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CEOs de importantes corporações brasileiras à frente das conversas do B20, grupo que conecta a comunidade empresarial a governos dos países dentro do G20, veem nos preparativos para o encontro de cúpula do grupo, em novembro, uma oportunidade ímpar para o Brasil avançar em temas importantes. Entre as principais janelas, estão a liderança nos debates acerca da busca por fontes de energia mais limpas, desenvolvimento de políticas públicas mais precisas para a educação e os aprendizados para a transformação digital em curso no mundo.
Coordenado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o B20 realizou na semana passada sua cúpula para debater recomendações e temas prioritários à agenda do Brasil na presidência do G20. Cada força-tarefa do grupo apresentou três recomendações, totalizando 24, das quais saíram duas iniciativas de políticas públicas em cada recomendação, para serem desenvolvidas junto com o setor privado.
Ricardo Mussa, presidente da Raízen, destacou que o Brasil é parte central nas conversas globais na direção de soluções para a produção de energia sustentável. “Temos uma grande oportunidade. O Brasil deveria ser grande exportador de energia renovável”, disse o executivo ao Valor. Mussa comanda as conversas do grupo de transição energética do B20. Em novembro, Mussa assume a Cosan investimentos e terá assento no conselho da holding
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Ele destacou que o Brasil hoje já tem uma matriz mais limpa do que a média global, ao passo que já tem energia renovável mais acessível. “Nesse sentido, o Brasil não é parte do problema. Ele é parte da solução”, afirmou.
A busca por aumentar a produção de renováveis é uma das recomendações do grupo de trabalho liderado por Mussa. A meta é de triplicar a produção até 2030. O Brasil tem grande experiência no tema diante da sua força com biocombustíveis. O cenário, segundo Mussa, abre espaço para novos campos, como o combustível sustentável de aviação (chamado de SAF), que hoje não é produzido no país.
Mas o Brasil tem um desafio particular: a redução do seu desmatamento, que leva o país a contribuir de forma significativa para as emissões globais. “É preciso encontrar mecanismos e atributos de se manter a floresta de pé. Esse ponto é muito crítico e está muito alinhado com a agenda do governo”, disse.
Claudia Sender, conselheira de empresas da Telefônica (Espanha), Holcim (Suíça), Gerdau e Embraer, disse que uma das grandes oportunidades do Brasil hoje é atacar o tema da corrupção verde – o tópico é uma das metas da força-tarefa de integridade e compliance, liderada por Sender. Mesmo com uma matriz energética limpa, o país figura como um dos maiores emissores de carbono do mundo por causa das queimadas.
“Na maior parte dos países do mundo é a indústria a maior poluidora. No Brasil, as queimadas e o desmatamento que são as maiores emissoras. Sabemos que o Brasil tem capacidade de ser potência durante a transição energética e de ser um grande player com a captura de carbono”, disse Sender. A oportunidade, entretanto, pode virar risco uma vez que o país pode ser punido e sofrer o bloqueio a suas exportações caso não ataque o problema.
Sender destacou que os debates sobre compliance e integridade em diversos países acabam focando na punição. “Queremos olhar de maneira diferente. Quase não existe hoje um estímulo a um comportamento positivo”, disse. A executiva lembrou que no Brasil a Controladoria-Geral da União (CGU) criou um selo Pró-ética. “Uma das nossas recomendações é estímulos a empresas éticas. O estimulo para que o comportamento ético não seja só seguro, por evitar punições, mas que seja rentável”, disse. O reconhecimento viria tanto de selos públicos, como até eventuais acessos privilegiados a licitações.
Na mesma direção de uma revisão de paradigmas, Luciana Antonini Ribeiro, sócia co-fundadora da EB Capital, disse que as conversas acerca do clima hoje estão muito focadas nos riscos e prejuízos. “Esses riscos são reais. Sou gaúcha e vi o desafio climático. Mas temos a perspectiva de oportunidade e que é pouco falada por aqui”, disse.
