% para a estatal YPF. As demais companhias ajustam um pouco mais, entre 4,5% a 5,5%.
“Apesar desta alta, nós continuamos sem receber os volumes normais que costumávamos receber das empresas e, por isso, os combustíveis acabam rápido. Há semanas que temos este problema de receber menor volume”, revela uma fonte.
Outra fonte do setor conta que enquanto os preços no varejo são controlados, o mesmo não ocorre no atacado, nas entregas para os postos ou para particulares, como os produtores rurais, que têm maior poder de fogo.
“Alguns produtores rurais pagam carregamentos diretamente das petroleiras para garantir os combustíveis que usarão no plantio da soja”, disse. “Como está muito mais caro um caminhão da YPF [ou de outra companhia] para descarregar direto na fazenda, alguns fazendeiros vão nos postos varejistas e levam todo o combustível que podem. Isso resulta nas longas filas para o cidadão comum”, explica.
Para completar, uma fonte ressalta que a produção dos biocombustíveis estava paralisada na Argentina até segunda-feira, porque os exportadores estavam retendo a soja e o milho à espera de uma cotação melhor do dólar. Para destravar essa situação, o ministro-candidato Massa anunciou um dólar exportador, que trouxe um ganho de cerca de 6% aos exportadores agrícolas. “Estavam esperando um novo dólar soja, em torno de 600 pesos, para embarcar as vendas externas e destinar o que sobra para o mercado interno produzir os biocombustíveis usados para a mistura dos combustíveis”, como exige a lei, acrescentou.
Em nota distribuída à imprensa, a Confederações Rurais Argentina (CRA), uma das organizações mais representativas dos produtores, afirma que entre os graves problemas econômicos que o país enfrenta “se verifica falta de produtos ou insumos básicos para a vida cotidiana, e agora se soma o desabastecimento de combustíveis”.
Num país que depende principalmente da logística rodoviárias, do transporte de mercadorias por caminhões, e com uma matriz produtiva fundamentalmente agropecuária, a falta de combustível “gera um caos produtivo, seja no plantio, na distribuição de alimentos ou na vida cotidiana”, ressalta a nota.
O comunicado da CRA diz ainda que a falta de combustíveis em todas as províncias está provocando atrasos nos trabalhos no campo, afetando seriamente o início da nova safra. A nota denuncia “que diante da necessidade cresce o abuso e aparecem as cotas e as sobretaxas” nos preços do diesel, cuja demanda foi impulsionada nos últimos dias, após as chuvas nas regiões centrais de produção de soja.
“Os produtores são obrigados a pagar preços elevados no mercado paralelo de combustível, o que sem dúvida agrega custos de produção e reduz as margens de rentabilidade”, afirma.
A Sociedade Rural da Argentina (SRA), a maior representante do setor, também divulgou nota na qual afirma que o “conflito entre a YPF e o Banco Central para adquirir dólares e garantir o abastecimento de combustíveis persiste”. Segundo a nota, há três navios-tanques no Rio da Prata sem poder descarregar por falta de autorização do governo para o uso de dólares por parte da companhia. “Acho isso raro porque a YPF é estatal e estamos em campanha eleitoral. Por que haveria um confronto da estatal com o governo se isso o prejudica?”, indaga a fonte.
Fonte: Valor Econômico

