Já com um clima de reta final de mandato, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, relembrou os desafios e conquistas de seus mais de cinco anos à frente da autoridade monetária, durante homenagem recebida na Assembleia Legislativa de São Paulo na noite de segunda-feira. O dirigente citou em seu discurso que os desequilíbrios decorrentes das políticas de enfrentamento à pandemia de covid-19 resultaram no retorno da inflação global. E disse que, atualmente, a dificuldade de identificar fontes de queda da inflação reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária.
Ao falar de sua gestão, disse que, “se fosse um livro, teria oito capítulos”. Afirmou que já no discurso de posse, em 13 de março de 2019, “embriões” de futuras realizações, como o Pix e o “open banking”, já faziam parte das ideias que pretendia levar à instituição. Reiterou que, desde o início de seu mendato, a missão “primordial” da autoridade sempre foi “buscar incansavelmente assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente”.
Mas lembrou haver mais ideias do que ele poderia levar adiante na chefia do BC, como modernizar o Sistema Financeiro Nacional (SFN) e desenvolver o mercado de capitais. “Eu também estava convencido de que a tecnologia e a inovação seriam as bases para o amplo processo de inclusão e democratização financeiras e para a modernização do SFN.”
O segundo “capítulo”, disse Campos Neto, seria a criação da agenda BC#, uma evolução da inciativa BC+, criada na gestão anterior. Conforme o dirigente, os objetivos eram aumentar a competitividade e a eficiência do SFN; promover a democratização dos serviços financeiros por meio da tecnologia; e desenhar o sistema financeiro do futuro.
O terceiro capítulo seria dedicado ao enfrentamento da covid-19. Segundo o presidente do BC, “em poucos dias [desde o fim de fevereiro de 2020], a doença evoluiria de um problema localizado para uma enorme crise global”.
Ele lembrou que, globalmente, a pandemia trouxe, como reação ao choque, a maior injeção fiscal da história, realizada de forma coordenada entre diversos países. “Esses impulsos fiscais atenuaram os impactos econômicos do choque, mas também causaram grandes desequilíbrios macroeconômicos”, avaliou.
O presidente da autoridade ressaltou que, durante a crise sanitária, “o BC implementou a maior injeção de liquidez e liberação de capital já realizada no Brasil”. Segundo o chefe da instituição, no total, as ações adotadas resultaram numa liberação de liquidez equivalente a 17,5% do PIB, e na liberação de capital com potencial de aumento no crédito de até 20% do PIB.
“Ao final, as medidas adotadas pelo BC e pelo governo transformaram a previsão de depressão severa em 2020 em recessão moderada. Em 2020, houve uma redução do PIB no Brasil de 3,3%, enquanto o FMI previu inicialmente uma queda de 9%.”
O presidente do BC dedicaria um capítulo à criação do Pix. Segundo Campos Neto, uma eventual data de “nascimento” do meio de pagamentos instantâneo foi 16 de novembro de 2020. De lá para cá, o Brasil se tornou o país que teve a adoção de meio de pagamento instantâneo mais rápida do mundo, quando consideramos o número de transações per capita.
Nos números do BC, o país conta com mais de 750 milhões de chaves registradas. O número de operações com o Pix já passa de 200 milhões por dia. De acordo com Campos Neto, o Pix também teve um papel muito importante para a inclusão financeira. “Cerca de 71,5 milhões de pessoas que não usavam o sistema bancário passaram a usar depois do Pix”, disse.
O dirigente citou em seu discurso que os desequilíbrios decorrentes das políticas de enfrentamento à pandemia resultaram no retorno da inflação global. O deslocamento da demanda de serviços para bens levou a um aumento de consumo de energia, mas sem oferta equivalente para suprir a elevação. Além disso, as interrupções nas cadeias impactaram o fornecimento de bens globalmente. “O resultado de todo esse processo foi o início da pressão inflacionária em nível global.”
No relato de Campos Neto, enquanto a maior parte dos BCs entendia que o aumento de preços seria temporário, a autoridade brasileira “foi capaz de reconhecer o caráter mais persistente da inflação”.
Campos Neto lembrou que o BC foi um dos primeiros bancos centrais a iniciar o aperto monetário, já em março de 2021. “Como resultado, a inflação no Brasil começou a diminuir relativamente mais cedo em comparação com outros países emergentes”, disse.
O presidente da autoridade monetária afirmou que a transição de governos representou um teste para a recém-conquistada autonomia do BC. “Com o início do novo governo, iniciou-se também o primeiro teste real da autonomia, que foi alvo de questionamentos em determinados momentos”, ressaltou. O próprio trabalho da autoridade tem sido questionado “em muitos momentos”, complementou.
No momento atual, o BC ainda enfrenta um cenário externo repleto de incertezas. Segundo o presidente da autoridade, “a conjuntura atual é marcada por um ambiente externo mais adverso, em função da incerteza elevada e persistente em relação ao início da flexibilização da política monetária nos EUA; e à velocidade com que se observará a queda da inflação de forma sustentada em diversos países”.
O dirigente reforçou que a dificuldade de se identificar quais fatores contribuirão para a continuidade da queda na inflação “reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária”.
Sobre o Brasil, o presidente do BC afirmou que assegurar a convergência da inflação para a meta ainda representa um desafio. “A reancoragem das expectativas de inflação é um elemento essencial para esse resultado. Isso requer uma atuação firme da autoridade monetária, bem como o contínuo fortalecimento da credibilidade dos arcabouços fiscal e monetário que compõem a política econômica brasileira.”
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Fonte: Valor Econômico