Ribeiro destacou que as grandes revoluções da humanidade levaram empresas e países a liderar a economia global. “Na industrial, por exemplo, os ganhadores foram os países e empresas que foram capazes de usar as máquinas como instrumento. Se você me perguntar o próximo ciclo, eu acredito que estamos falando das empresas e países que entenderem a transição para uma economia de baixo carbono”, disse a executiva, apostando na oportunidade do Brasil de liderar nessa área. “O Brasil é país que tem tudo para atuar na transição climática como um grande celeiro de soluções para o mundo, não só viabilizando sua descarbonização, mas apoiando os outros países”, disse.
As recomendações da força de trabalho de finanças e infraestrutura, liderada por Ribeiro, vão na direção de trazer o investimento privado para a transição energética e sobretudo aumentar o papel dos bancos multilaterais e de desenvolvimento no fomento das oportunidades de negócio na área. “Existe hoje uma dispersão em quanto os bancos aportam e quanto de fato isso mobiliza de capital privado”, afirmou. A meta do grupo é de que até 2030 cada dólar público investido traga US$ 5 do capital privado na descarbonização da economia. Hoje, essa relação varia a depender do projeto, mas chega a ser US$ 0,6 aportado pelo capital privado a cada dólar público investido, conforme dados da consultoria Convergence.
Walter Schalka, membro do conselho da Suzano e da Vibra Energia e líder do grupo de trabalho ligado ao emprego e educação, destacou a importância do tema para o futuro do país. “Não teve nenhum país do mundo que passou de subdesenvolvido para desenvolvido sem educação. É uma correlação direta. A educação básica de alta qualidade é o começo do nosso futuro. A nossa qualidade de educação ainda não é suficiente”, disse. O executivo destacou que uma das primeiras metas hoje é levar a escola de período integral para todo o país.
Schalka destacou que o setor empresarial brasileiro hoje tem uma responsabilidade como gerador de ideias e implementações de soluções para um bem-estar social. “Acabou o mundo em que a responsabilidade do líder era a maximização da lucratividade olhando para dentro da cerca. Temos de olhar para fora da cerca e saber que temos responsabilidade junto à sociedade. Como podemos participar, com ações práticas, em cada um dos setores da sociedade para ajudar a transformar o Brasil em um país melhor e mais inclusivo?”, questionou.
Fernando de Rizzo, CEO da Tupy e líder da força-tarefa de Transformação Digital do B20, disse que a realização do G20 no Brasil é importante porque coloca o país no centro das discussões. “Isso nos permite ter mais voz na definição das prioridades, atrair investimentos e reforçar a imagem do Brasil como um líder na transição à economia baixo carbono, considerando a nossa alta disponibilidade de fontes energéticas como os biocombustíveis, por exemplo”, disse.
Questionado sobre os desafios para a transformação digital dentro do Brasil, Rizzo afirmou que embora exista uma discussão muito forte relacionada à regulação, o foco deveria estar direcionado ao propósito das tecnologias. “A inteligência artificial, por exemplo, tem potencial para melhorar a vida das pessoas, seja na saúde, acelerando diagnósticos e descobrindo novos medicamentos, seja na educação, ampliando o alcance, personalização e acesso. Nos negócios, vai contribuir com ganhos de eficiência e escala, redução de gargalos, geração de oportunidades”, comentou.
Rizzo destacou ainda que atualmente cerca de 22,4 milhões de brasileiros não estão conectados à internet. “Essa realidade também alcança as pequenas e médias empresas, que são responsáveis pela maior parcela de empregos gerados no país. Então, o papel transformador começa pela inclusão das pessoas, por meio da capacitação, e dos negócios, facilitando o acesso às tecnologias, que vão levar à maior produtividade e competitividade”.
Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, disse que a força-tarefa do B20 sobre comércio e investimento (C&I) enfrenta um mundo marcado por desafios geopolíticos e econômicos significativos que remodelaram o cenário internacional de comércio e investimento.
