A resposta a essa pergunta viria na matéria publicada em 02 de abril de 2026, pela renomada Erin Griffith, do New York Times. Griffith, que em passado recente cobriu com maestria a ascensão e queda da healthtech Theranos, em uma fraude de US$9 bilhões.
Segundo o NYT, Matthew Gallagher, um empreendedor de passado difícil de Los Angeles, havia criado um negócio de US$1,8 bilhão a partir de um investimento inicial de US$20 mil e muitas ferramentas de IA interconectadas. Concretizando, assim, a profecia de Altman.
A MEDVi se propõe a orquestrar a cadeia do GLP-1 para redução de peso nos EUA, atacando um mercado de US$200 bilhões, segundo estimativas do J.P. Morgan. Especificamente, a oportunidade que Gallagher observou é o GLP-1 manipulado, que vinha sendo vendido em farmácias de manipulação reguladas pela Seção 503A a nível estadual, até abril de 2025, e que ainda se encontrava em uma zona cinzenta de regulamentação, gerando assim uma demanda reprimida sem precedentes.
A tempestade já era perfeita mesmo sem o elemento IA. Porém, diante da brecha regulatória e de muita sagacidade tecnológica, a MEDVi alega ter faturado US$ 401 milhões em 2025 com seu modelo disruptivo baseado em Agentes de IA e, segundo suas projeções de vendas, atingirá US$ 1,8 bilhão ao final de 2026, autoproclamando-se a empresa de maior crescimento da história e a primeira a atingir US$ 1 bilhão com uma única pessoa.
O case, impressionante para qualquer empreendedor, instigou o time de Due Diligence da Aleso & Company, firma de Consultoria em Finanças e M&A em Saúde, com escritórios em Orlando, na Flórida, e em São Paulo, fundada por Renan Aleluia, que há 15 anos atua no setor e afirma nunca ter visto nada parecido com o caso da MEDVi.
Como funciona o modelo de negócios
“Primeiramente, a MEDVi não é uma empresa de saúde no sentido tradicional”, afirma Renan. A empresa não emprega médicos, não opera farmácias, não manipula medicamentos e não gerencia logística de envio. A empresa é, em essência, um funil de marketing digital com um checkout médico acoplado.
A estrutura operacional da empresa se divide em três camadas distintas, cada uma operada por entidades diferentes:
Camada 1 – Aquisição de Clientes (MEDVi): Matthew Gallagher e seu irmão Elliot controlam toda a interface com o cliente: marca, website, anúncios pagos (Facebook/Instagram), checkout, chatbot de atendimento (alimentado por IA) e analytics. Toda essa camada foi construída com ferramentas de IA – ChatGPT, Claude, Grok para código e copy; Midjourney e Runway para criativos visuais; ElevenLabs para voz.
Camada 2 – Infraestrutura Clínica (OpenLoop Health / CareValidate): Essas plataformas de telemedicina como serviço fornecem os médicos licenciados, o processamento de prescrições, o cumprimento regulatório e o roteamento para farmácias. A MEDVi paga por transação.
Camada 3 – Manipulação e Envio (Farmácias 503A/503B): Farmácias como Boothwyn Pharmacy e Triad Rx manipulam a semaglutida e a tirzepatida composta e enviam diretamente ao paciente.
A fragmentação da operação como risco ao paciente
A fragmentação da operação é, por si só, um risco ao paciente. Quando algo dá errado, reação adversa, prescrição contra indicada, vazamento de dados, a responsabilidade é quase impossível de rastrear sem muito tempo de dedicação:
A MEDVi dirá que não é o prescritor e indicará o paciente para falar com o médico. A OpenLoop, que não é uma clínica, alegará que a decisão clínica foi do médico. O médico, que em alguns casos sequer realizou a consulta, alegará que avaliou as informações que o paciente forneceu pela plataforma. E a farmácia dirá que somente manipulou o que foi prescrito.
Diferente de um hospital ou clínica médica, em que a responsabilidade do cuidado é da instituição e que investe milhões em comitês de ética médica, auditoria clínica e certificações como a HIPAA, a estrutura fragmentada da MEDVi não protege o paciente.
A empresa diz ter margem de 16,5%, enquanto sua principal concorrente, a Hims & Hers (HIMS), com market cap de US$ 4,2 bilhões, roda com 5,5%, por outra ótica, o ganho da empresa consiste em simplesmente eliminar toda camada de Compliance, Regulação e Gestão de Riscos, que em empresas convenciais são altamentes custosas.
Obs.: a Hims & Hers (HIMS) ganhou US$270 milhões em valor de mercado e fechou em alta de 6,22% em 06/04/2026.
A filosofia “Fake it until you make it” na saúde é destrutiva
O risco ao paciente, que já seria alto, se multiplica quando o uso de IA para escalar a operação ultrapassa as barreiras da ética em negócios de saúde.
