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O avanço das canetas emagrecedoras no Brasil já está produzindo efeitos concretos no comportamento das famílias – da classe A à classe C. Os impactos vão desde a queda no consumo de ultraprocessados, e a substituição por alimentos mais naturais, até a redução da frequência em restaurantes e pedidos de delivery.
É o que mostra pesquisa do Instituto Locomotiva, obtida com exclusividade pelo Valor. Entre os dia 3 e 9 de fevereiro foram ouvidas 1.004 pessoas em todo o país por meio de questionário digital de autopreenchimento. A amostra foi ponderada por região, gênero, idade e renda, de acordo com o perfil da população brasileira medido pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE.
De acordo com o levantamento, 95% dos domicílios em que há usuários desses medicamentos registraram redução no consumo de pelo menos uma categoria de alimentos ou bebidas. Os segmentos mais afetados foram doces, snacks e salgadinhos (70%), bebidas açucaradas (50%), massas e outros carboidratos (47%), bebidas alcoólicas (45%) e alimentos ultraprocessados (42%).
Ao mesmo tempo, cerca de 4 em cada 10 domicílios tiveram aumento no consumo de pelo menos uma categoria, com destaque para proteínas magras (30%), frutas e vegetais (26%), alimentos integrais (25%) e água ou chás sem açúcar (22%). “A saudabilidade já era uma tendência. O que estamos vendo agora é esse movimento se acelerar com o uso das canetas”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
As mudanças também afetam as refeições fora de casa. Nos domicílios em que há uso das canetas emagrecedoras, 47% registraram diminuição na frequência de ida a restaurantes, enquanto 56% reduziram os pedidos de delivery e fast food.
Um dos fatores que ajudam a explicar essas mudanças é a diminuição do apetite de quem está em tratamento. Ao liberarem substâncias no organismo que imitam o hormônio GLP-1, esses medicamentos retardam o esvaziamento do estômago e dão maior sensação de saciedade. Segundo o estudo da Locomotiva, 80% dos domicílios com usuários das canetas relatam redução do apetite.
Sob a perspectiva socioeconômica, chama a atenção a penetração desses medicamentos na população de menor poder aquisitivo. Entre os respondentes das classes C, D e E, 30% afirmaram que alguém do domicílio usa ou já usou o medicamento. Nas classes A e B, esse percentual é de 39%.
Para Meirelles, esses números refletem também a força do mercado paralelo. “Muita gente fala do mercado formal, das patentes que podem popularizar, mas esquecem do mercado informal. Só tem produto pirata se tem demanda”, diz.
Conforme noticiou o Valor, o Sindusfarma, sindicato da indústria de produtos farmacêuticos, está denunciando clínicas e anúncios que comercializam no Brasil canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai. Apesar da proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a reportagem identificou produtos sendo vendidos em grupos de WhatsApp e até no marketplace do Facebook.
Além disso, a quebra de patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy – da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk -, em março deve ampliar o acesso a essa classe de produtos. De acordo com análise da consultoria Lek, o fim da exclusividade deve resultar em uma queda de aproximadamente 70% nos custos desses medicamentos, uma vez que abre espaço para a produção de versões genéricas ou biossimilares
Segundo a Anvisa, há 20 solicitações para medicamentos com semaglutida, incluindo biológicos e sintéticos. Entre as companhias que informaram interesse em entrar nesse segmento estão Hypera, Biomm, EMS e Eurofarma. Esta última já distribui versões locais do medicamento de perda de peso e obesidade da farmacêutica dinamarquesa.
As empresas também estão atentas a novos formatos para além das canetas. A Novo Nordisk lançou em janeiro a versão em comprimido do Wegovy, sendo a única a ter o registro para esse tipo de fabricação. Segundo a empresa, a eficácia é equivalente à da formulação injetável, promovendo uma redução de peso de aproximadamente 16,5%.
Hoje essa versão é comercializada apenas nos Estados Unidos, mas o comando da farmacêutica já sinalizou que considera o Brasil um dos mercados prioritários para o lançamento do comprimido. “Essa inovação é crucial para atrair pacientes que possuem aversão a agulhas, removendo uma das principais barreiras de entrada para o tratamento”, escreveram os analistas do J.P. Morgan em relatório.
Para o varejo, especialmente aquele mais popular, que atende um consumidor com o bolso mais apertado, esse cenário deve acender um alerta, afirma Meirelles, do Locomotiva. “No Brasil o dinheiro é contado. Se a pessoa usa recursos para comprar um medicamento, vai faltar em outro lugar. No fim, é menos dinheiro na economia real”, diz.
Fonte: Valor Econômico