“O mandato de nossa força-tarefa é claro: promover um sistema de comércio global aberto, resiliente e sustentável que não apenas prospere, mas também promova o crescimento inclusivo em todas as nações”, disse o executivo, que lidera a força tarefa para o B20, em nota ao Valor.
Entre as recomendações do grupo dentro das propostas à mesa, está a o reforço do sistema multilateral de comércio, por meio da reforma do Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) da Organização Mundial de Comércio (OMC) e de seus processos. “Também defendemos um maior envolvimento do setor privado na formulação de políticas internacionais e o avanço de novos acordos multilaterais e plurilaterais para liberalizar o comércio de bens e serviços.”
Outro tema no escopo de trabalho do grupo de Gomes está a mudança global para economias mais verdes, defendendo metodologias padronizadas e boas práticas regulatórias. “Com regras harmonizadas, as empresas podem navegar com mais facilidade e eficácia na transição para cadeias globais de valor neutras em emissão de carbono”, disse.
Em sua declaração final, após dois dias de reunião, o Conselho Consultivo do Business 20 também concluiu que o Brasil tem vantagens em relação a muitos países do G20 e está bem posicionado tanto para contribuir quanto para se beneficiar da transição energética e da transformação digital, ao mesmo tempo em que busca o desenvolvimento econômico e enfrenta desafios como a fome e a pobreza, afirma o texto.
No comunicado, os membros do B20 afirmaram que o Brasil pode ter uma contribuição significativa para a descarbonização global, ao aproveitar sua capacidade natural de redução de emissões em biocombustíveis, energias renováveis e outras fontes de energia, como o hidrogênio verde.
“O uso inovador da biomassa para geração de energia ressalta o potencial do país para avançar nas práticas de energia renovável e sustentável”, acrescenta o texto. “Com base nesses pontos fortes, o Brasil poderia, por exemplo, tornar-se um dos principais produtores de combustível sustentável de aviação e, assim, estabelecer um marco importante na transição global para a adoção de energia sustentável.”
No campo de inteligência artificial, o B20 diz que o Brasil pode fortalecer seu papel nas discussões globais sobre regulamentação, padrões e práticas de apoio à inovação, ao promover parcerias público-privadas, que podem ajudar o Brasil a aumentar a produtividade e a competitividade.
Na declaração, o conselho do B20 defendeu ainda manter o comércio global nos moldes do multilateralismo como motor do desenvolvimento, argumentando que as relações entre comércio e desenvolvimento sustentável se reforçam.
“A expansão do acesso aos mercados globais e o combate ao crescente protecionismo serão fundamentais para garantir que o Brasil aproveite essas oportunidades e continue desempenhando um papel importante na construção de uma economia global mais resiliente”, diz o texto do comunicado.
O documento traz 24 recomendações do B20, elaboradas pelas sete forças-tarefa e pelo conselho de ação, como preparar uma força de trabalho resiliente e produtiva para o futuro do trabalho, dobrar a eficiência energética, promovendo a eficiência dos recursos e a economia circular, acelerar a implantação de capital privado em escala para facilitar a transição para uma economia sustentável de baixo carbono, promover um ambiente inclusivo para o futuro do mercado de trabalho. As recomendações coincidem com a agenda do Brasil no G20, pautada nos lemas de combate à fome e à pobreza e transição energética justa.
Também estão presentes no comunicado três pilares deixados pelo B20, com vistas a um trabalho que não fique restrito a uma determinada presidência do G20, como o B20-Sociedade, que busca parceria com outras organizações para iniciativas de impacto na sociedade, o B20-B20, para garantir a continuidade e o impacto de longo prazo das recomendações e processos do grupo, e o B20 Brasil, cujo objetivo é selecionar tópicos relevantes para o contexto brasileiro, a serem liderados por entidades públicas e privadas brasileiras.
Fonte: Valor Econômico