Em janeiro de 2026, a OpenLoop, principal fornecedor da Medvi, teve dados de 1,6 milhão de pacientes vazados e uma ação em curso lista também a Medvi como co-responsável, a maioria dos pacientes expostos estava em tratamento com GLP-1. Em fevereiro de 2026, o FDA notificou a empresa por prática de marketing falso e abusivo.
O caso não é novo na mídia especializada americana. Em maio de 2025, a jornalista Maggie Harrison Dupré, do portal Futurism, já havia publicado um dossiê com práticas duvidosas, entre elas: anúncios gerados com IA que utilizavam a marca Ozempic® da Novo Nordisk para comercializar outro produto manipulado.
Além dos anúncios enganosos, foram identificadas imagens e vídeos falsos de pacientes “antes e depois” do uso das medicações.
Até o momento, as práticas mais controversas foram expostas pelo editor-chefe da revista americana especializada no setor farmacêutico Drug Discovery Trends, Brian Buntz, com quem Renan entrou em contato para obter mais informações sobre a diligência.
Buntz afirma que a empresa criou perfis falsos de médicos para anunciar produtos sem eficácia comprovada, como a tirzepatida na apresentação oral, que não tem aprovação do FDA, e a própria fabricante informa que não há a mesma eficácia do injetável. “O resultado financeiro dessa prática é um custo de aquisição de cliente muito mais baixo do que seria se estivessem atuando dentro das práticas éticas do mercado”, e que para uma plataforma de marketing, é crucial. afirma Renan.
Afinal, a MEDVi é uma empresa de US$1,8 bilhão?
A empresa alega ter faturado US$401 milhões com 16,5% de margem bruta. No caso do modelo de intermediação, a receita real a ser considerada seria de aproximadamente US$67 milhões e, descontados os custos de anúncios e tokens de IA, o EBITDA tende a ser bem menor. Empresas que se posicionam como um híbrido de agência de marketing e intermediário geralmente negociam com múltiplo de receita de 0,8x a 1,5x. Dessa forma, seria mais possível apontar um valuation entre US$50 e US$100 milhões, o que já seria impressionante para uma empresa com pouco mais de 1 ano de vida e 2 funcionários. Entretanto, ao considerar os riscos estruturais, esse valor seria claramente depreciado.
O valor anunciado de US$1,8 bilhão é apenas uma projeção de vendas do fundador e não deve ser interpretado como receita, lucro, geração de caixa ou valuation. Portanto, a menos que algum investidor, contra todas as probabilidades, invista ou adquira a companhia, a MEDVi não é a empresa de US$1 bilhão que Altman profetizou.
Renan Aleluia afirma que, do ponto de vista de valuation, “o número divulgado parece muito distante da realidade.” Ao sensibilizar os múltiplos pelos riscos estruturais do negócio, a degradação reputacional perante o público, a ausência de moat defensável, o provável aumento no custo de aquisição de clientes diante de um possível banimento pela Meta em razão dos anúncios fraudulentos (que, até então, constituem o principal motor de geração de valor da companhia), e ao considerar que é questão de tempo até que os litígios em curso comecem a corroer o balanço ou, no limite, suspendam a operação, o consultor conclui que o valor justo do negócio tende a zero.
Riscos mapeados pelo consultor em pesquisa
Diante dos riscos estruturais do negócio e limitação de estrutura para endereçá-los, tendem a fazer com que a companhia deixe de operar ou seja multada pelo FDA ou FTC em milhões, além das ações civeis já em curso.
Para concluir, Renan afirma que a IA é simultaneamente a grande oportunidade e o grande risco do setor. Sendo assim, diligências e avaliações profundas dos negócios se tornam cada vez mais necessárias.
Sobre a Aleso & Company LLC
(Atua no Brasil sob o nome Aleso Consulting)
Aleso & Company é uma boutique de assessoria financeira especializada em Investment Banking, Transaction Advisory, Corporate Finance e Private Equity, atendendo empresas de médio porte, fundos de PE e family offices. Com raízes no Brasil e base em Orlando, FL, a firma está expandindo sua atuação no mercado americano, combinando delivery offshore e serviços especializados em Healthcare e Farmacêutico para o mid-market.
Sobre Renan Aleluia
Renan Aleluia é consultor de Corporate Finance, M&A e FP&A com mais de 15 anos de experiência, passagens por Deloitte, PwC e KPMG, e atuação em mais de 60 projetos complexos, incluindo M&A, reestruturação de dívida e valuation nos setores de healthcare, pharma e tecnologia. Fundador da Aleso Consulting e da Aleso & Company LLC, atende clientes nos EUA, Reino Unido e Brasil com assessoria de nível institucional, tendo participado de operações que somam mais de US$800 milhões entre reestruturações e fundraising. Funcou 3 startups em saúde e é embaixador da Associação Brasileira de Startups de Saúde.
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Fonte: Valor Econômico